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Jérôme Kerviel: "sou um monstro criado e vomitado pelas finanças”

Martin Bureau AFP

Jesús Colina e Yvon Bertorello - Aleteia Vaticano - publicado em 10/02/14

Entrevista com o corretor que provocou o maior escândalo financeiro da história

O nome de Jérôme Kerviel está ligado ao maior escândalo financeiro da história. Quando ele trabalhava como um jovem corretor para um dos maiores bancos da Europa, a Société Générale, em janeiro de 2008, seus investimentos provocaram em pouco tempo a perda de quase 5 bilhões de Euros. Um verdadeiro terremoto que abalou os mercados em todos os continentes.

Francês de 37 anos, Kerviel, que não era mais que um empregado (um trader, negociador de ações em Bolsas de Valores), foi condenado a assumir uma dívida do mesmo valor das perdas que provocou, e a 5 anos de prisão.

A poucos dias do seu último julgamento perante a Justiça francesa, o homem mais endividado da humanidade assume sua culpa e parece querer fazer as pazes com sua consciência. Ao mesmo tempo, compartilha com os leitores de Aleteia.org as lições que o mundo parece ainda não querer tirar da crise financeira.

E nesse contexto, ele apresenta o Papa Francisco como a autoridade moral para a qual o mundo deve olhar para sair da crise ética gerada pela bolha financeira.

Por que você aceitou falar hoje, momentos antes do seu último recurso perante a Justiça?

Jérôme Kerviel: Porque meu nome se converteu em sinônimo do pior que o mundo das finanças pôde gerar. Recebi uma condenação sem precedentes de mais de 5 bilhões de Euros. Ninguém antes de mim havia tido que suportar condenação parecida, um castigo como este. Esta condenação se apoia em duas mentiras: uma, que o banco Societé Générale desconhecia que eu tinha tomado nos mercados especulativos posições de 50 bilhões de Euros. Deste modo, apresentaram-me como o inventor deste “sistema”, quando um ano antes do estouro deste escândalo, um empregado do mesmo banco se suicidou, após ter aplicado este mesmo sistema que nossos superiores nos ensinaram e no qual fomos formados. Eu quero falar porque, além da justiça e da minha própria sorte, quero dar conta das provações que me são impostas, esperando que tudo isso não seja em vão.

Além do dinheiro, de sua dívida… o que mais te custou o “caso Kerviel”?

Jérôme Kerviel: Custou-me o que agora sou. Eu me converti naquilo que o banco fez de mim: primeiro um bom soldado, sem grande profundidade, depois uma espécie de culpado fechado em si mesmo. Eu sou tímido e reservado, meu amigo e advogado ri dizendo que é porque sou bretão, e os bretões são taciturnos. Tenho a vantagem de ser um culpado ideal, porque falo pouco e o tom de minha voz é baixo. Isso foi interpretado durante muito tempo como uma forma de desprezo e arrogância, mas é o contrário. Em cada etapa judicial, tive medo. Não sei o que me acontecerá amanhã e isso me esgota. Estou lutando para limpar o nome da minha família: sou apresentado como o responsável pela crise financeira de 2008. Já disse em alguma ocasião: eu sou o monstro criado e vomitado pelas finanças. Meu pai morreu orgulhoso de minha “trajetória”, mas antes que sucedesse tudo, e ainda que me magoe a sua ausência, alivia-me que não tenha assistido a tudo que veio depois. Minha mãe ficou gravemente doente depois do estouro do escândalo e não sobreviverá à minha prisão. Eu não quero que morra dizendo que sujei o nosso nome.

Tem alguma confiança na Justiça?

Jérôme Kerviel: Foi decidido que eu seria o “bode expiatório” neste caso. Já faz seis anos que luto para provar a minha inocência. Minha prisão injusta pode ser em breve. Este caso se converteu, apesar de mim mesmo, em algo que vai além do ser humano que eu sou. Mas os erros judiciais que afetam cada parte do meu caso acabam por me fazer perder a confiança na justiça humana.

Está disposto a reconhecer com franqueza que errou?

Jérôme Kerviel: Eu errei no que me pareceu e me foi apresentado como uma realização absoluta. Eu errei ao participar deste sistema. Tenho de confessar que se eu não me encontrasse no centro deste assunto, não estou seguro de que tivesse tido a perspectiva necessária para tomar consciência do que estava fazendo e medir o impacto de minhas ações. Eu fiz o que o banco me ensinou a fazer e não roubei ninguém.

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