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Catolicismo “iliberal”

Dave 77459

John Zmirak - Aleteia Vaticano - publicado em 04/01/14

O século XX presenciou a metástase do tumor paternalista. Ele se transformou em totalitarismo pleno com líderes como Hitler e Stalin, que zombavam das liberdades iluministas e que engenharam genocídios, abomináveis guerras de conquista e violentas perseguições contra diversos grupos de crentes. O choque entre paternalismos opostos na Segunda Guerra Mundial culminou nas ditaduras comunistas que controlaram a metade dos países da Terra. Só depois de todos esses males monstruosos é que a Igreja digeriu a Revolução Francesa e realmente assimilou a verdade moral de que a liberdade, especialmente a liberdade religiosa, é uma exigência inegociável para qualquer política decente.

Aqueles de nós que se consideram "católicos do Tea Party" aprofundam essa percepção ao notar que, sem liberdade econômica e política, a liberdade religiosa também fica na berlinda. Se o governo pode fechar a sua empresa ou censurar o seu discurso, ou taxar a tal ponto os seus rendimentos que você não pode gastar o seu dinheiro nem o seu tempo na construção da sociedade civil, então você dificilmente é livre, seja qual for o sentido que se dê ao termo. Você é, como Bastiat avisou, um vaso de plantas que vegetam à mercê do Estado e das suas tesouras de poda.

É possível, naturalmente, que a liberdade se degenere e vire licenciosidade. Os católicos defensores da liberdade têm plena consciência de que o conceito iluminista de liberdade é parcial e incompleto. É precisamente por isso que homens como John Courtney Murray, Michael Novak, Robert George e outros muitos tentaram complementá-lo e aperfeiçoá-lo. A "procura da felicidade", mencionada por Thomas Jefferson, poderia ser entendida como hedonismo vazio, como busca utilitarista pelo maior número possível de momentos felizes para o maior número possível de pessoas. A propósito, eu já escrevi aqui, em outra ocasião, que a Suprema Corte [dos Estados Unidos, ndr], no caso Planned Parenthood x Casey, apresentou uma tosca paródia tanto do conceito de "vida" quanto de "liberdade".

No entanto, a maioria dos fundadores dos Estados Unidos, que assinaram a Declaração de Independência, e a grande maioria dos norte-americanos ao longo dos séculos, não abraçou o entendimento de Hugh Hefner sobre a liberdade. É possível compreender a "felicidade" de que Jefferson falou no sentido aristotélico, como a felicidade própria de um ser humano cuja vida virtuosa lhe permite prosperar. Este é o argumento que nós, católicos, deveríamos apresentar aos nossos concidadãos não católicos, deixando claro que rejeitamos por inteiro o paternalismo do passado e valorizamos a liberdade deles, religiosa, política e econômica, tanto quanto valorizamos a nossa própria. Devemos rejeitar também o paternalismo do futuro, aquele Estado secular onicompetente que esmaga a sociedade civil e substitui tudo, desde a família até a escola particular, por alguma agência do governo. Pouco importa se esse regime é abertamente ditatorial, como em Cuba ou na Venezuela, ou se é uma oligarquia que organiza eleições vazias, como na maior parte da União Europeia. Quando o Estado controla 70% ou 80% da riqueza de uma nação, ele domina a maior parte da sua vida. Nós nos reduzimos a formigas sobre lombo de elefante, com um dos nossos minúsculos tentáculos tentando segurar as rédeas.

Temos que nutrir uma gratidão profunda pela herança do Iluminismo, já que os americanos anticatólicos dos séculos XIX e XX foram mortos precisamente porque catolicismo menos Iluminismo é igual a Inquisição. Estou exagerando? Então pense no fato de que, durante a ocupação espanhola de Nova Orleans, antes da aquisição do Estado da Louisiana, um oficial da Inquisição andou interrogando hereges e juntando equipamentos de tortura (que, graças a Deus, ele nunca teve a oportunidade de usar. A Inquisição se implantou na Flórida e continuou em Cuba até 1818). Os protestantes na Espanha sofreram restrições legais até nada menos que a década de 1970. O grande defensor de Pio IX e do Vaticano I, Louis Veuillot, resumiu o que durante séculos foi a visão católica predominante sobre a liberdade religiosa: "Quando você é mais forte, eu lhe peço liberdade, pois ela é prerrogativa sua. Quando eu sou mais forte, eu tiro a sua liberdade, pois ela é prerrogativa minha".

Como norte-americanos, nós também temos que ser autocríticos e reconhecer que, ao reagir contra o paternalismo do passado, homens como John Locke cometeram erros filosóficos graves e, involuntariamente, envenenaram as bases da dignidade da pessoa humana em que a liberdade deve se arraigar. Scott Hahn e Benjamin Wiker fazem um trabalho excelente ao explicar os erros do Iluminismo no livro “Politicizing the Bible” [Politizando a Bíblia, ndr], assim como Edward Feser em seu clássico “The Last Superstition” [A Última Superstição, ndr]. No “Tea Party católico”, Samuel Gregg mostra com detalhes o quanto os católicos amantes da liberdade podem restabelecer as verdades fundamentais sobre a natureza humana que os nossos Fundadores da Pátria negligenciaram. Essa crítica construtiva do projeto do Iluminismo, que poderíamos chamar de "patriotismo reparador", é essencial para preservarmos a vida do nascituro e a integridade do matrimônio, entre muitos outros valores.

Uma coisa é dizer que John Locke e Thomas Jefferson tinham uma visão falha sobre o florescimento humano. Outra, bem diferente, é que nós, católicos, dada a nossa longa e infeliz herança de paternalismo e de intolerância, rejeitemos o Iluminismo “por atacado” e finjamos que a liberdade religiosa, política e econômica é o estado natural do homem, a ser tido por tão certo e gratuito quanto o mar, o céu e as estrelas. Essas liberdades são, na verdade, o fruto duramente conquistado de séculos de luta. E muitos dos nossos antepassados lutaram do lado errado.

Caso pretendamos preservar a nossa tênue liberdade numa sociedade laica que está ficando cada vez mais intolerante, precisamos deixar bem claro para os nossos concidadãos não católicos que estimamos a liberdade deles também. Atacar o Iluminismo? Meros cinquenta anos depois que a nossa Igreja renunciou (tardiamente) à intolerância? Ao mesmo tempo em que homens equilibrados como um arcebispo Chaput e um cardeal Burke alertam os católicos do risco de perseguição? Numa época em que precisamos desesperadamente de aliados entre os nossos vizinhos protestantes? Alguém realmente pode ser tão imprudente assim?

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CatólicosIgreja CatólicaliberdadeMundo
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