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O homem em busca de sentido

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Carolyn Gregoire - The Huffington Post - publicado em 07/02/14

Victor Frankl enfrentou um sofrimento inimaginável e depois escreveu o livro definitivo sobre a felicidade

Milhares de livros de autoajuda são publicados todos os anos, prometendo as chaves da felicidade, da transformação e da vida significativa. Mas um livro de memórias de 1946, cujo pano de fundo é um dos capítulos mais cruéis e mais terríveis da história da humanidade, afirma que a chave da felicidade está precisamente em parar de correr atrás da felicidade.


“Em busca de sentido”, do psiquiatra austríaco Viktor Frankl, é um poderoso livro de memórias psicológicas e de reflexões sobre a experiência do autor em Auschwitz. A obra argumenta que o significado, e não o sucesso ou a felicidade, é que deve ser buscado na vida humana. O livro apresenta a teoria da logoterapia de Frankl, que sustenta que o impulso fundamental do homem é encontrar "o significado potencial da vida em quaisquer condições". Frankl escreveu: "A vida nunca se torna insuportável por causa das circunstâncias, mas somente por falta de significado e de propósito".

Frankl teorizou que foi graças a esse senso de propósito que os sobreviventes do Holocausto conseguiram superar aquela provação extrema. Mesmo nas piores circunstâncias imagináveis​​, Frankl mantém firme a crença de que o espírito do homem pode se elevar acima de tudo aquilo que o circunda. "Quando não conseguimos mais mudar uma situação, temos o desafio de mudar a nós mesmos", escreveu ele.


De modo aparentemente paradoxal, foi num período de tragédia e sofrimento sem sentido que Frankl pôde dar sentido à experiência humana, além de documentar e explorar a busca universal de sentido de uma forma que nunca tinha sido articulada antes. Em 1959, o psicólogo americano Carl Rogers declarou que o trabalho de Frankl é "uma das contribuições mais relevantes para o pensamento psicológico nos últimos 50 anos".


As palavras elogiosas de Roger são, no mínimo, uma subvalorização. Até 1997, o ano da morte de Frankl, o seu livro tinha vendido mais de 10 milhões de cópias, já era usado como livro-texto em cursos e faculdades e tinha sido reimpresso 73 vezes, além de traduzido para 24 idiomas, de acordo com o obituário de Frankl no New York Times.

Frankl reitera ao longo do livro que, mesmo quando todo o resto lhe for arrancado, o homem ainda tem a sua última liberdade: a de "escolher que atitude tomar em um determinado conjunto de circunstâncias". Essa ideia de que o homem pode superar suas circunstâncias através da atitude remonta aos antigos filósofos estoicos e ainda permeia grande parte do nosso atual conceito de resiliência. Frankl fornece evidências práticas e teóricas da sua poderosa verdade.


“Quem tem um ‘porquê’ de viver pode suportar quase qualquer ‘como’”, escreve Frankl, citando Nietzsche. Frankl não estava apenas falando da boca para fora ao defender o poder do otimismo e do senso de propósito: ele próprio tinha passado pelo pior ‘como’ possível, sendo prisioneiro em Auschwitz e perdendo pai, mãe, irmão e esposa grávida nos campos de concentração; toda a família, exceto a irmã.


Como foi então que Frankl, confrontado com a própria morte e com a execução brutal das outras pessoas, ainda pôde pensar que a vida valia a pena? Frankl afirma que é "a vontade de sentido" do homem o que lhe permite resistir ao sofrimento e à dor sem sentido: a vida é sofrimento e, para termos qualquer esperança de sobreviver ou prosperar, precisamos encontrar sentido neste sofrimento. Tomamos a decisão de seguir em frente, de continuar acordando e vivendo dia após dia porque acreditamos que existe um propósito maior e um senso de responsabilidade na nossa vida; que o nosso sofrimento não é em vão.


"De certa forma,o sofrimento deixa de ser sofrimento quando encontra um significado, como o significado de um sacrifício", escreveu Frankl.


Para Frankl, os entes queridos, a religião, o senso de humor e até o poder de cura da natureza podem trazer significado ao indivíduo em épocas de grande sofrimento.


O significado pode vir de várias fontes diferentes, mas nenhuma é mais poderosa e mais transformadora do que o amor. Frankl escreve que, nas trincheiras de Auschwitz, ele experimentou a verdade do velho clichê que diz que "a única coisa de que você precisa é o amor". Esta epifania foi inspirada por pensamentos da sua esposa durante a marcha diária dos prisioneiros, de manhã cedo, até o local de trabalho:


"Pela primeira vez na minha vida, eu vi a verdade tal como ela é cantada por tantos poetas e proclamada como a máxima sabedoria por tantos pensadores. A verdade – que o Amor é o objetivo final e mais alto a que o homem pode aspirar. Eu então percebi o significado do maior segredo que a poesia humana, o pensamento humano e a crença humana podem revelar: a salvação do homem vem através do amor e no amor."


Pensar em sua amada, escreve ele, permitiu que um homem conhecesse a felicidade durante um instante, mesmo quando todo o resto tinha sido arrancado dele.


Se há uma conclusão a ser tirada de “Em busca de sentido”, é que o amor é o nosso maior objetivo possível. É uma conclusão apoiada não só por inúmeros testemunhos individuais, mas também pelo Harvard Grant Study, que acompanhou a vida de 268 estudantes de Harvard, todos homens, coletando dados em intervalos regulares ao longo de décadas. O diretor do estudo, George Vaillant, disse que esse trabalho revelou dois pilares básicos da felicidade: "Uma é o amor. A outra é encontrar uma forma de lidar com a vida que não deixe o amor de fora".

Frankl acredita que optar pelo riso e pelo senso de humor nos ajudar a "elevar-nos em qualquer situação". E Frankl queria mesmo dizer “qualquer” situação. Ele conta, por exemplo, que os prisioneiros de Auschwitz encontravam pequenos momentos de descontração nos quais contavam piadas e riam juntos.


"O esforço por desenvolver o senso de humor e ver as coisas em uma perspectiva bem-humorada é um truque que se aprende enquanto se aprende a arte de viver", escreve Frankl. "E é possível praticar a arte de viver mesmo num campo de concentração, onde o sofrimento é onipresente."

Frankl lamentou que a sociedade moderna tenda a se orientar para o “resultado”, que desvaloriza quem não é necessariamente tão "bem sucedido e feliz" quanto os outros. Seu conselho para viver uma vida feliz (e bem sucedida) é não perseguir o sucesso, mas dedicar-se a algo maior que si mesmo e deixar que o sucesso venha como consequência inevitável dessa dedicação.


Em seu prefácio à edição de 1992, Frankl implorou que o leitor seguisse a sua consciência acima de tudo:


"Não almeje o sucesso. Quanto mais você o almejar e fizer dele um alvo, mais você se afastará dele. O sucesso, assim como a felicidade, não pode ser perseguido; ele deve acontecer, e só acontece como efeito colateral da sua dedicação pessoal a uma causa maior do que você mesmo ou como subproduto da sua entrega a uma pessoa que não é você mesmo. A felicidade deve acontecer, e o mesmo vale para o sucesso: você deve deixá-la acontecer em vez de se preocupar com ela."

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