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Onda de poder! Líderes em crise de valores?

© Christopher Dilts / Public Domain

Aleteia Brasil - publicado em 13/02/14

A imagem de um político pode ser destruída por escândalos sexuais? Até que ponto o poder corrompe os valores de uma pessoa?

As manchetes sobre políticos envolvidos em escândalos sexuais se tornam cada vez mais frequentes. A relação entre Hollande e Julie Gayet foi o último caso. A história começa em janeiro de 2013, como testemunham as famosas fotos do presidente em uma moto, perto ao apartamento da atriz em Rue du Cirque. É possível que a perda de valores de um político em sua vida particular, talvez causada pelo excesso de poder, diminua sua credibilidade com os eleitores?

A Aleteia entrevistou o especialista em comunicação e política, Michele Sorice, professor da Universidade LUISS “Guido Carli” e diretor do Centro de Estudos de Mídia e Comunicação “Massimo Baldini”. A notícia mais clicada na web nesta semana (298 milhões de resultados na busca Google), foi a dos rumores – negados – do jornal Washington Post, que mostra fotografias do presidente Barack Obama e da cantora Beyoncè, notícia falsa que atraiu a atenção para a reputação e o exemplo que um líder deve dar a seu povo.

Os comportamentos morais duvidosos podem tornar um líder fraco e manipulado?

Naturalmente sim, ao menos em teoria. Nota-se, porém, que são muitas as variáveis em jogo; antes de tudo, fraqueza e manipulação são duas grandes. Existem líderes manipulados e que continuam conservando uma força derivante do consenso recebido ou do uso das mídias, assim como existem líderes fracos, mas absolutamente não manipulados, mais pela clareza de seus posicionamentos que por sua estatura moral.

Depois, há uma variável geográfica. Em alguns países, a dimensão moral assume valor político: a esfera sexual nos Estados Unidos, a falta de respeito pelo bem comum no Norte da Europa. Em outros países, alguns elementos podem facilmente ser perdoados ou ainda considerados pontos qualificantes: uma parte – felizmente, não a maioria – da opinião pública italiana avalia positivamente o “machismo”, por exemplo. E isso muda a lógica da percepção social.

Um líder “transparente” poderia reconhecer os próprios erros?

Absolutamente sim. Isso o torna humano e o fortalece. Muitas vezes, a descoberta da mentira é mais grave que o erro. A mentira é percebida como ruptura do relacionamento de confiança que liga o líder ao seu povo. Não é o caso de Clinton, por exemplo. Ele foi mais criticado por ter escondido o episódio com a senhora Lewinski que pelo episódio em si.

O que se entende quando se diz que um líder “transparente” age com base nos seus valores?

Entende-se que ele constrói a sua liderança de maneira horizontal com seu povo: uma liderança comum na qual a proposta do líder é assumida pela sua gente através de um processo deliberativo.

Trata-se, porém, de um processo raro. Principalmente o líder contemporâneo é um novo príncipe, e muitas vezes ele é confundido por aqueles valores que são somente posições estrategicamente definidas.

Um líder deve ter uma comunicação transparente com as pessoas que guia. Isso significa respeitar um código moral mais alto que o dos cidadãos comuns?

Significa respeitar um código moral, que deveria valer para todos. Certo, de um líder se espera sempre mais, porque possui necessidades, valores, sonhos e constrói uma identidade coletiva. É como o capitão de um time de futebol, do qual se espera uma fidelidade maior, um compromisso competitivo forte e fascinante, mesmo quando o time está perdendo.

Onde é o limite entre público e privado para um político ou um personagem público que deseja servir ao bem comum?

Faz tempo que este limite não existe mais, também por culpa da política, que considera eficaz a espetacularização do seu caráter privado para fins eleitorais. A vida privada de Enrico Berlinguer (secretário do partido comunista italiano, morto em 1984 durante um comício) ou de Aldo Moro (secretário da democracia cristã, raptado pela BR italiana e assassinado em 1978), não pertencia à área política. As mídias se nutrem da esfera privada, que parece humanizar o líder político; os líderes encontram nesta visibilidade midiática um retorno eficaz para as suas campanhas.

O caso Hollande – Gayet

A relação entre Hollande e Julie Gayet é uma ilustração perfeita desta problemática. François Hollande está em baixa nas pesquisas, e não é somente a sua política que é colocada em discussão. Desde que surgiu o caso Julie Gayet, 54% dos franceses se pronunciaram contra a existência de uma primeira-dama, e esta postura reflete a indignação em massa do povo diante a atitude do presidente.

Ele teve quatro filhos com Segolène Royal sem nunca tê-la pedido em casamento, não deixando de traí-la durante as eleições presidenciais de 2007 – na qual Royal era candidata – com a jornalista Valérie Trierweiler, que se tornou primeira-dama, porém sem casar-se com Hollande. Não surpreende, portanto, que ele a tenha traído com a atriz Julie Gayet. Aos olhos de muitos, é um homem incapaz de assumir suas próprias responsabilidades, contentando-se com repudiar as mulheres que compartilharam sua vida com um simples tapa na cara (JFK, por exemplo, não sofreu esta queda de credibilidade por ter muitas amantes, já que ficou com sua esposa, mesmo depois do escândalo de Marilyn Monroe).

Contudo, os franceses não ficaram descontentes com que Hollande tenha ido sozinho ao Vaticano e aos Estados Unidos. Na verdade, perguntavam-se séria e publicamente com qual “namorada” ele se apresentaria. Mas, além disso, é a traição que evidencia a fraqueza do chefe de Estado: se ele mente e trai as mulheres de sua vida, por que não o faria também com os franceses? Valérie Trierweiler pensa que, se François não tivesse sido levado pela onda do poder, estariam ainda juntos. Lord Acton responderia que “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

Registros históricos

Clinton e a estagiária Monica Lewinsky

Em 1995, Monica Lewinsky, estagiária da Casa Branca, começou um relacionamento com Bill Clinton, presidente dos Estados Unidos na época. A garota revelara os detalhes a uma amiga, Linda Tripp, que trabalhava no Departamento de Defesa e registrava os telefonemas.

Em 1998, estourou o escândalo, que teve ressonância mundial, e levou a Câmara dos Representantes a acusar Clinton sobretudo por ter mentido sobre a suposta relação. O escândalo sessou em agosto de 1998, com um discurso televisivo de Clinton, que admitiu ter mentido sobre o evento.

JFK e Marilyn

Em agosto de 2013, saiu nos Estados Unidos um livro do jornalista Christopher Anderson com o título “These few precious days: the final year of Jack with Jackie", no qual se revela que a atriz Marylin Monroe teria chamado a primeira-dama Jacqueline Kennedy para confessar a relação com seu marido, o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy. O “segredo” nunca foi confirmado por fontes oficiais.

Berlusconi e Rubygate

Continua o processo contra Silvio Berlusconi, iniciado em 2010, quando foi acusado de ter pago para ter relações sexuais com uma bailarina menor de idade, Karima El Mahroug, conhecida também como Ruby Rubacuori (nome artístico), assim como com tantas outras meninas jovens que frequentavam festas privadas organizadas na sua casa de Arcore.

A prisão de Strauss-Kahn

Em 14 de maio de 2011, Dominique Strauss-Kahn foi preso em Nova York, acusado de tentar violentar sexualmente a camareira de um hotel na Times Square. Quatro dias depois da prisão, demitiu-se do cargo de diretor do FMI (Fundo Monetário Internacional). 

No mesmo ano, em 1º de julho, o jornal americano New York Times anunciou um avanço nas investigações. Os investigadores revelaram uma pesada incongruência no que a acusante disse. Segundo o procurador, a moça havia deliberadamente mentido diante do júri. No dia 23 de agosto, o Ministério Público de Nova York arquivou definitivamente o processo.

Último “tango” em Paris: Hollande – Julie Gayet

O relacionamento de Hollande com Julie Gayet foi o último caso. A história começou em janeiro de 2013, como testemunham famosas fotos do presidente em uma moto, próximo do apartamento da atriz em Rue du Cirque.

O que diz a Igreja?

“Quando a ação política se confronta com princípios morais que não admitem abdicações, exceções ou compromissos de qualquer espécie, é então que o empenho dos católicos se torna mais evidente e grávido de responsabilidade. Perante essas exigências éticas fundamentais e irrenunciáveis, os crentes têm, efetivamente, de saber que está em jogo a essência da ordem moral, que diz respeito ao bem integral da pessoa. (…)

Afastam-se da verdade aqueles que, pretextando que não temos aqui cidade permanente, pois demandamos a futura, creem poder, por isso mesmo, descurar as suas tarefas temporais, sem se darem conta de que a própria fé, de acordo com a vocação de cada um, os obriga a um mais perfeito cumprimento delas.” (Congregação para a Doutrina da Fé, “Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política”)

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