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Catolicismo “iliberal”

Dave 77459

John Zmirak - Aleteia Vaticano - publicado em 04/01/14

Você até poderia ser perdoado se respondesse apenas que "todos eles estão é doidos". Mas essa não seria a resposta mais apropriada. O fato é que existe algo de muito grave acontecendo nos círculos intelectuais e educacionais católicos, um “algo” que, se continuar sem controle, acabará ameaçando a causa pró-vida, a influência da Igreja na sociedade e a segurança e liberdade dos católicos nos Estados Unidos.

O crescimento do catolicismo “iliberal” vai reforçar o poder da esquerda laica intolerante, vai reacender (e justificar plenamente) o velho anticatolicismo que marcou o país durante tanto tempo e vai deixar os católicos dos Estados Unidos ridiculamente relegados a segundo plano, a exemplo do que já acontece em países como a Espanha e a França, nos quais a causa da Igreja passou a ser vista como necessariamente vinculada aos séculos de governo autocrático e de intolerância religiosa.

Estamos testemunhando o colapso de uma síntese magnífica: a aliança entre liberdade e fé, uma conquista em que os católicos americanos foram pioneiros no século XIX, contrapondo-se tanto aos vizinhos protestantes hostis quanto às irrefletidas e falíveis declarações papais que endossaram a queima de livros, comprometeram a liberdade religiosa e condenaram os católicos da Irlanda e da Polônia por se levantarem contra os seus opressores "legítimos".

Esta síntese atingiu o seu ápice intelectual na obra do pe. John Courtney Murray, SJ, e se refletiu na constituição Dignitatis Humanae, do Vaticano II, que afirmou a liberdade humana e negou que o Estado tenha o direito de suprimir qualquer religião, mesmo as falsas. Tal como documentado (e desaprovado) pelo estudioso tradicionalista Michael Davies, foi a influência dos bispos norte-americanos no Vaticano II que assegurou a aprovação dessa constituição fundamental.

Nesse documento, assim como no subsequente Catecismo da Igreja Católica e nos pedidos de perdão que João Paulo II fez pela intolerância dos seus antecessores, a Igreja mostrou humildade e disposição de aprender dos próprios erros prudenciais e das virtudes naturais demonstradas por não-crentes. Da mesma forma que os Padres da Igreja ouviram os estoicos pagãos, os Padres do Vaticano II prestaram atenção ao Iluminismo moderado, rejeitando o paternalismo e o autoritarismo que os pensadores católicos anteriores tinham promovido, em prol de uma política de liberdade que respeitasse a dignidade humana.

Como João Paulo II escreveu em “Memória e Identidade”, o Iluminismo representou, em certas questões-chave, a longamente adiada implementação da antropologia cristã na política. Em termos mais simples: a Igreja herdou de pensadores pagãos, como Platão e Aristóteles, a filosofia de governo vértice-a-base, que foca nos "direitos" dos legisladores e dos governantes de impor aos cidadãos a sua própria visão do Bem, em vez de focar nos direitos dos cidadãos contra os poderes do Estado. Esta filosofia autoritária se manifestou religiosamente na Inquisição, politicamente no feudalismo e na escravatura e economicamente nos monopólios reais, nos trustes e no mercantilismo que George III tentou impor às colônias americanas, controlando o seu comércio para beneficiar o governo. Esse paternalismo ressurgiria ainda em várias formas de socialismo, incluindo, entre outras, o marxismo. Esse paternalismo prevalece até hoje na maior parte da União Europeia, como Samuel Gregg demonstra em sua obra “Becoming Europe” [O Formar-se da Europa, ndr].

O melhor resumo analítico desse paternalismo, que os pensadores pagãos clássicos transmitiram aos socialistas modernos, é oferecido por Frederic Bastiat:


"Alguns autores contemporâneos, especialmente os da escola de pensamento socialista, baseiam as suas várias teorias numa premissa comum: eles dividem a humanidade em dois grupos. As pessoas em geral, com exceção do próprio autor, fazem parte do primeiro grupo. O autor, sozinho, faz parte do segundo grupo, que é o grupo mais importante. Sem dúvida, esta é a noção mais estranha e mais convencida que já foi capaz de penetrar em um cérebro humano! Esses autores, no tocante aos assuntos públicos, começam supondo que as pessoas não têm nenhum meio de discernimento próprio, nem qualquer motivação para agir. Esses autores dão por certo que as pessoas são matéria inerte, partículas passivas, átomos imóveis; na melhor das hipóteses, são um tipo de vegetação indiferente à própria forma de existência. Esses autores assumem que as pessoas devem ser moldadas de acordo com a vontade de outra pessoa, numa variedade infinita de formas, mais ou menos simétricas, artísticas e aperfeiçoadas. Mais ainda: nenhum desses autores se faz de rogado na hora de imaginar que é ele próprio, sob o título de organizador, descobridor, legislador ou fundador, quem personifica essa vontade, essa força motivadora universal, esse poder criativo cuja missão sublime é moldar aquelas matérias dispersas, as pessoas, e transformá-las em uma sociedade. Esses autores socialistas olham para as pessoas do mesmo jeito que um jardineiro olha para as suas plantas".

Uma visão política personalista da liberdade também surgiu a partir de fontes cristãs, para se acoplar à ideia cristã do ser humano individual, e se manifestou em instituições como a Common Law inglesa e a democracia suíça. Ela coexistiu com o antigo autoritarismo pagão. Em alguns países, como a Inglaterra e a Suíça, a ideia da liberdade individual venceu a ideia rival do autoritarismo. Devido a uma daquelas pequenas ironias de Deus, conforme observado por Russell Kirk em “The Roots of American Order” [As Raízes da Ordem Americana, ndr], foram em grande parte os protestantes que defenderam os direitos dos cristãos contra o Estado, enquanto os católicos endossavam as antigas concepções romanas e pagãs do Estado e das suas prerrogativas quase ilimitadas. Depois que a Reforma destruiu a independência política da Igreja, os papas não viram mais opção que “batizar” e tentar informar moralmente o absolutismo dos monarcas (o fundo do poço foi atingido quando os reis católicos, que já indicavam todos os bispos nos seus territórios, forçaram o papa a suprimir os jesuítas, que escapavam ao seu controle real). Na esteira da Revolução Francesa, qualquer conversa sobre liberdade parecia contaminada pelo sangue de padres, freiras e camponeses católicos assassinados. O medo da violência revolucionária foi o suficiente para fazer o papa Pio IX se alinhar com o czar e com os seus cossacos, contra os católicos poloneses amantes da liberdade, e com a coroa britânica, contra os católicos irlandeses.

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CatólicosIgreja CatólicaliberdadeMundo
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