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Onde vai ser o próximo ônibus?

Fernando Frazão/Agência Brasil

Protestos e ônibus incendiado

Cardeal Odilo Scherer - Arquidiocese de São Paulo - publicado em 12/02/14

Que está acontecendo em São Paulo e em outras grandes cidades do Brasil?!

Queimaram mais um ônibus? Onde será que vai ser o próximo? Todas as manhãs, invariavelmente, os noticiários falam da queima de mais um ônibus em alguma parte da extensa cidade de São Paulo. Na capital, já somam mais de 40, só neste ano; dá mais de um por dia. Na área metropolitana, há muitos outros casos.

Raramente são identificados os autores da façanha; e quando isso acontece, há sempre a alegação que se tratou de um protesto ou represália contra algum outro fato de violência. Já virou rotina e nem mais aparece nas páginas da grande imprensa. Tudo integrado na “normalidade” da vida urbana… Uma normalidade assustadora, em que a morte de pessoas, chacinas, danos ao patrimônio e outros fatos de violência acabam importando pouco, mas deixam a população assustada e refém do crime.

E começam a aparecer tentativas de fazer justiça com as próprias mãos, encontrando simpatia e apoio na opinião pública. Essa é uma situação perigosa, na qual a população se sente ameaçada e desprotegida, passando a apostar em “justiceiros” criminosos, que viram heróis. É a desmoralização da autoridade constituída e o início do caos. Que está acontecendo em São Paulo e em outras grandes cidades do Brasil?!

Há um mal-estar no meio da população, que se vê desatendida em questões básicas no convívio social, como segurança, saúde, educação, moradia… Os preparativos da Copa do Mundo foram a ocasião para que se soltassem os gritos de descontentamento de muitas gargantas, que desejariam ver escolas “padrão Fifa”, hospitais, transporte, moradia, tudo “padrão Fifa”…

Violentos e vândalos à parte, muitas pessoas não desejam mais apenas pão e circo e reclamam investimentos significativos para a melhoria das suas condições de vida e do convívio social. Se dá para investir enormes somas para preparar um evento esportivo, por qual motivo não se pode fazer mais ainda para superar, de fato, a pobreza humilhante das vastas periferias urbanas em todo o Brasil?!

Não há desculpas, menos ainda, aprovação, para os fatos de violência que marcam a vida de São Paulo e de outras cidades. A violência nunca é um meio bom para atingir objetivos honestos. E os fatos de violência não podem ser deixados ao seu curso, pois acabam degenerando em violência sempre maior. Portanto, as autoridades competentes, segundo a tarefa que lhes é própria, precisam agir.

Mas a superação da violência não se consegue apenas pela repressão e ação policial, ou pela força da lei. Estamos diante de um grave déficit de educação para valores altos e construtivos no convívio social. Pouco se ouve falar em valores éticos e morais, orientadores para o convívio e referenciais para um comportamento social aceitável. Tudo ficou relegado ao subjetivo, e cada um vai traçando o padrão de sua conduta, não tendo ninguém que interferir nas suas escolhas…

E se alguém tenta propor valores e referências comportamentais válidos para todos no convívio social, recebe imediatamente uma saraivada de desaprovações e é acusado de impor a sua ética aos outros, ou de interferir na vida privada das pessoas. A ética ficou privatizada e, assim, cada um faz a sua. Também o violento, o desonesto, o antissocial fazem as suas escolhas subjetivas e acham justificativas para as escolhas que fazem. Vale para todos? Eles acham que vale para eles também.

Penso que toda a sociedade tem um dever de casa a fazer: discutir seriamente os referenciais éticos do convívio social. É preciso reconhecer: em ética e moral existe, sim, o correto e o não correto, o aceitável e o não aceitável, o certo e o errado. Se existe, então deve ser assumido e assimilado através da educação.

(Artigo publicado no Jornal O São Paulo, Ed. 2989 – 11 a 17 de fevereiro de 2014)

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