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“O islã não é a única causa do conflito na Síria”

© Rodrigo Abd / AP

Miriam Diez Bosch - Aleteia Vaticano - publicado em 13/02/14

E os wahabitas da Arábia Saudita também se posicionaram abertamente.

Voltando a essa divisão histórica entre sunitas e xiitas, o presidente Bashar Al-Assad fez um pronunciamento muito duro contra a Arábia Saudita no dia 15 de janeiro deste ano. Ele recebeu em Damasco o ministro de Assuntos Exteriores iraniano, Mohammad Sharif, que não pensou duas vezes em oferecer apoio moral e logístico ao regime sírio.

O presidente Al-Assad declarou: “A ideologia política e religiosa da Arábia Saudita é uma ameaça para o mundo”. Ele se referia claramente ao islã wahabita, à batalha entre o reino saudita e o islã xiita.

Desde os primeiros meses do conflito, as autoridades sauditas manifestaram, em várias ocasiões, uma clara e indiscutível oposição à continuidade da dinastia Al-Assad no poder. Além disso, no caso da Síria, o reino saudita tem criticado os Estados Unidos, mesmo eles sendo um grande aliado político, militar e econômico da Arábia Saudita.

O presidente Barack Obama falou em “linhas vermelhas” que ele não estava disposto a tolerar, em referência ao possível uso de armas químicas pelo regime sírio. Quando, aparentemente, essas “linhas vermelhas” foram cruzadas, todo o mundo acreditou em uma operação militar iminente e de grandes proporções. Mas os Estados Unidos puxaram o freio. Uma parte das armas químicas já saiu da Síria e deve chegar ao porto italiano de Gioia Tauro, na Calábria, para ser destruída.

E o papel das células terroristas?

Dentro da oposição ao regime de Assad, ficaram evidentes as manobras furtivas, a manipulação e o radicalismo islamista da Al-Qaeda. E aqui nós estamos falando também do islã, porque os textos, vídeos, declarações e ameaças da Al-Qaeda sempre falam do islã e do alcorão, dos combates e da jihad contra os infiéis.

A Síria virou um ponto de encontro quase obrigatório para a jihad global, com a presença de mais de 10.000 milicianos que chegaram dos países árabes, da África, da Ásia e da Europa para lutar em nome de Alá contra o regime sírio.

O movimento da Al-Qaeda, fundada por Osama Bin Laden (1937-2011), está ampliando o seu raio de ação na Síria, no Iraque e no Iêmen. Na Síria, eles unificaram a Al-Qaeda Mesopotâmica (Iraque) e a Al-Qaeda do país do Sham, que é o Levante, a Síria, criando o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Islamic State of Irak and the Sham, ou ISIS, em inglês).

Tanto os sunitas quanto os xiitas e os jihadistas dos vários grupos combatem para controlar as rédeas da Síria. É uma guerra furiosa e maligna, que penetrou violentamente no país e que continua deixando milhares de feridos, mortos e refugiados, sem falar na destruição de povoados, aldeias e cidades.

Os islamistas da Al-Qaeda também querem controlar a Síria, impondo o islamismo radical na Síria, ampliando a sua influência e aplicando a lei islâmica, a sharia. Se a Al-Qaeda não conseguir os seus objetivos, ela vai continuar criando uma situação de instabilidade nacional que vai se espalhar, ou já se espalhou, por outros países do Oriente Médio.

Desde o começo das revoluções nacionais nos países árabes, estão sendo escritos novos capítulos da história do islã. Um dos mais dolorosos e sangrentos é o capítulo da Síria contemporânea. Mas o conflito sírio, que começou como um conflito local e nacional, foi evoluindo até adquirir uma dimensão internacional, pela sua realidade e proporções, pelas suas tendências e enfoques, pelos seus líderes e interlocutores.

As grandes potências do mundo estão envolvidas, seja pela posição no Conselho de Segurança, seja por interesses econômicos e geopolíticos. Sem esquecer os “patrocinadores” de um lado e do outro. Mas não podemos mais falar, hoje, de regime e oposição, e sim de regime e várias frentes de oposição, algumas motivadas pela ideologia islamista.

Você diz que o islã político fracassou. Por quê?

O islã se politizou nos últimos anos e nós estamos vendo os efeitos disso em muitas sociedades muçulmanas. O islã político está fracassando: constatamos isso na Tunísia, na Líbia e no Egito ao longo dos últimos três anos.

A separação entre o poder civil e a autoridade religiosa é essencial para gerir, administrar e governar uma nação. A separação de poderes não quer dizer que não exista comunicação, entendimento e colaboração. Pelo contrário, o diálogo é fundamental, é o principal caminho para uma sociedade orientada pela convivência, e não pelo conflito para discutir quem tem razão. E isso vale para todas as sociedades.

Mas afirmar que “o islã é a religião do Estado” quer dizer que a religião muçulmana é a referência máxima de um Estado independente. Eu não acredito, pessoalmente, que o Estado, como tal, “tenha religião”, e, menos ainda, “uma religião particular”.

Vai ser difícil, para não dizer impossível, que os cidadãos e as cidadãs que professam outras religiões, ou nenhuma, tenham na prática os mesmos direitos e liberdades. A história e a experiência nos mostram o contrário.

O islã não pode virar a ideologia suprema imposta a todas as pessoas que vivem no território de um país. Pouco importa se são crentes ou ateus, muçulmanos ou agnósticos, cristãos ou liberais.

O Egito, neste caso, não seria um exemplo.

Transformar uma religião em ideologia significa impedir que os direitos humanos, as liberdades civis e os processos democráticos funcionem com normalidade.

Neste sentido, há muitas lições que podemos aprender da história recente do Egito durante a presidência de Mohamed Mursi (30 de junho de 2012 a 3 de julho de 2013). Os cristãos, em particular, pagaram um preço alto durante a presidência de Mursi: ameaças, intimidação, confisco de bens, violência sectária, ataques, mortes, assassinatos, incêndios, êxodo. O Egito estava à beira da guerra civil quando os militares intervieram para acabar com a onda islamista da presidência de Mohamed Mursi. Mas esta realidade parece que escapou do olhar “agudo” dos analistas políticos…

Em círculos institucionais europeus, falava-se com muita superficialidade, e continuam falando, de “golpe de Estado”. Eles só viram que os militares tomaram o poder, mas não pensaram que esse fato evitou a catástrofe de uma guerra no Egito. Observar e documentar os processos democráticos só através das urnas pode nos causar muitas surpresas. E pode levar não necessariamente ao direito, à liberdade e à justiça.

Isso não quer dizer que a intervenção militar tenha solucionado todos os desafios nacionais do Egito. Poderíamos dizer o mesmo quanto ao fim do regime ditatorial na Síria: não significaria a solução global para todos os desafios que a Síria precisa enfrentar.

A nova constituição da República Árabe do Egito, que foi submetida a referendo popular nos dias 14 e 15 de janeiro deste ano, continua afirmando que “o islã é a religião do Estado”, mas é possível esperar algumas mudanças importantes: a nova constituição proíbe partidos políticos baseados na religião, afirma a igualdade entre homens e mulheres e defende a liberdade religiosa das minorias.

Bom, os nove milhões de cristãos do Egito não podem ser considerados uma minoria. Eles são cidadãos de pleno direito e não por mérito ou concessão do Estado. De novo, temos que dizer que a manipulação do islã no Egito pela Fraternidade Muçulmana, como arma político-institucional, levou o país a uma situação de extrema gravidade, que, por outro lado, milhões de egípcios já tinham previsto.

Depois do referendo nacional, parece que uma nova rota está se desenhando, e ela vai ser difícil. A sociedade egípcia está profundamente ferida no seu tecido humano e social. Vão passar anos, talvez gerações, até uma verdadeira reconciliação nacional.

E nem falemos da Síria, um país martirizado por tanta guerra e violência, exausto de tanta morte e destruição. Os problemas humanos não se curam com as declarações barulhentas dos participantes, nem acabam com a rubrica solene das conversações de paz. O problema doutrinal entre sunitas e xiitas está no próprio âmago da identidade nacional de países como a Arábia Saudita, o Barein, o Iraque, o Irã, a Síria e o Iêmen.

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GuerraMuçulmanosMundoPerseguição
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