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A lamentável subcultura católica

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Quantas pessoas acreditam realmente em todas as verdades centrais do catecismo católico?

Convenhamos, você também já notou. A Igreja católica, hoje, nos parece uma estreita porção, bastante homogênea, de uma “fatia de fatia” da humanidade. É claro que, se pensarmos nela do ponto de vista estatístico ou incluirmos todas as pessoas que vão à missa mais do que duas vezes por ano, ainda podemos fingir que a Igreja abrange uma ampla fatia da humanidade, desde os jardineiros imigrantes ilegais nos Estados Unidos, com tatuagens da Virgem de Guadalupe, até os neoconservadores de terno e gravata que trabalham para empreiteiros militares na indústria do lobby de Washington, passando por todas as variedades humanas possíveis que existem entre esses dois nichos. Neste sentido, os eleitores de Kennedy que se encharcam de cerveja no Fenway Park de Boston são tão católicos quanto o papa.

Mas vamos usar a linguagem de maneira muito mais precisa, num sentido doutrinalmente rigoroso. Quantas pessoas nos Estados Unidos acreditam realmente em todas as verdades centrais do catecismo católico? Algumas pesquisas de opinião pública revelam que grandes porcentagens de participantes da missa dominical não conhecem ou sequer ouviram falar na transubstanciação, a transformação do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo na Eucaristia. Dependendo da “facção” do fragmento católico a que se pertence, pode-se atribuir essa ignorância ao colapso da educação católica, à superficialização da liturgia ou até mesmo à supressão, na década de 1970, da “catequese inconsciente” que acontecia toda vez que uma pessoa simples e iletrada se ajoelhava diante da Hóstia e, reverentemente, a recebia na boca pelas mãos abençoadas de um sacerdote.

Eu não sei se as pesquisas de opinião pública perguntaram aos “católicos de domingo” se eles acreditam na ressurreição física de Cristo, ou na Imaculada Conceição, mas, se os católicos em geral acreditam nas coisas que me ensinaram no meu colégio católico, eles são hereges. E, provavelmente, nem sequer sabem disso. Nem se importariam.

A prática não é um espelho perfeito daquilo em que acreditamos, mas, certamente, é significativo que os números do divórcio, do sexo antes do casamento e da coabitação não sejam nem um pouco inferiores entre os católicos romanos na comparação com a maioria dos protestantes (em alguns casos, são até superiores). O crescimento explosivo das anulações matrimoniais se explica, em parte, pelo abuso por parte dos bispos, mas, por outro lado, é também um reconhecimento de que muitos católicos recebem este sacramento com “intenção defeituosa”. Não nos esqueçamos de que, se uma das partes se casa considerando que o divórcio e um futuro novo casamento são uma opção possível, isso invalida o matrimônio. Desta forma, a maioria das anulações hoje em dia são provavelmente válidas (ao contrário de muitos casamentos católicos).

Há medidas simples, radicais e impopulares que os nossos bispos poderiam tomar para conter o colapso do casamento católico, mas podemos vislumbrar, pelo “exemplo” dos bispos alemães, qual é o caminho que eles estão muito mais propensos a seguir: jogar fora o princípio do casamento indissolúvel e se livrar da jurisdição sobre o casamento que a Igreja assumiu no Concílio de Trento, deixando para as consciências individuais a tarefa de discernir se o próprio casamento católico foi inválido e se o segundo casamento civil é de fato sacramental.

Mas o maior cavalo de batalha é, sem dúvida, a contracepção. O número máximo que eu já vi de católicos que acatam e obedecem à proibição da Igreja de empregar a contracepção artificial é de 5%. Poderíamos argumentar que há um grande número de católicos que admitem que a Igreja está certa sobre este assunto, mas acham esse ensinamento muito difícil de praticar e acabam por desrespeitá-lo. Eu não compro esse argumento. Um católico que tem essa consciência, se acreditasse de fato que está cometendo um pecado mortal constante, evitaria a sagrada comunhão nessas condições. O resultado direto seriam filas curtas para comungar e filas longas para a confissão. Excetuando as paróquias com missa em latim, onde a maioria das famílias tem cinco filhos ou mais, eu nunca vi essas filas. Você viu? Parece que a maioria dos católicos que pratica a contracepção se convenceu ou foi convencida de que pode praticá-la com a consciência tranquila.

A consequência deste fato triste é clara: em uma questão de moralidade tão grave quanto esta, sobre a qual vários papas invocaram a sua plena autoridade moral, 95% dos católicos norte-americanos (e o número é certamente maior em quase toda a Europa) rejeitam as orientações de Roma. Eles não são meros “maus católicos”, mas membros de uma nova seita dissidente, que ocupa a maior parte dos bancos na maioria das igrejas (e muitos púlpitos e escritórios de bispos também).

Antes do tumulto doutrinal da década de 1960, quase todos os “católicos de estatísticas” também eram católicos doutrinalmente ortodoxos, por terem ao menos o conhecimento da doutrina. Isso não quer dizer que a Igreja estivesse lotada de santos, é claro. A natureza humana sempre foi tão frágil e falível quanto é hoje. Mas os católicos de todos os níveis de prática religiosa, mesmo que as suas vidas divergissem dos ensinamentos da Igreja, sabiam quais eram esses ensinamentos. Eles sabiam que eram pecadores, ou imaginavam a si próprios como “realistas”, em vez de se posicionarem no time da dissensão doutrinal.

Algumas questões do comportamento humano podem ser representadas graficamente através de curvas, mas o espectro da fé parece muito mais um guarda-chuva encostado numa parede: uma lenta inclinação com uma abrupta ponta no topo. As pessoas na parte de baixo do guarda-chuva são as menos interessadas e as menos informadas sobre as questões de ; as da ponta, por sua vez, são as mais devotamente fiéis à doutrina. Em 1930, por exemplo, podíamos encontrar, na parte de baixo do guarda-chuva, os pistoleiros da máfia, as prostitutas, os ladrões e os camponeses supersticiosos. Indo mais para cima, veríamos aumentar gradualmente o nível de conhecimento e de interesse até que, de repente, o gráfico desenhasse a ponta aguda em que se encontravam os santos místicos, os missionários destemidos e até os fanáticos hipócritas. No meio, estavam todas as pessoas comuns que podemos esperar em uma Igreja destinada a servir e salvar a grande massa da humanidade, o povo que Chaucer retratou como peregrinos rumo a Canterbury.

Todas essas pessoas representadas pelo guarda-chuva tinham níveis diferentes de compromisso, mas o seu credo era o mesmo. Al Capone era, e sabia que era, um católico assassino. Ele não se proclamava “dissidente no tocante à questão de vida”. Al Capone não patrocinava nenhum grupo do tipo “Católicos Pró-Zonas de Bala Livre”.

Com a rejeição em massa do ensino da lei natural apresentado na Humanae Vitae, os únicos católicos conscientemente ortodoxos que restaram foram aqueles 5% interessados e comprometidos com a ortodoxia de modo profundo. Houve sacerdotes e leigos santos e abnegados que sofreram por causa das suas crenças, assim como houve fariseus autocomplacentes e alegres por se acharem parte do “remanente dos salvos”. Houve operários que aceitaram a disciplina de permanecer abertos à vida e à prática ascética do planejamento familiar natural e houve católicos que usaram os ensinamentos da Igreja como pretexto para conseguir ajuda pública (um número chocante de católicos norte-americanos que se consideram ortodoxos, a quem eu encontrei, na maioria, em pequenas faculdades fervorosamente católicas, tiram proveito de vales-alimentação e de ajuda médica pública ao mesmo tempo em que proclamam que fazem contracultura, às custas dos seus vizinhos).

Há muita mistura no mesmo saco. E é um saco pequeno. Um grande amigo meu, que trabalha em uma renomada editora católica, me falou dos resultados de uma dispendiosa pesquisa de mercado que essa editora contratou para dimensionar o real tamanho do “mercado católico ortodoxo”. Muitos milhares de dólares depois, a empresa concluiu que, contando apenas os católicos que vão à missa mais de uma vez por semana, ou que gastam um único dólar que seja em livros ou mídias católicas, ou que são voluntários em atividades paroquiais, o total nos Estados Unidos não passa de 1,2 milhão.

Esse é todo o mercado católico. Não é à toa que não há receita suficiente para fazê-lo avançar. Todas as brigas entre tradicionalistas e conservadores da Nova Ordem são batalhas por pedaços desse bolo. Um bolinho, aliás.

E bolinhos não são a comida mais saudável. Não é normal que a Igreja seja composta apenas por santos e zelotes, futuros beatos ascéticos e reencenadores da Inquisição. A fé deve ser um fermento que produz um pão saudável. Mas, desde 1968, não tem havido muito a fermentar. Na última vez em que estive numa feira da Rede Católica de Marketing, que inclui todas as empresas líderes no mercado católico ortodoxo, os participantes pareciam, na maioria, pessoas que tinham comprado os seus próprios estandes: os vendedores passavam o dia tentando vender as suas coisas uns para os outros (“Troco três cópias de O Segredo do Rosário por um desses hologramas 3-D da Divina Misericórdia”).

O homem não pode viver só de comer fermento e a Igreja não pode resistir à tempestade só com a ponta do guarda-chuva. Precisamos de uma gama mais ampla de humanidade do que a que pode ser encontrada nos 5% doutrinalmente conscientes, o que, tenho certeza, não é mais estranho nem mais disfuncional do que sempre foi ao longo da história da Igreja. E nós já tivemos um guarda-chuva completo.

A estranheza, a amargura, o mau humor e a mediocridade geral que permeiam a subcultura católica, dos seus jornais aos seus programas de TV, da maioria das suas pequenas escolas até os livros mal escritos e os blogs sentimentais e desleixados que inundam o pequeno mercado de leitores católicos conservadores, são o resultado direto de haver poucas pessoas entre as quais escolher. Logo de cara, 95% dos potenciais candidatos a qualquer posição se desqualificam por razões doutrinais. Além disso, é uma agradável surpresa encontrar algum católico ortodoxo e, nesse caso, a tentação é a de não lhe fazer muitas outras perguntas; por exemplo, sobre as suas qualificações pessoais, seus talentos ou seu temperamento. Se ele “bate” com os nossos critérios doutrinais, nós o aceitamos logo como companheiro e nos inclinamos a pensar o melhor dele; pelo menos até a primeira discussão sobre liturgia, doutrina ou economia. A partir daí, passamos todo o nosso tempo combatendo os seus erros, convencidos de que estamos de alguma forma ajudando a virar a maré da história, quando, na verdade, só estamos fazendo ondas na piscina inflável das crianças.

Esta Igreja da Ponta do Guarda-Chuva, com seu conjunto reduzido de tipos humanos, seria a “Igreja menor e mais pura” de que falou o papa Bento XVI? Ou seria o subconjunto de “imanentistas neopelagianos” sobre os quais o papa Francisco nos advertiu? As duas coisas: o trigo está irremediavelmente misturado com o joio. Mas uma coisa é certa: essa Igreja é como um grupo de guepardos em cativeiro, com todos os perigos de deformidade e de doença que isso implica.

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