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Pobres empobrecidos? Possíveis causas e soluções

© Zurijeta

Reporte Católico Laico - publicado em 30/01/14

Se fôssemos capazes de restituir a dignidade pessoal de cada pobre empobrecido, ele certamente recuperaria todo o resto como consequência

Se fôssemos capazes de restituir a dignidade pessoal de cada pobre empobrecido, ele certamente recuperaria todo o resto como consequência.


Para isso, é imprescindível dissolver as causas mais profundas de toda iniquidade, exclusão, desperdício e descartes desumanos, destacando que falamos de dignidade não somente alimentar, mas aquela que inclui também legítimas expectativas de prosperidade, sem excluir bem algum.


Quando João Paulo II propôs globalizar a solidariedade, ele se referia a devolver ao pobre empobrecido tudo o que naturalmente lhe corresponde em termos de cidadania.


Tendo fracassado a guerra declarada formalmente contra a pobreza pela primeira potência mundial no dia 8 de janeiro de 1964, sob a presidência de Lyndon B. Johnson (EUA); tendo fracassado, entre outros fracassos, também os Objetivos do Milênio, não obstante as maquiagens e eufemismos da ONU para dissimulá-los, a necessidade de resolver as questões estruturais da pobreza não pode esperar mais, não só por uma exigência pragmática de obter resultados e de ordenar a sociedade, mas para curá-la de uma doença que a torna frágil e indigna e que só poderá conduzi-la a novas crises.


Por isso, enquanto não se resolverem radicalmente os problemas dos pobres empobrecidos, renunciando à autonomia absoluta dos mercados, da especulação financeira e do lucro voraz, atacando simultaneamente as causas estruturais da iniquidade, não se resolverão os problemas do mundo desses pobres empobrecidos e, em suma, nenhum  problema, porque toda iniquidade é a raiz mais profunda dos nossos males sociais, pessoais e comunitários.


Diante de tanta iniquidade, indiferença e ignomínia, uma proposição fraterna deveria provocar em nossas vidas e em nossas ações a mais sublime reação, no sentido de contribuir para recuperar toda dignidade humana e todo bem comum, "amalgamando-nos" ao originário destino universal dos bens, à função social da propriedade e tendo muito presente que sobre toda propriedade privada pulsa uma hipoteca social!


A palavra "solidariedade" hoje está muito desgastada, mas seu sentido original vai muito além de alguns atos esporádicos de fraternidade; ela supõe criar uma nova mentalidade e recriar a cultura do encontro, para agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns.


Toda paz social que não surja como fruto do desenvolvimento integral de todos, tampouco terá futuro, e sempre será semente de novos conflitos e de variadas formas de violência, conforme vemos nas misérias concretas que encontramos em nosso caminho.


Escandaliza o fato de saber que existe alimento suficiente para todos e muito mais, de maneira que a fome se deve concretamente a inumanas distribuições dos bens e das rendas. Este problema se agrava espantosamente com especuladores, intermediários e lucros absurdos que vêm gerando dolorosamente toda prática de desperdícios e descartes – também humanos.


Isso é tão claro, tão direto, tão simples e eloquente, que nenhuma hermenêutica pode relativizá-lo e, muito menos, abortá-lo.


Então, para que complicar e continuar postergando o que é tão simples, justo e inclusive total? Por que escurecer o que é tão claro? As metodologias conceituais existem para favorecer e facilitar o contato com a realidade que pretendem explicar, e não para afastar-nos dela.


Habitualmente, nada bom acompanha os defensores da "ortodoxia". Não podemos esquecer que todo extremismo do relativo, fundamentalismos não históricos, etnicismos e eticismos sem bondade nem solicitude, intelectualismos sem sabedorias, são essencial e inerentemente viciosos.


Finalmente, sou dos que pensam e sustentam intensamente uma autêntica e dinâmica ética equitativa humana, tanto como uma economia solidária civil consequente, partindo da experiência pessoal de que nunca são lugares de comodidade e menos ainda de rentabilidade para os seus propulsores, mas sempre envolvem o admirável dom e compromisso de melhorar e transformar o mundo, de transmitir valores, de deixar algo melhor depois da nossa passagem por esta bendita terra.


(Artigo completo publicado originalmente por Reporte Católico Laico)

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