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A crise dos abusos sexuais é a vergonha da Igreja

Tomas Fano

Daniel McInerny - Aleteia Vaticano - publicado em 14/02/14

A extrapolação da Comissão da ONU pode prejudicar a sua legítima causa em prol da proteção e da defesa das vítimas de abuso sexual. É o que argumenta John L. Allen Jr. no Boston Globe. Allen afirma que o relatório "pode até fortalecer aqueles que ainda negam os escândalos de abuso na Igreja, permitindo-lhes tachar o relatório da ONU de mera crítica laica instrumentalizada pela política".

A distração criada pela crítica fora de lugar que o relatório faz aos ensinamentos da Igreja, sustenta Allen, também ofusca o trabalho que a Comissão das Nações Unidas e a Igreja estão fazendo para atingir objetivos em comum. "Por exemplo, a Comissão sugere que a nova comissão pontifícia para a proteção da criança, que o papa Francisco criou e anunciou em dezembro, deve assumir não apenas a investigação das acusações de abuso, mas também os casos de bispos que ‘baixaram a guarda’ na aplicação da nova política da Igreja de tolerância zero". Como o mesmo Allen observa, porém, há também os exemplos de poderosos homens da Igreja que estão muito empenhados em aplicar a política de "tolerância zero" da Igreja contra os abusos sexuais: por exemplo, o bispo auxiliar Charles Scicluna, de Malta, promotor vaticano que denunciou o pe. Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, e o cardeal Sean O'Malley, de Boston, que declarou, em maio de 2010, que é necessário remover do cargo qualquer bispo que acoberta um padre plausivelmente acusado de abuso sexual.

Infelizmente, Allen também deixa claro que há forças poderosas dentro da Igreja –ele cita a Conferência dos Bispos Italianos– que continuam complacentes diante da crise. O relatório da ONU aponta uma cultura de impunidade dos agressores. Seja qual for o grau de consistência dessa cultura dentro da Igreja, ela deve ser extirpada.

Ainda restam sérios mal-entendidos sobre o que é exatamente essa crise dos abusos sexuais. Tim Drake recorda um estudo de 2004, da Faculdade John Jay de Direito Criminal, sobre a natureza e o alcance da crise: o estudo concluiu que 81% das acusações de abusos cometidos por membros do clero tem como vítimas pessoas do sexo masculino, 78% dos quais eram “pós-púberes”. Comenta Drake: "O relatório da ONU, que critica os ensinamentos da Igreja sobre a sexualidade humana, poderia ter examinado a conexão entre a sexualidade desordenada nas comunidades religiosas e o abuso sexual contra adolescentes do sexo masculino. O fracasso do relatório ao omitir essa análise é mais ou menos do tamanho de um elefante sentado na sala de estar da ONU".

Mas, por mais que as declarações de Tim Drake sejam verdadeiras, não importa, em certo sentido, se as vítimas dos abusos eram “pré” ou “pós-púberes”. O que mais importa é que há vítimas e que os próprios padres da Igreja as tornaram vítimas. Para seu grande crédito, dom Tomasi não isentou a Igreja do dever da transparência na resposta permanente à crise: "Nós temos que insistir nesta política de transparência", disse ele, "de tolerância zero ao abuso, porque até mesmo um único caso de abuso infantil já seria demais!".

Outro especialista consultado pela Aleteia, o pe. Joseph Fessio, declarou o seguinte sobre a situação atual da crise dos abusos sexuais nos Estados Unidos:

“Os bispos, pelo menos nos EUA, onde eu estou familiarizado com a situação, instituíram e executaram políticas que protegem o jovem, e fizeram isso tão eficazmente que é possível afirmar que os jovens estão mais seguros hoje nas instituições católicas do que em quaisquer outras instituições do país, incluindo, sem dúvida nenhuma, o sistema das escolas públicas. O relatório da ONU está muito defasado sobre essa questão, pelo menos no caso dos EUA. E os bispos do país não só removeram do ministério os padres abusadores como, num excesso de cautela, acabaram afastando também muitos sacerdotes inocentes. Levando tudo isso em conta, ninguém que esteja com todos os fatos na mão pode culpar os bispos, nos últimos anos, de não fazer nada para frear os criminosos reais ou potenciais”.

Fessio continua: “Por outro lado, embora os bispos tenham tomado medidas decisivas, também é verdade que eles não têm sido bem sucedidos na hora de lidar com os crimes dos seus próprios irmãos bispos. A desculpa muito repetida do ‘se eu soubesse antes o que eu que sei agora…’ não se sustenta. No caso dos padres pedófilos, existe pelo menos o fator atenuante de que eles têm um distúrbio psicológico. Mas o que é que pode atenuar a responsabilidade dos bispos que, conscientemente, só moveram padres pedófilos de um lugar para outro sem tomar nenhuma outra medida? Neste ponto, o relatório da ONU poderia ter sido útil”.

E conclui: “Talvez esta seja uma oportunidade para a Igreja responder da seguinte forma: ‘Embora o relatório de vocês seja tão falho e vocês não entendam que a doutrina católica não pode ser mudada nem mesmo pelo papa, nós reconhecemos a validade de algumas das suas críticas e pretendemos levá-las a sério’”.

A Igreja precisa mesmo levar a sério algumas críticas da ONU, já que, afinal, ela só pode culpar a si mesma pelo mau comportamento dos seus membros. Esta crise é a "vergonha da Igreja", como o papa Francisco bem a chamou. Por isso, a vigilância da Igreja no tocante à justiça precisa ser, de agora em diante, total e intransigente.

A arrogância ideológica do relatório da ONU não pode nos levar a fechar os olhos para esse fato. A ONU cometeu um fiasco na sua guerra contra os ensinamentos morais da Igreja, mas será que esta é a única coisa relevante a observarmos nesse recente relatório?

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Tags:
Abusos SexuaisMundopedofilia
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