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Manifestações no Brasil

Christiane Sales - Aleteia Vaticano - publicado em 15/02/14

Conheça o posicionamento da Igreja a respeito dos últimos acontecimentos no país

Essa foi uma semana intensa nos noticiários brasileiros. As reportagens giraram da morte do cinegrafista da rede Bandeirantes Santiago Andrade até a divulgação do escândalo, ainda não confirmado, envolvendo compras dos chamados “Black-Blocs” por políticos. As discussões continuam girando entre os defensores das forças policiais e os dos manifestantes, que os consideram uma multidão pacífica. O tema ganhou projeção internacional. No artigo da revista Forbes “Brasil não é um país civilizado, diz a mais controversa âncora do país”, o jornalista Anderson Antunes apresenta a onda de violência nas manifestações como um fator preocupante para a Copa do Mundo de 2014.

Um estudo recente da Universidade de Miami, EUA, apresentado no artigo conclui: “Durante os protestos de 2013, ficou claro que as forças de segurança usam poder desnecessário para enfrentar a mais pacífica multidão. Um perturbador desenvolvimento está aparecendo entre jovens vestidos de máscaras pretas, que não têm medo do confronto com as forças policiais”.

Do ponto de vista sociológico, o fenômeno das manifestações brasileiras que reuniu milhares de jovens descontentes em todo país ainda é difícil de ser analisado. A falta de clareza sobre o objetivo delas – começou com o aumento das passagens de ônibus e passou para qualquer descontentamento pessoal dos membros da classe média brasileira – é apontado pelos sociólogos entrevistados por ALETEIA como um fator que dificulta a análise.

Os descontentamentos aliados à desilusão com as instituições permitem o florescimento da onda de violência. Vale lembrar que tanto os “Black-Blocs” quanto os justiceiros que amarraram um garoto em um poste no bairro do Flamengo no Rio de Janeiro são pessoas descrentes nas instituições e que julgam que a violência é um caminho para a solução.

“Quem se identifica com a esquerda ou, de maneira mais geral, com as manifestações, pode ir para a rua, pôr uma camisa ou máscara no rosto, dirigir-se para o front e virar um ‘Black-Bloc’. Mas ter algumas pessoas que se utilizam da tática em um evento não quer dizer que o evento seja ‘Black-Bloc’”, explica o sociólogo da UFRJ Breno Rabello.

O recém-nomeado cardeal Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio, considerou lamentável a onda de violência nas manifestações. “Nós estamos no meio dessa situação toda e somos chamados a ver como podemos garantir a liberdade de imprensa, garantir a livre manifestação e impedir a violência. Eu acho que é uma equação que cabe justamente às autoridades resolver. Como Igreja nós chamamos as pessoas a viver em paz, a se entenderem, a amar uns aos outros. Mas cada um é livre para aceitar ou não esse chamado ao amor ao próximo”.

Para o cardeal, as manifestações pedindo melhorias no transporte, alimentação, entre outras coisas, são válidas e importantes. Mas a destruição do patrimônio público e a propagação da violência devem ser coibidas pelas autoridades.

Posição da Igreja

Segundo o professor de Filosofia da Ciência da PUC-Rio Robson Oliveira, “o direito civil vai ao encontro da ética e da Doutrina Social da Igreja, que reconhece o direito à greve e, parece razoável, também reconheceria manifestações civis, contanto que: outros recursos tenham se mostrado ineficazes; seja necessário para um bem proporcional; devem tratar de um objetivo bem comum e; não admite uso de violência (cf. Compêndio de Doutrina Social, § 304)”.

Ele explica que as manifestações “por um país justo e menos corrupto” não entram em contradição com a Doutrina Católica. “Entretanto, na prática, as manifestações que têm ocorrido resvalam em questões difíceis de justificar. Por exemplo, ano passado, quando houve a destruição do patrimônio público e privado, pelos ‘Black Blocs’, o motivo foi o aumento da passagem em 20 centavos. Será que a reação dos manifestantes foi proporcionada ao objeto perseguido? Esgotaram-se todos os meios de diálogo? São perguntas que, confesso, não me sinto capaz de responder”.

O professor lembra ainda que, na Encíclica Caritate in Veritate, Bento XVI diz que os atos de vandalismo e violência "refreiam o desenvolvimento autêntico e impedem a evolução dos povos para um bem-estar socioeconômico e espiritual" (cf. § 29).

Também o Papa Francisco toca nessa temática na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, quando diz que as armas e a violência, no contexto dos embates socioeconômicos, "mais do que dar solução, criam novos e piores conflitos" (cf. § 60).

“Os Black-Blocs não respeitam o direito dos comerciantes terem suas lojas, dos proprietários terem seus carros, dos cidadãos, suas casas. Há inclusive a cena registrada por um fotógrafo em que um grupo de Black-Blocs incendeia um automóvel com a família ainda dentro do veículo. Felizmente, esse caso não terminou como a tragédia do cinegrafista Santiago. Deve-se dizer, contudo, que o Compêndio de Doutrina Social ‘reconfirma o direito à propriedade privada, evocando-lhe a sua função social’ (cf. § 91). Atacar o bem, muitas vezes responsável pela sobrevivência de uma família, não é função de manifestações populares”, conclui Oliveira.

[Errata: na primeira versão publicada deste artigo, um erro substituiu algumas palavras pela tag Black-Blocs, alterando o sentido de algumas passagens do texto. Esta é a versão correta. Pedimos desculpas pelo erro]

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