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Queremos ser uma Coreia do Norte com crucifixos?

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John Zmirak - publicado em 28/02/14

Um país drogado e as tentações de desdrogá-lo à força

Vamos imaginar que a grande maioria dos nossos cidadãos sejam fumantes habituais de maconha. Imagine que alguns deles conseguem se segurar no emprego e parecem ir levando a vida sem maiores problemas. Outros já estão grosseiramente debilitados pelos efeitos entorpecentes e soporíferos da droga fumada todo dia. A produtividade no trabalho cai, é claro, e muitos aspectos da nossa cultura acabam prejudicados: afinal, é muita gente, em seus melhores e mais criativos anos de trabalho, vivendo uma "meia-idade relax", regada a erva e fumaça. O uso da maconha penetrou tanto na sociedade que qualquer ideia de proibi-la faria todo um salão rir da sua cara (e todo um escritório propor que você fosse mandado embora). No entanto, 5% da população desse país imaginário sabe a verdade sobre a maconha. Essa minoria se absteve de fumá-la. Alguns até sussurraram que a maconha deveria ser declarada ilegal, mas ninguém os levou a sério.

Esse país imaginário, mesmo assim, enfrentaria problemas muito maiores do que a maconha. Imagine que, além da maioria absoluta de fumantes habituais da maconha legalizada, houvesse ainda uma grande quantidade de viciados em heroína, igualmente legalizada. Esses usuários abusariam da heroína a tal ponto que um milhão de cidadãos morreriam de overdose todo ano. Os efeitos da heroína seriam tão abertamente devastadores que a metade dos cidadãos se oporia ao seu uso. A opinião pública estaria propensa a proibir a droga. Metade dos próprios fumantes de maconha concordaria em proibir a heroína. Imagine que alguns dos fumantes de maconha até se juntassem a um movimento organizado para tornar a heroína ilegal. Esse movimento seria liderado por pessoas que não usam nem mesmo a maconha, porque consideram que ela também é destrutiva.

Agora imagine as tensões existentes dentro desse movimento. Os abstêmios totais estremeceriam toda vez que os seus aliados fumantes de maconha saíssem de alguma reunião para fumar um pouco lá fora. E, muito provavelmente, tentariam dizer a esses aliados: “Veja só, todos nós concordamos que a heroína é ruim. Mas a maconha também é um problema, e um problema maior do que vocês pensam. Fumar maconha pode ser a porta de entrada para a heroína”. Os fumantes ficariam quietos e continuariam trabalhando lado a lado com os abstêmios para resolver o problema da heroína, que é mais urgente e mais mortal, e deixariam a conversa sobre a maconha para outros momentos, mais privados, com pessoas em quem eles tivessem mais confiança e mais familiaridade. Essas pessoas de confiança é que poderiam convencer alguns dos aliados adeptos da maconha a optarem de uma vez por todas pela sobriedade completa.

A única coisa que os membros sóbrios do movimento de combate à heroína sabem que não podem fazer em quase nenhum contexto é afirmar que a sua agenda acabará levando também à proibição da maconha. Enquanto trabalham com seus aliados “ligeiramente chapados” a fim de (tentar) salvar um milhão de vidas por ano, eles podem, de vez em quando, soltar um panfleto aqui, outro panfleto ali, sobre o lado negativo da maconha. Mas, se no mais profundo do seu coração eles sonham com o dia em que todos os traficantes de maconha vão estar atrás das grades, esse sonho fica por lá mesmo: dentro do seu coração. Eles sabem que proibir uma droga mortal é muito mais importante do que ficar apresentando argumentos intelectualmente consistentes para livrar o país de todas as drogas mediante as armas e as cadeias do Estado. Eles sabem que, neste país viciado, falar em proibição total soaria utópico na melhor das hipóteses e ditatorial na pior delas.

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DrogasPecadoVícios
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