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Jérôme Kerviel: "sou um monstro criado e vomitado pelas finanças”

Martin Bureau AFP

Jesús Colina e Yvon Bertorello - Aleteia Vaticano - publicado em 10/02/14

Mas você reconhece uma responsabilidade pessoal neste caso?

Jérôme Kerviel: Há duas interrogativas na sua pergunta. É totalmente indiscutível que o sistema financeiro, falsamente regulado em todo o mundo, está na origem das sucessivas crises que tiveram graves consequências para a maior parte das mulheres e homens do planeta. Este sistema, tal e como existe hoje, será a causa da sua própria ruína, se os governantes deste mundo não aceitarem assumir esta questão.

Mas sou culpado daquilo que me acusam, quer dizer, de ter especulado sem que o banco soubesse? A resposta é absolutamente não. Eu reforço o que já disse: meus superiores conheciam minhas atividades de trading dia a dia e tudo ia bem enquanto minhas operações faziam o banco ganhar dinheiro. É um sistema de uma grande hipocrisia, um sistema do qual eu participei ativamente.

Por outro lado, nunca tentei fugir da minha responsabilidade pessoal: se, da mesa de negociações, especulei contra várias empresas, provocando consequências sobre os seus empregados. Especulei contra moedas, contribuindo para debilitá-las. Sim, especulei também fazendo a minha empresa ganhar muito dinheiro, em várias crises financeiras e políticas. Foi isso que me ensinaram. Sim, em resumo, participei do pior que as finanças têm, no que têm de mais vergonhoso e prejudicial. O que nós fazíamos nos era apresentado como uma “atividade normal e útil”, quando na realidade era radicalmente o contrário.

Em poucas palavras, como você descreveria o funcionamento das finanças especulativas?

Jérôme Kerviel: O sistema se alimenta de catástrofes e desgraças, pois tudo é um pretexto para especular e fazer dinheiro, sem ter construído nada em troca. Compreenda-me bem, a especulação não cria nada. Veja um exemplo claro da perversidade do sistema especulativo: os dias de mais lucros para os bancos são aqueles em que acontecem as maiores catástrofes: atentados, tsunamis, declarações de guerra…

Que lições ainda não aprendemos da crise financeira?

Jérôme Kerviel: Não haverá reforma profunda e coordenada enquanto os políticos de todos os países não denunciarem os efeitos perversos e devastadores das finanças. Se me permite uma comparação, as consequências das finanças são tratadas com a mesma leviandade que as mudanças climáticas: todo o mundo compreende que corremos para a catástrofe, mas não mobiliza a energia suficiente para uma mudança coletiva e reformas profundas.

Depois de seis anos de luta, você se sente disposto a enfrentar a prisão?

Jérôme KervielNão, ninguém que seja inocente do que é acusado pode aceitar isso. O sistema financeiro sempre preferirá apenas um culpado, ao invés de assumir um “mea culpa” coletivo. Este é o meu caso, mas não estou disposto a aceitar. No âmbito pessoal, minha vida ficou abalada por este caso e trouxe uma tremenda e injusta dor para meus familiares, começando por minha mãe, que enfrenta com valor a enfermidade. Este caso causou dor a muitas pessoas honradas que trabalham no banco Société Générale e que estão em contato com os clientes. Mas devo sublinhar que um bom número desses funcionários me fez chegar um apoio reconfortante.

Você fala de honra e de ética. Quem encarna hoje esta mensagem e estes valores?

Jérôme Kerviel: O Papa Francisco representa para mim a figura moral de honradez e de retidão. Suas declarações comprometidas me recordam a educação e os valores que me foram dados por meus pais, e dos quais sem dúvida eu nunca deveria ter me afastado. Com suas ações e atitudes concretas, é evidente que o Papa coloca o homem no centro de seu discurso e de sua ação. Na minha opinião, a condenação por parte do Papa das consequências das finanças internacionais, e o fechamento de mais de 900 contas bancárias apresentadas pela imprensa como duvidosas, constituem um ato fundamental, de valor absoluto e de clareza no caminho que se deve seguir para melhorar a vida das pessoas. O que eu não compreendia antes mas agora compreendo é que as consequências das finanças beneficiam pouquíssimas pessoas, mas prejudicam gravemente a vida da maioria. É estranho para mim dizer isso, porque admito que minha fé é frágil, e que foi tocada em grande parte pela injustiça deste caso. Ao mesmo tempo, tenho fé neste homem e em sua determinação. Para mim, ele é a imagem de um farol que mostra o caminho, a única forma de moralizar o sistema e de acabar com a insuportável relegação da pessoa ao segundo lugar.

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criseEducação Financeira
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