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“A menina que roubava livros”: um canto à humanidade

© DR

Jesús Sanz Montes - publicado em 24/01/14

Reflexões sobre o filme baseado no livro de Markus Zusak

“A menina que roubava livros” é um filme repleto de mensagem. Está baseado no livro homônimo de Markus Zusak (2005) e reconstrói as pequenas histórias anônimas dentro da grande história conhecida.

Em meio a uma guerra cruel, dá-se um relato de humanidade verdadeira. O pano de fundo é a barbárie nazista da 2ª Guerra Mundial. As pinceladas do totalitarismo sem sentido são suficientemente sugeridas pelo ataque à dignidade da pessoa, pela sua própria existência colocada em jogo, devido à ideologia que um louco conseguiu instaurar com o incompreensível aplauso e adesão de quase toda a nação.

Também são mostrados alguns traços menores que igualmente descrevem aquela tragédia enorme que causou tantas vítimas em nome do nada mais vazio. Lá, aparece o medo, a violência, a mentira, a demagogia, a inveja, a conspiração, a fuga.

Mas, em meio a toda esta terrível descrição, diante da qual nunca nos acostumamos, surge esta pequena história que, como um imenso contraponto, é capaz de vencer a batalha contra toda esperança, porque o amor é mais forte que a morte, como afirma o livro do Cântico dos Cânticos.

Há três histórias de amor simples, cheio de verdade e ternura, dessa ternura que salvará o mundo, como dizia o grande escritor e teólogo russo Pavel Evdokmov. Em primeiro lugar, está o amor de uma família que, dentro de sua extrema precariedade, acolhe em seu pobre lar uma menina.

A ternura dos que já tiveram de desempenhar o papel de pai e mãe emprestados, ainda dentro dos seus matizes temperamentais diferentes, é uma flor que de repente confere cores ao deserto. É também o amor de duas crianças, Liesel e Rudi, que, em sua pureza sem ambiguidade, são capazes de acompanhar-se com seus sonhos e brincadeiras infantis, acima dos trágicos pesadelos dos adultos.

Finalmente, é o amor da menina protagonista, Liesel, às letras, palavras e livros, que resgata ou pega emprestados, que vai escrevendo sua própria biografia, no livro da vida inacabada. É uma constante na história dos humanos que os amigos das barbáries, da violência, são também inimigos da vida e da verdadeira cultura. Temos exemplos bem próximos.

Mas há uma cena particularmente significativa que me comoveu e que acaba sendo o grande encanto deste filme. Os soldados nazistas estão detendo um pobre homem judeu. Ele era do povo, morava naquela rua do Céu (Himmelstrasse), havia nascido lá e todos o conheciam e apreciavam.

Mas, pelo fato de ser judeu, sua condição alemã ficou manchada e os bárbaros decidiram eliminá-lo. É então que o pai de Liesel entra em ação, para defendê-lo como um simples concidadão. A agressão brutal que ele sofre por este gesto o deixa no chão, com a cabeça golpeada. Por que fizeram isso? E esta é a resposta que se dá: porque ele lhes recordou sua humanidade.

A cena é impressionante, por sua qualidade humana e ao mesmo tempo pela sua violência. Recordar a beleza, a bondade, a verdade, para as quais nascemos, pode ser revolucionário. E este é o sofrimento de tantas pessoas censuradas, perseguidas e eliminadas. Este é o sofrimento dos cristãos.

Recordar a humanidade da qual fomos feitos é uma maneira de testemunhar o Criador que nos fez sem renunciar ao destino que Ele nos deu.

(Artigo de Dom Jesús Sanz Montes, arcebispo de Oviedo, publicado originalmente por SIC)

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