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Ucrânia, o Jano da Europa

Bogdan Seredyak

Mark Gordon - publicado em 05/02/14

Assim como várias outras ex-repúblicas soviéticas, a Ucrânia ainda está em crise de identidade

A Ucrânia, país de localização estratégica, habitado por 45 milhões de pessoas, parece estar prestes a explodir. A parte ocidental da nação, de língua ucraniana, deseja laços mais estreitos com a Europa Ocidental, incluindo a integração econômica e política com a União Europeia (UE). A metade oriental, que fala predominantemente a língua russa, quer preservar os laços econômicos e políticos históricos com a Federação Russa, liderada por Vladimir Putin.


Mas a divisão é mais profunda do que as discordâncias sobre alinhamento político, sistemas econômicos e arranjos de segurança. O que está acontecendo na Ucrânia hoje é fundamentalmente uma crise de identidade, que tem o potencial de se transformar em um ponto de inflamação entre o Ocidente e uma Rússia que vem ressurgindo.A crise pode acarretar ainda consequências significativas para a causa da reconciliação entre católicos e ortodoxos.


Nada disso é novo para a Ucrânia, situada às importantes margens setentrionais do Mar Negro. Durante milênios, esse território tem atuado como uma espécie de dobradiça que liga as metades ocidental e oriental da Eurásia. Como a Polônia, ao oeste, e a Bielorrússia, ao norte, a Ucrânia foi vencida, ocupada, fragmentada e reconstituída muitas vezes desde a fundação do Principado de Kiev, em 882.


A antiga república soviética é uma colcha de retalhos demográfica: duas línguas eslavas distintas, uma grande parcela de russos étnicos e três grupos religiosos, que incluem duas Igrejas Ortodoxas Ucranianas (o Patriarcado de Kiev, que não é reconhecido pelo resto das Igrejas do mundo ortodoxo, e o Patriarcado de Moscou), além da pequena, mas influente Igreja Greco-Católica Ucraniana, um corpo "uniate" em comunhão com Roma.


Desde a queda da União Soviética, em 1991, e especialmente desde a "Revolução Laranja" de 2004, a UE tem cortejado a Ucrânia incansavelmente. Essa dança diplomática de acasalamento teve um dos seus movimentos mais destacados em 2010, quando Viktor Yanukovych, que tinha renunciado ao cargo de primeiro-ministro durante a Revolução Laranja, foi eleito presidente. Durante um certo tempo, pareceu que Yanukovych fosse favorecer a integração com a UE, apesar de ter a sua base eleitoral no Leste,em geral hostil à Europa.


Em 2012, a Ucrânia assinou um Acordo de Associação à União Europeia (AA) e um pacto de livre comércio, destinado a encaminhar o país à integração econômica e política no bloco europeu. Mas nenhuma das medidas foi ratificada pelos governos dos países membros da UE por causa de preocupações com a situação dos direitos humanos na Ucrânia, em particular o tratamento do governo à ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko.


A Rússia tem sido um ator fundamental na relação Ucrânia-UE desde o fim da União Soviética. O governo russo vê a expansão da União Europeia para o Leste como uma violação da sua tradicional esfera de influência e como uma potencial ameaça econômica e de segurança. Putin manifestou várias vezes o desejo de juntar as antigas repúblicas da União Soviética em uma nova união política e econômica voluntária, como contrapeso à União Europeia.


Desde o início das conversações diretas sobre o acordo de AA e de livre comércio, a Federação Russa tem pressionado ambas as partes para retardar ou mesmo impedir o progresso da integração da Ucrânia na UE. Esse esforço tomou novo rumo em novembro de 2013, quando o presidente Yanukovych suspendeu os preparativos ucranianos de ratificação do AA. Um mês depois, a Rússia concordou em fornecer à Ucrânia 15 bilhões de dólares em ajuda financeira e um desconto de 33% nos custos do gás natural russo.


Os acontecimentos de novembro e dezembro geraram protestos generalizados na parte ocidental da Ucrânia, que tem laços mais estreitos com a UE. Os protestos ficaram conhecidos como “Euromaidan”. Os manifestantes ocuparam vários edifícios no centro de Kiev, mas, até a publicação deste texto, diminuíram a intensidade dos protestos diante da ameaça de estado de emergência e possível lei marcial. Quatro manifestantes morreram nos confrontos em Kiev.


Em resposta, contraprotestos começaram na parte leste da Ucrânia, onde os ucranianos de língua russa e os russos étnicos que moram na região,juntamente com os trabalhadores industriais, manifestaram preocupação com a erosão da identidade cultural e religiosa única da Ucrânia, bem como das suas conexões com a pátria-mãe russa. Declarações destemperadas do senador norte-americano John McCain, durante visita a Kiev em dezembro, ajudaram a injetar um elemento anti-EUA nos protestos daquela parte do país.


Infelizmente, os acontecimentos na Ucrânia também assumiram um matiz religioso. O governo Yanukovych ameaçou cancelar a certificação legal da Igreja Greco-Católica Ucraniana se os seus sacerdotes não pararem de organizar vigílias de oração entre os manifestantes na capital.


A última vez que o catolicismo ucraniano perdeu sua certificação legal foi em 1946, sob o ditador soviético Joseph Stalin. As vigílias geraram fotos dramáticas de momentos que não eram presenciados desde os tempos do sindicato Solidariedade na Polônia: clérigos lado a lado com os manifestantes e até interpondo-se entre a multidão e as autoridades.


Em resposta, personalidades do catolicismo romano como o cardeal Timothy Dolan, de Nova York, estão apoiando ativamente o movimento Euromaidan e instando os governos ocidentais a fazer o mesmo. O patriarca Filaret, cabeça do Patriarcado de Kiev e também defensor do movimento Euromaidan, exortou todas as partes a agirem sem violência, mas observou que o governo foi o primeiro a romper a paz. "As pessoas esperaram que o acordo (com a UE) fosse assinado e não foi", disse ele. "Os estudantes resistiram, mas foram agredidos. A nação está indignada".


No lado oposto, o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Kirill I de Moscou, que reivindica a jurisdição eclesiástica sobre todos os ucranianos ortodoxos, incluindo o Patriarcado de Kiev, pediu que os manifestantes, incluindo o clero, se unam a ele na resistência à absorção da Ucrânia pelo Ocidente laico.


"Quando os clérigos aparecem nas barricadas incitando as pessoas, isso não é uma mensagem de Igreja", disse ele, provocando uma resposta dura do patriarca Filaret: "A ideia que Kirill defende, o Rusky Mir (“mundo russo”),  não é unidade, é império, embrulhado num belo pacote. Na verdade, eles querem criar um novo império".


Por sua vez, o papa tem rezado pela paz. Ele sabe que, se o Romano Pontífice entrar a fundo na briga, só agravará a situação e, talvez, ponha em risco a abertura às Igrejas ortodoxas, especialmente no tocante a Kirill, que é o menos favorável à reconciliação entre os dois "pulmões" da Igreja universal.


Em sua audiência do último domingo, ao falando da Ucrânia, Francisco declarou: "Espero um diálogo construtivo entre as instituições e a sociedade civil, e que, sem recorrer à ação violenta, o espírito de paz e a busca do bem comum prevaleçam no coração de todos". Depois de oferecer as suas orações pela paz na Ucrânia, o Santo Padre e alguns alunos soltaram duas pombas da janela dos apartamentos papais que dão para a Praça de São Pedro. No que poderia ser tomado como uma espécie de “mau presságio” pelos mais supersticiosos, uma gaivota e um grande corvo negro atacaram imediatamente as pombas.


Assim como muitas outras ex-repúblicas soviéticas, a Ucrânia ainda está no meio de uma crise de identidade, tentando descobrir que tipo de sociedade ela quer construir e que tipo de cultura deverá animar essa sociedade. A Ucrânia é como Jano, o deus romano das portas e das transições, com duas faces que olham em direções opostas. Ela será uma nação ocidental com passado no Leste, ou uma nação do Leste que resistiu à tentação ocidental? A resposta terá importantes desdobramentos para todos nós.

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