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Para onde a nossa cultura de sexo e “bem-estar” nos conduz?

Film Review Gimme Shelter Day28 films – pt

Day 28 Films

John Zmirak - publicado em 01/02/14

Novo filme comercial de Hollywood, “Gimme Shelter” explora o mundo das "meninas descartáveis" e a crise dos abrigos para grávidas nos Estados Unidos

Em meio a blazers e gravatas, resolvendo os rumos das guerras culturais do mundo em uma mesa de happy hour, uma cálida névoa de nostalgia foi me envolvendo durante o terceiro Tanqueray com tônica. O open bar a convite e a discussão das grandes ideias da humanidade eram como voltar no tempo e reviver os velhos anos de universidade.

Eu tinha conhecido aqueles elegantes companheiros de bar havia pouco, por meio de uma revista cultural conservadora, e, durante horas, me senti em casa enquanto compartilhávamos histórias de campus sobre esquerdistas e multiculturalistas que vestiam dashikis. Mas, à medida que esvaziávamos a sétima rodada, a conversa impagável mudou de rota:do tapete de asfalto preto,pontuado por linhas amarelas bem nítidas,eu fui lançado direto ao meio do mato. Eu devia ter previsto isso, eu acho, antes de mencionar o aborto.

O assunto era Teddy Kennedy e eu citei o seu abandono dos nascituros como mais uma das facetas reluzentes da sua miséria moral. O cavalheiro mais loiro da mesa tossiu discretamente. Outro fez um diplomático e suave assentimento com a cabeça. O terceiro apenas desviou o olhar. Um sujeito mais refinado teria captado a dica silenciosa e mudado o assunto para Hilary Clinton, mas eu sou filho de um carteiro do Queens. E toquei em frente.

Até que o cara ruivo de jaqueta voltou seus olhos apertados para mim e declarou sem maiores cerimônias: "Precisamos do aborto legalizado para abater os custos do bem-estar social".

Pela primeira vez em muitos, muitos anos, eu fiquei mudo, e mudo durante tempo suficiente para que outro dos meus novos amigos acrescentasse: “E os índices de criminalidade. Você nunca leu Freakonomics? Nova Iorque se tornou habitável de novo graças à Roe x Wade” [Nota da redação: Freakonomics é uma coletânea de estudos do economista Steven Levitt e do jornalista Stephen Dubner, que, entre outras teses polêmicas, sugere que o aborto foi o maior responsável pela diminuição dos crimes nos EUA. Quanto à questão Roe x Wade, trata-se do caso judicial em que a Suprema Corte dos EUA aprovou o direito ao aborto].

O terceiro defensor da Kultur apenas acenou para a garçonete pedindo outro copo de Laphroig.

Eu tinha lido não só Freakonomics, mas também a detalhada crítica que destroçou a tese dos autores e a reduziu a cacos. Eu também tinha decorado uma série de úteis citações protonazistas de Margaret Sanger. Mas nada disso parecia vir ao caso. E em vez daquela onda de adrenalina que normalmente me aquece para a luta, o que eu senti nas minhas entranhas foi um entorpecimento frio e azedo, um pavor preternatural. Tudo o que eu consegui dizer foi: "Bom, se é assim, por que não bombardear os guetos de uma vez?".

O loiro sorriu levemente: "Não é tão politicamente palatável quanto o aborto".

Eu peguei o meu casaco o mais rapidamente que a decência me ordenava e deixei para trás o fedor de enxofre, rumo a um pouco de ar fresco de Manhattan. O inimigo do meu inimigo nem sempre é meu amigo.

Por mais que eu me sinta superior ao contar essa história, eu sei, no fundo, que não deveria. Acontece que os meus “músculos da empatia” são um pouco menos atrofiados que os da maioria das pessoas. E eu reforcei essa lição vendo um novo filme com algumas das estrelas jovens mais sexies de Hollywood: Vanessa Hudgens e Rosario Dawson.O elenco também tem Brendan Fraser e James Earl Jones. O filme, “Gimme Shelter” [“Me abrigue”, em tradução livre] é um olhar austero e honesto para as "meninas descartáveis" que carregam o peso dos nossos costumes sexuais modernos, que procuram amor embaixo das pedras e que acabam grávidas e desesperadas. Esta é a verdadeira cara da questão da vida nos Estados Unidos, cheia de tatuagens, cicatrizes, piercings e marcas de centenas de bofetadas. Os homens, na vida dessas jovens mulheres, estão pateticamente despreparados para a paternidade.E o sistema de “bem-estar social” que configuramos como substituto parece concebido exatamente para perpetuar essa ausência de ajuda.

A protagonista, Apple Bailey (Vanessa Hudgens), é uma adolescente que foge dos abusos da mãe drogada (Rosario Dawson), mas se recusa a mergulhar de novo no "sistema" dos orfanatos e abrigos para menores, dentro de cujas estruturas ela já tinha sido jogada para cá e para lá como se fosse um contêiner cheio de resíduos radioativos. Ela prefere recorrer a um pedaço de papel sujo, uma carta que recebera quando ainda era pequena, escrita pelo pai que nunca conheceu. É atrás desse homem (Brendan Fraser) que ela vai, batendo à porta da sua luxuosa casa, para horror (compreensível) da atual esposa-troféu (Stephanie Szostak) e dos filhos de penteado impecável.

Eu disse "compreensível" porque eu poderia compreender a situação. A bela Vanessa Hudgens está irreconhecível neste papel, suja e acabada como menina de rua. Sua aparência e seus modos fedem. Ela é arrogante, arisca, acusadora, comprometedora e profana. É o tipo de “ameaça urbana”que leva instintivamente a querer chamar a polícia. Mas o pai dela é golpeado pela culpa e pela saudade sufocada. Ele acalma a esposa, leva para dentro os filhos bem lavados e tenta descobrir como oferecer a Apple, afinal, o que uma filha merece.

Mas sua empatia não funciona. Quando um enjoo matinal anuncia que Apple está grávida, seu pai e a esposa dele ficam estarrecidos. Apple é uma garota pronta para ser apenas mais um elo da cadeia da disfunção urbana; pronta para replicar a triste vida de sua mãe na subclasse do bem-estar social. Certamente, a coisa mais amorosa a ser feita por ela é "resolver" o seu problema o quanto antes e ajudá-la a "seguir em frente", como se nada tivesse acontecido.

Fraser explica a proposta a Hudgens de modo carinhoso e calmo, articulado com toda a doçura das razões pós-modernas para que ela salve a si mesma. Em seguida, ele deixa friamente claro que ela terá lugar na casa dele se tomar a decisão "certa". A jovem, assim, é levada para a clínica e acomodada sobre a mesa. Mas, enquanto aguarda as ternas misericórdias da profissional de saúde reprodutiva feminina, Apple tira de dentro do sapato um pedaço de esperança que vinha carregando consigo: a ultrassonografia do seu bebê. Aquela imagem borrada de um homúnculo indefeso, uma criatura tão indesejada e inconveniente como ela própria sempre foi, implora por atenção. Ele teima em dizer que ela está arruinando a sua vida. E ela pula para fora da mesa e sai correndo na chuva.

Apple passa a comer o que encontra nas lixeiras e escapa por pouco de um cafetão predador,de quem rouba o carro para fugir.Não demora a se acidentar e acaba indo parar no hospital. É ali que a menina agredida encontra o seu primeiro vislumbre real de decência, na forma do capelão do hospital (James Earl Jones). Ele aguenta com calma as suas provocações e as suas repetidas recusas de conversa, e continua voltando para visitá-la. É ele quem lhe fala de um abrigo onde ela pode morar,cuidar do bebê e se preparar para arrumar um trabalho.

O abrigo foi fundado por uma mulher que também tinha sido sem-teto, interpretada brilhantemente pela pouco reconhecida atriz Ann Dowd. O resto do filme explora a futura decisão de Apple e coloca a questão: será que ela vai conseguir? Os momentos de alegria e de esperança que vemos na vida de várias jovens mães e o amor cabeça-dura dos seus cuidadores mais do que compensa as sequências arenosas do filme, mas a graça desenhada nele está longe de ser fácil de obter: só depois do Gólgota é que vem a Páscoa.

Não é um filme piegas produzido por gente pró-vida bem-intencionada,nem por pregadores da bíblia que pegaram uma câmera emprestada. É um filme de Hollywood, feito por uma equipe especializada, que topou com uma história e a achou convincente: uma história sobre uma cultura que usa as garotas e depois as joga fora e sobre uma pequena subcultura de cidadãos que tentam reparar esses danos, tratando aquelas garotas e seus bebês, pela primeira vez, como seres humanos. O processo de cura nem sempre é bem sucedido. O sexo casual, embora tenhamos nos esquecido disso, sempre brinca com fogo. E este filme é uma visita à ala das queimaduras.

Eu queria desviar os olhos. Queria dar pausa no filme e pedir um Tanqueray com tônica. Eu tinha muito em comum, percebi, com o casal “bem preparado” que queria que a menina e seus problemas desaparecessem; que desejava "intervir" para quebrar o ciclo de comportamento autodestrutivo, mesmo que isso exigisse um pouquinho de outra destruição. Apenas uma quantidade microscópica de destruição. Só um pouquinho de células e tecidos, se você puder aprender a ver as coisas dessa maneira. Compare esse pequeno pecado com a praga das favelas, com as estatísticas da criminalidade ameaçadora, com aqueles jovens urbanos que exigem atenção e que “obrigaram” você a se instalar atrás dos muros de um condomínio fechado. Você acha que realmente deveria “sentir” que aquele tipo de vida minúscula é algo sagrado?

Não, provavelmente não. Se você fosse tentar estender a sua empatia a cada ser humano que existe na terra, desde a concepção até a morte natural, você simplesmente não conseguiria.Assim como os liberais não conseguem(e acabam distribuindo laptops gratuitos para os ruandeses e apoiando o aborto livre). Por outro lado, se limitar as suas preocupações morais àqueles por quem sente empatia, você vai agir como um monstro moral. A solução está em outro lugar: fora dos sentimentos, nas verdades racionais solenes e atemporais que compõem a lei natural. O fato é que cada ser humano, independentemente da idade, é, nitidamente, o seu igual moral. Isso é tão verdadeiro quanto a lei da gravidade e as leis matemáticas são verdadeiras,independentemente do que você “sente”a respeito delas. Aja em conformidade e faça a verdadeira coisa certa: seja adulto.

Filmes como “Gimme Shelter”nos trazem esperança, descrevendo a verdade através dos terrores da beleza. Eles desafiam as mentiras que contamos a nós mesmos, as fuga sem que nos apoiamos e as barreiras que remendamos contra as nossas respostas naturais saudáveis. E a resposta mais natural do mundo que uma mãe pode dar ao filho é cuidar dele. Sabemos muito bem, no fundo, que esta é a decisão "certa". Em nosso dia-a-dia e em nossa ação política, nós temos que manter em mente esta verdade humana fundamental. Nenhuma sociedade que se alicerça em falsidades pode durar muito: ela vai tropeçar no caos, no crime e na pobreza. Se não podemos proteger o amor de uma mãe pelo seu filho, não resta simplesmente nada para um conservador conservar.

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AbortoSociedade
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