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A Igreja precisa de hobbits

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Brian Brown - Aleteia Vaticano - publicado em 25/01/14

Nem todo mundo precisa ser um Tomás de Aquino

Tenho muitos amigos que se converteram ao catolicismo ao longo dos anos. Eu mesmo sou ex-evangélico, hoje católico. O contato com católicos intelectuais em locais como Princeton, ISI e em muitas organizações sem fins lucrativos de Washington é suficiente para mostrar aos jovens evangélicos o que eles estão perdendo. A beleza e a grandiosidade, a conexão com a história e a força intelectual são frequentemente citadas como razões para a conversão.

Mas há um contra-argumento que também já ouvi: que a cepa do catolicismo que se vê nos lugares que eu mencionei está longe de ser o catolicismo "normal". O catolicismo "normal" de hoje pode ser supersticioso, medíocre em substância e formação espiritual; pode levar seus seguidores a igrejas que envelhecem rapidamente ou que estão cheias de hispânicos em rápido processo de secularização. Um contra-argumento, enfim, que se baseia no alerta de que “não é o que parece”.

Tentando entender este cenário: deveríamos por acaso estar procurando um cristianismo de alta intelectualidade? Queremos mesmo que todos sejam intelectuais? Nosso parâmetro do bom cristão é o pós-graduando que escreve a sua dissertação sobre Tomás de Aquino?

Eu acho que Tolkien, ele próprio um convicto católico, tratou disso em “O Retorno do Rei”. No capítulo "As Casas de Cura", Pippin observa que os hobbits não têm nada a ver com reis, castelos e grandezas exteriores. Merry responde:

"Mas pelo menos podemos vê-los e honrá-los [aos reis]. É melhor amar o que você está bem preparado para amar, eu acho: temos que começar por algum lugar e ter algumas raízes, e a alma do Condado é profunda. E há coisas mais profundas e mais elevadas. Nenhum jardineiro cuidaria do seu jardim em paz se não fosse graças a eles, por menos que ele saiba sobre eles. Eu estou contente por saber sobre eles, um pouco. Mas não sei por que estou falando isso. Onde estão as folhas? Pegue o meu cachimbo na mochila, se ele não estiver quebrado".

Pippin e Merry não são intelectuais. Não são mentes impressionantes. Mas podemos ver duas coisas neste pequeno discurso de Merry que são cruciais para uma Igreja saudável, creio eu:

1. O reconhecimento, por parte das pessoas "normais", de que as coisas que os intelectuais valorizam, numa sociedade retamente ordenada, têm impacto sobre todos, mesmo que nem todos entendam direito essas coisas. Em consequência, as pessoas podem respeitar essas preocupações aparentemente alheias. Poderemos julgar amanhã o valor das elites de hoje com base no quanto o seu trabalho tiver cultivado comunidades e almas.

2. Um apreço pelas coisas que importam, mesmo no nível mais básico. Assim, grande parte da vida bem vivida consiste em aprender a apreciar as coisas certas.

E isso os hobbits sabem. Seria difícil encontrar alguém na Terra Média da Terceira Era ou na América do século XII que sinta mais prazer do que eles na boa música, na bebida, nas refeições, no lar, nas árvores ou na amizade. Mas Merry, ao contrário dos seus amigos no Condado, tem a sensação de que essas coisas vêm de algum lugar; de que vale a pena explorar esse “algum lugar” e conhecê-lo mais profundamente, mesmo que não seja ele quem faça isso (e importante: no final do seu pequeno e surpreendentemente profundo discurso, Merry sacode a cabeça e pede seu cachimbo).

Não devemos querer que todos ou a maioria sejam intelectuais. Devemos querer que todos, porém, de certa maneira, sejam hobbits.

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