Aleteia logoAleteia logo
Aleteia
Sexta-feira 30 Outubro |
Santo Angelo de Acri
home iconReligião
line break icon

Para a Igreja, o núcleo da definição do pecado é relacional

AP/Gregorio Borgia

Aleteia Vaticano - publicado em 07/01/14

Mais do que transgredir uma regra, o pecado é romper o relacionamento com Deus

Por Gilberto Borghi

Decidi escrever em nome do diálogo, mas não do jeito que geralmente se espera: escrevo para mostrar os benefícios que se obtêm do diálogo entre um católico e um laico.

Um amigo me enviou o artigo de Eugenio Scalfari publicado no jornal italiano La Repubblica.it [“A revolução de Francisco: ele aboliu o pecado”, ndr]. Li o texto e confirmei que, na Itália, todos somos técnicos da seleção de futebol, todos somos primeiros-ministros e todos somos teólogos. Todos, principalmente os matemáticos e os jornalistas. Como Bento XVI já tinha dito, eu acho que, também para Scalfari, poderíamos responder: "Só posso convidar você, decididamente, a ser um pouco mais competente".

A leitura que Scalfari nos oferece do papa Francisco e da história teológica do cristianismo não é uma interpretação pessoal dele, o que seria até legítimo. Ela é, basicamente, uma demonstração de falta de conhecimento.

"O pecado é um conceito eminentemente teológico, é a transgressão de uma proibição. Portanto, é uma culpa", afirma Scalfari, revelando o ponto de partida da sua argumentação. Bastaria ler o número 1850 do Catecismo da Igreja Católica para compreender que não se trata disso. "O pecado é uma ofensa a Deus: ele se ergue contra o amor de Deus por nós e afasta dele os nossos corações. Assim como o primeiro pecado, ele é uma desobediência, uma revolta contra Deus, causada pela vontade de ‘tornar-se como Deus’ (Gn 3,5), conhecendo e determinando o bem e o mal; o pecado é o amor por si mesmo até o desprezo de Deus".

Para a Igreja, o núcleo da definição do pecado é relacional, não jurídico. Não é a transgressão de uma regra: é o rompimento de um relacionamento, o relacionamento com Deus.

E essa diferença só pode passar despercebida ou subestimada por quem não conhece o significado de um relacionamento com Deus. É óbvio, então, que o ateu Scalfari só possa interpretá-lo daquela forma. Qual é a consequência disso? Que pecado e culpa acabam virando sinônimos. E o sentido de pecado acaba se confundindo com o de culpa. Eu posso aceitar que Scalfari afirme isso. Ele é um não-crente. Ou, talvez, um “homem à procura”, e fico muito feliz de que ele tenha encontrado no papa Francisco um interlocutor que lhe atraia a atenção.

Por outro lado, acho muito difícil aceitar que esta visão do pecado como transgressão de uma regra seja a base da ética de muitos católicos, de muitos que se dizem crentes. Apesar de Jesus Cristo, eles ainda têm uma visão de Deus semelhante à do próprio Scalfari, baseada no Antigo Testamento: "O Deus de Moisés é um juiz e ao mesmo tempo um executor da justiça". Esta afirmação é absolutamente parcial e redutiva.

A visão de Deus que cada um tem é a base a partir da qual, conscientemente ou não, cada um avalia e interpreta toda a realidade. O espanto de Scalfari se justifica diante das palavras, dos atos e dos gestos do papa Francisco. Do ponto de vista de Scalfari, a insistência do papa em um Deus misericordioso e infinitamente clemente é uma novidade absoluta trazida pelo próprio papa. E, assim, a novidade de Jesus Cristo, que revela o Deus misericordioso, se desconecta de todo o resto da revelação, criando um racha entre a graça e a natureza, uma divisão baseada na ideia de um Deus que torna irrelevantes as escolhas livres do homem. Tanto é assim que Scalfari não consegue entender o sentido da existência do inferno, que é a demonstração mais reluzente da liberdade do homem.

Muitos católicos, a este propósito, demonstram uma série de reações aparentemente opostas, mas que partem da mesma ideia de Deus que Scalfari cultiva, a do deus-juiz. Do medo, da intolerância, da raiva, porque, de acordo com eles, o desvio de Francisco é o de ter-se vendido ao relativismo à moda de Scalfari. Eu me pergunto se as pessoas que têm essas reações realmente já experimentaram o sentido da relação de amor e de misericórdia de Deus para com elas ou se continuam sentindo o pecado como culpa, o que acaba por trancafiá-las num egocentrismo autojulgador.

A diferença entre o sentimento de culpa e o sentido de pecado está precisamente nisto. O sentimento de culpa é o autojulgamento negativo de uma consciência que se relaciona apenas consigo mesma, olhando para uma regra externa. Essa postura rouba energia da pessoa, que só consegue se dizer: “Isso não está certo, eu errei”. Numa próxima vez, ela repetirá o mesmo comportamento. É uma questão individual, de mim para comigo, em que a relação com Deus não existe. Já o sentido de pecado só existe a partir da experiência da relação com Deus, e não antes dela. É quando Deus pode me perdoar que eu me percebo pecador, não antes! Antes eu sou apenas culpado. O sentido de pecado, portanto, nos oferece energia, a energia para nos abrirmos à relação de confiança com Deus. É quando perguntamos: “Falta muito para chegar em casa?". E Deus responde: "Não se preocupe, você vai conseguir". Numa próxima vez, teremos mais chance de não repetir o mesmo comportamento.

A revolução de Francisco não consiste, portanto, em extinguir o pecado, mas em recolocar esta diferença no centro da questão, dando ao pecado o seu verdadeiro sentido.

Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • A Aleteia é publicada em 8 idiomas: Português, Francês, Inglês, Árabe, Italiano, Espanhol, Polonês e Esloveno.
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

Tags:
DoutrinaPecado
Oração do dia
Festividade do dia





Top 10
TRIGEMELAS
Esteban Pittaro
A imagem de Nossa Senhora que acompanhou uma ...
Aleteia Brasil
O milagre que levou a casa da Virgem Maria de...
Philip Kosloski
3 poderosos sacramentais para ter na sua casa
OLD WOMAN, WRITING
Cerith Gardiner
A carta de uma irlandesa de 107 anos sobre co...
Aleteia Brasil
Quer dormir tranquilo? Reze esta oração da no...
Reportagem local
Corpo incorrupto de Santa Bernadette: o que o...
No colo de Maria
Como rezar o terço? Um guia ilustrado
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia