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Francisco, Obama e a Doutrina Social

Peter Souza

Russell Shaw - Aleteia Vaticano - publicado em 29/01/14

O papa e o presidente podem não ter tanto em comum quanto parece à primeira vista

"Destinação universal" pode parecer um jeito elegante de dizer que estamos todos indo para o mesmo rumo, mas essa expressão estranha é o nome de um princípio central da doutrina social da Igreja. E é também, por conseguinte, um ponto central da muito discutida exortação apostólica do papa Francisco, a Evangelii Gaudium (A alegria do Evangelho).

O ponto é importante particularmente à luz do anúncio de que o papa e o presidente norte-americano Barack Obama se encontrarão no final de março, em Roma, para falar, segundo as palavras de Obama, sobre a preocupação que ambos compartilham quanto à desigualdade econômica. É um assunto sobre o qual eles estão de acordo. Ou será que não?

Mesmo os analistas mais amigáveis da exortação apostólica pareceram muitas vezes perder impulso, com alguma razão. O documento é longo, desconexo e cravejado de generalizações excessivamente amplas, e essas lacunas facilitam que os leitores se distraiam e percam de vista o que as seções econômicas do texto estão realmente dizendo.

Comece-se pelo fato crucial de que, assim como outros documentos do Magistério sobre a justiça social, a Evangelii Gaudium não trata de políticas e de programas, mas de princípios. O mais importante deles é a destinação universal dos bens, entendida como uma base existencial para a partilha equitativa da riqueza do mundo (o que é bom recordar neste ano em que os EUA celebram o 50º aniversário da sua Guerra contra a Pobreza).

O papa Francisco, olhando para o cenário global, afirma: "Nunca devemos esquecer que o planeta pertence a toda a humanidade e é destinado a toda a humanidade; o simples fato de algumas pessoas nascerem em lugares com menos recursos ou com menos desenvolvimento não justifica o fato de elas estarem vivendo com menos dignidade" (Evangelii Gaudium, 190). Com os devidos ajustes, isto se aplica aos âmbitos locais dos EUA também.

O papa não está dizendo nada de novo; outros papas já disseram o mesmo. Mas, aparentemente, isto é novo para alguns. Em conversa com vários leigos católicos bem formados, eu mencionei a destinação universal dos bens e recebi em troca olhares de descrença: a Igreja nunca disse nada disso, respondem eles. Evidentemente, há bastante trabalho a ser feito em termos de espalhar os conteúdos.

O princípio é bastante simples: Deus criou o mundo para que todos vivam nele, o cultivem e desfrutem dele, o que deveria reger também a distribuição dos frutos. O direito à propriedade privada, que também é afirmado pela Igreja, permanece imperturbável deste ponto de vista. Mas ele não é absoluto: o princípio que molda o seu exercício é a destinação universal dos bens. Francisco declara: "A propriedade privada dos bens é justificada pela necessidade de protegê-los e aumentá-los, para que eles possam melhor servir ao bem comum" (Evangelii Gaudium, 189).

Isto leva ao imperativo moral de redistribuir a riqueza de alguma forma. É neste ponto que muitos críticos perdem a calma, por interpretarem este princípio como um suposto apoio a uma pesada intervenção estatal na economia, a uma tributação ruinosa sobre os indivíduos e sobre as empresas privadas, desestimulando a iniciativa, e, enfim, todo o resto da “câmara dos horrores” neoliberal. O remédio de Francisco, porém, é outro: é a mudança moral; a conversão.

Ativistas de esquerda e de direita comumente se comportam como se as “estruturas” fossem suficientes para garantir justiça e prosperidade para todos: programas do governo, livre mercado ou alguma combinação de ambos. Mas as estruturas precisam se alicerçar na mudança do coração. Um não funciona sem o outro. As mudanças estruturais são necessárias, diz Francisco, mas complementa: "Somos chamados a encontrar a Cristo nos pobres, a emprestar a nossa voz para as suas causas… para ser seus amigos" (Evangelii Gaudium, 198).

Algumas pessoas se perguntam, com razão: isso é realista? A resposta é: talvez não, mas, se a Igreja não continuar a propor isto, certamente nunca será possível.

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