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“O islã não é a única causa do conflito na Síria”

© Rodrigo Abd / AP

Miriam Diez Bosch - Aleteia Vaticano - publicado em 13/02/14

Entrevista com Justo Lacunza Balda, especialista católico em islamismo

Ele fala suaíli e árabe. É um dos maiores especialistas católicos em islamismo. Fez estudos sobre o islã em mais de 30 países. É doutor, pela prestigiosa SOAS, de Londres, em Línguas e Culturas Africanas. Nesta entrevista, o pe. Justo Lacunza Balda, reitor emérito do Pontifício Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos (PISAI), de Roma, nos adentra no conflito sírio e nos oferece chaves de leitura para compreendê-lo nesta nova fase de negociações, iniciada com a conferência de paz Genebra 2, cujo foco foi precisamente a Síria.

O islã tem sido acusado de provocar o conflito na Síria. O que há de correto nessa ideia?

Em qualquer conflito bélico, há muitos ingredientes que atiçam a fúria dos combates, dos ataques e dos bombardeios, como no caso da Síria. Todo isso já causou a morte de milhares de pessoas de todas as idades e forçou o êxodo massivo da população. Uma tragédia humana de consequências inimagináveis. E o islã tem alguma coisa a ver com isso? Bom, ele tem, sim, o seu papel. Mas vamos por partes.

A guerra na Síria começou na cidade sulista de Daraa, com a matança de um grupo de jovens na mesquita de Al-Omari. Foi no dia 18 de março de 2011. Lá começaram esses dias sangrentos do conflito sírio, com a chegada das notícias de outros países árabes em que a população tinha saído às ruas para se livrar de sátrapas, tiranos e ditadores. O eco das revoltas populares na Tunísia, no Egito e na Líbia tinha chegado também à Síria.

Grupos de jovens se manifestaram pacificamente na cidade de Daraa. Era o começo da chamada “primavera árabe”. Os manifestantes pediam mais liberdade e mais direitos. Mas o exército tentou logo sufocar as manifestações de rua. Uma pichação contra o regime despertou a ira das autoridades.

Não demoraram para chegar as forças republicanas. Daraa foi invadida pelo exército nacional. Os tanques ocuparam as ruas e praças da cidade. Foi um cerco planejado no detalhe: cortes de água e de luz, homens proibidos de sair de casa, proibição dos meios de comunicação de entrar na cidade…

Ninguém sabe o número de mortos, presos e desaparecidos em Daraa. Os manifestantes se refugiaram na mesquita, achando que o exército iria respeitar o lugar sagrado. As forças republicanas, dirigidas por Maher Al-Assad, irmão do presidente Bashar Al-Assad, atacaram e fizeram um massacre.

Ninguém pode negar que, a partir daquele momento, o conflito sírio assumiu a marca do islã por causa do massacre perpetrado em uma mesquita. Isto é um fato histórico, é o ponto de partida do conflito sírio. À medida que a guerra vai recrudescendo e se espalhando, vão surgindo outros interesses e objetivos com “etiqueta” muçulmana.

O conflito se espalhou para outras localidades e o regime intensificou as represálias.

Nos meses seguintes ao episódio de Daraa, estouraram os protestos em Alepo, Homs, Hama, Latakia e Damasco. O regime se manchou de sangue mais uma vez, por ordem do presidente Bashar Al-Assad, que, no ano 2000, tinha se apresentado como o “presidente oculista”: um homem de mentalidade aberta e democrática, defensor dos direitos e das liberdades, promotor do diálogo no Oriente Médio.

Mas Bashar Al-Assad se mostrou um ditador feroz e implacável, que não hesitou em usar artilharia pesada para esmagar o próprio povo. Ele tachou as revoltas e manifestações de sublevação inspirada pelo terrorismo islamista e acusou os países ocidentais de darem apoio.

Bashar al-Assad continua até hoje o jogo sujo com o apoio da República Islâmica do Irã e do Hezbollah, do Líbano. Sem esquecer o apoio político e geoestratégico da Rússia. Ele não mostrou nenhuma intenção de apear do cavalo e não parece disposto a deixar o poder nem depois do anúncio da conferência Genebra 2, que aconteceu no último dia 22 de janeiro.

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