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A riqueza é um bem quando ajuda os outros

© Sabrina Fusco / ALETEIA

Aleteia Vaticano - publicado em 24/02/14

O papa prefacia o livro do cardeal Müller sobre a pobreza e a missão da Igreja

Quem de nós não se sente desconfortável até mesmo com a palavra "pobreza"? Há muitas formas de pobreza: física, econômica, espiritual, social, moral. O mundo ocidental identifica a pobreza principalmente com a falta de poder econômico e enfatiza negativamente essa condição. Seus governos, aliás, se baseiam essencialmente no enorme poder que o dinheiro tem hoje, um poder aparentemente superior a qualquer outro. É por isso que a falta de poder econômico significa irrelevância política, social e até mesmo humana. Quem não tem dinheiro só é levado em conta na medida em que pode servir a outros fins. Há muitas pobrezas, mas é a pobreza econômica que é vista com mais horror. Esta é uma grande verdade. O dinheiro é um instrumento que, de alguma forma, assim como a propriedade, prolonga e aumenta as capacidades da liberdade humana, permitindo-lhe operar no mundo, agir, dar frutos. Em si mesmo, é um instrumento bom, como quase todas as coisas de que o homem dispõe: é um meio que expande as nossas possibilidades. No entanto, esse meio pode se voltar contra o homem. O dinheiro e o poder econômico podem ser um meio que afasta o homem do homem, confinando-o num horizonte egocêntrico e egoísta.

A própria palavra aramaica que Jesus usa no Evangelho, “mammom”, ou seja, tesouro escondido (cf. Mt 6,24; Lc 16,13), é significativa: quando o poder econômico é um instrumento que produz tesouros que guardamos apenas para nós mesmos, escondendo-os dos outros, ele produz iniquidade, perde o seu originário valor positivo. A palavra grega usada por São Paulo em sua Carta aos Filipenses (cf. Fl 2, 6), “arpagmos”, também remete a um bem que se mantém zelosamente só para si, ou mesmo o fruto do que se roubou de outros. Isso acontece quando os bens são usados ​​por homens que conhecem a solidariedade apenas para o círculo, pequeno ou grande, dos próprios conhecidos, ou quando se trata de recebê-la, mas não de oferecê-la. Isso acontece quando um homem, tendo perdido a esperança no horizonte transcendente, perdeu também o gosto da gratuidade, o gosto de fazer o bem pela simples beleza de fazer o bem (cf. Lc 6, 33).

Já quando o homem é educado para reconhecer a fundamental solidariedade que o liga a todos os outros homens, e disso quem nos lembra é a Doutrina Social da Igreja, então ele bem sabe que não pode guardar para si os bens de que dispõe. Quando vive habitualmente na solidariedade, o homem sabe que o que nega aos outros e retém para si mesmo se voltará mais cedo ou mais tarde contra ele próprio. No fundo, Jesus alude a isto no Evangelho quando acena à ferrugem e à traça que arruínam as riquezas acumuladas de maneira egoísta (cf. Mt 6, 19-20; Lc 12, 33).

Quando, porém, os bens de que se dispõe são utilizados não apenas para satisfazer as próprias necessidades, eles se multiplicam e se espalham, dando muitas vezes um fruto inesperado. Há uma ligação original entre o lucro e a solidariedade, uma circularidade entre ganho e dom, que o pecado tende a romper e ofuscar. É tarefa dos cristãos redescobrir, viver e anunciar a todos esta valiosa e original unidade entre lucro e solidariedade. Como o mundo de hoje precisa redescobrir esta bela verdade! Quanto mais o mundo concordar em acertar as contas com este fato, mais diminuirão as pobrezas econômicas que tanto o afligem.

Mas não podemos nos esquecer de que não existem apenas as pobrezas relacionadas com a economia. É Jesus mesmo quem nos lembra, advertindo-nos, de que a nossa vida não depende apenas "dos nossos bens" (cf. Lc 12, 15). Originalmente, o homem é pobre, necessitado e indigente. Quando nascemos, precisamos, para viver, dos cuidados dos nossos pais, e, assim, em cada época e fase da vida, cada um de nós nunca será capaz de prescindir completamente da necessidade e da ajuda dos outros, nunca será capaz de se livrar do limite da impotência diante de alguém ou de alguma coisa. Esta também é uma condição que caracteriza o nosso "ser criaturas": não fomos feitos por nós mesmos e, sozinhos, não podemos nos proporcionar tudo aquilo de que precisamos. O leal reconhecimento desta verdade nos convida a permanecer humildes e a praticar com coragem a solidariedade, como virtude indispensável ao próprio viver.

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