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A moral do papa Francisco

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La Nuova Bussola - publicado em 15/01/14

A insistência de Bergoglio na pregação caminha de mãos dadas com o exercício da caridade

Por Enrico Cattaneo, SJ

A propósito da concepção da moral pelo papa Francisco, o pe. Enrico Cattaneo compartilha algumas observações.

Muitas vezes, é enfatizado que o papa provém da congregação dos jesuítas. A espiritualidade de Santo Inácio de Loyola, o fundador, certamente permeou a personalidade do papa Bergoglio, em especial com os famosos "exercícios espirituais" que todo jesuíta faz durante um mês inteiro no início e no final da sua formação sacerdotal. Nem sempre, porém, a ênfase nessa procedência jesuíta do papa é feita corretamente, dando-se às vezes a impressão errada de que os jesuítas são mestres do relativismo moral.

A realidade é que Santo Inácio diferencia muito bem o fim e os meios e sabe que o fim de toda ação apostólica é a glória de Deus e a salvação das almas. Mas isto não significa que os meios sejam indiferentes ou que baste a bondade do fim para tornar bons também os meios. A busca do fim deve sempre acontecer dentro da vida moral e não em contraste com ela. No "Princípio e Fundamento" dos exercícios espirituais, aliás, Santo Inácio pretende levar o praticante à "indiferença" quanto aos meios, mas somente no caso dos “meios deixados à escolha do nosso livre arbítrio e que não lhe são proibidos", como, por exemplo, a opção entre os estados de vida religioso ou conjugal. Ele não se refere, portanto, aos mandamentos e à lei moral, que não podem ser “deixados à escolha do nosso livre arbítrio”.

Mesmo o voto de obediência, tão fortemente enfatizado por Santo Inácio como "obediência cega", não significa que o superior pode comandar qualquer coisa; se o que ele ordena é claramente pecado, a consciência tem a obrigação de não obedecer. Se não fosse por esse controle da razão, iluminada pela fé, não estaríamos protegidos de fanatismos religiosos.

Para a moral, vale o que o Concílio Vaticano I disse sobre o conhecimento natural de Deus: quem quer que tenha uso da razão pode conhecê-lo; entretanto, no presente estado de natureza decaída, consegue-se conhecê-lo com dificuldade e não sem exposição a muitos erros. A revelação presta uma ajuda poderosa para se chegar a esse conhecimento com facilidade e sem erros. O mesmo acontece com a lei moral, que está impressa na consciência juntamente com a razão: todos nós podemos reconhecê-la, mesmo que nem sempre consigamos colocá-la em prática. Nas palavras do poeta pagão Ovídio, “vídeo bona proboque, deteriora sequor” ("Vejo o bem e o aprovo, mas faço o que é ruim").

Todos os dias, os jornais nos fazem repassar os mandamentos: não roubar, não matar, não levantar falso testemunho, honrar pai e mãe. A revelação nos confirma essa moral natural e, além da sua certeza, também nos dá a força para observá-la (a graça). Além disso, por colocar o homem diante de Deus e não apenas diante dos outros, a revelação tem a plenitude da qual o homem tenta escapar, identificando o mal moral com o mal social.

Em nossas sociedades modernas ocidentalizadas, alguns mandamentos não são mais vistos como um mal social; assim, a sua transgressão é tolerada, quando não incentivada: o adultério, o divórcio, o aborto… Assim, o caminho fica aberto para outras transgressões. Os católicos comprometidos no serviço da cidade (a política) não podem impor as motivações morais para fazer cumprir os mandamentos, mas devem mostrar os graves danos sociais decorrentes do seu não cumprimento. São os fatos, não as teorias, que dão razão à moral católica e a darão cada vez mais. Não devemos ter medo de ensiná-la, com toda a doçura e firmeza possíveis. O compromisso político, com as suas batalhas civis, cabe aos leigos; o ensinamento cabe aos pastores.

Alguns se surpreenderam de que o papa Francisco, na exortação apostólica Evangelii gaudium, tenha dedicado tanto espaço à importância da pregação, que é a principal tarefa dos pastores juntamente com os sacramentos (nº 135-175). Antes dele, apenas outro papa tinha tratado tão amplamente do assunto: Gregório Magno (590-604). Há uma frase desse grande pontífice que ilustra muito bem toda a atitude tomada hoje pelo papa Francisco: "Quem não tem caridade para com o próximo não deve, de forma alguma, assumir o ministério da pregação" (Homilias sobre os Evangelhos, 17, 1).

Tudo deve partir da caridade, que é a busca do bem espiritual das pessoas (a salvação das almas). Mas a caridade, diz o papa Gregório falando aos bispos, não deve ser "confundida com a indolência" (ibid., 12). "Temos que estar perto daqueles a quem corrigimos e corrigir também os que nos estão próximos, porque, se faltar um dos dois componentes, a ação sacerdotal será defeituosa no zelo ou na mansidão" (ibid.).

A responsabilidade do pastor é enorme. “Rezem por nós”, pede o papa Gregório, “para que a nossa língua não se acomode no exortar e não seja que, após assumir a tarefa da pregação, o nosso silêncio nos condene perante o justo Juiz" (ibid., 3). Com lágrimas nos olhos, falando em Latrão diante dos bispos na quaresma de 591, o papa exclama: "As almas que nos foram confiadas abandonam a fé e nós estamos em silêncio? Jazem na iniquidade e não estendemos a mão para corrigi-las? Mancham-se de muitas culpas todos os dias e assistimos inertes ao seu rumar para o inferno?" (Ibid., 14). São palavras que fazem tremer veias e pulsos.

Jesus disse aos apóstolos: "Vós sois o sal da terra" (Mt 5:13). O papa Gregório comenta: "É comum colocarem diante dos animais uma pedra de sal para que a lambam e se nutram. O sacerdote deve ser para o povo como essa pedra de sal. Ele deve cuidar do que é preciso dizer a cada um e de como admoestá-lo, de modo que todo aquele que dele se aproxima, como em contato com o sal, leve consigo o sabor da vida eterna" (ibid., 9).

O papa Francisco quer partir do "coração do Evangelho", que é "a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado" (Evangelii gaudium 36, itálico no texto). Ele quer cristãos "convertidos", que tenham feito a experiência do amor de Deus, "derramado em nossos corações mediante o Espírito que nos foi dado" (Rm 5,5).

É um fato amplamente verificável que, nesses "convertidos", ressurge quase automaticamente a consciência moral; por isso, eles acorrem alegremente à confissão. O mestre interior os instrui, o Espírito Santo, que usa a mesma linguagem do magistério da Igreja, razão pela qual quem antes blasfemava já não blasfema, quem roubava já não rouba, quem trapaceava já não trapaceia; quem levava uma vida sexual desordenada encontra a força para viver em castidade conforme o seu estado; quem achava o aborto normal se conscientiza do crime horrível que cometeu; quem está prestes a romper um casamento encontra a via da reconciliação; que nutria inimizade ou ressentimento sente que a graça de Deus o liberta; quem se entregava aos jogos de azar, ou consultava magos e espíritos ocultos, agora se confia à Providência, encontra o gosto da oração e já não vive como se Deus não existisse, mas o vê presente em tudo e em toda pessoa.

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