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Não quero sacrifícios, mas compaixão

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Rafael Luciani - publicado em 05/03/14

Reflexões para o início da Quaresma

Na época de Jesus, as pessoas costumavam dar muita importância ao cumprimento da religião: participação nos ritos de purificação do templo, orações na sinagoga, respeito pelas normas de pureza, prática dos mandamentos etc. Tudo isso compunha um universo religioso que gerava um peso insuportável nas consciências de muitos que não eram considerados fiéis a Deus e tidos como pecadores.

Neste contexto e contra o estabelecido, Jesus dizia: “Ide e aprendei o que significam estas palavras: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”. A misericórdia (e não somente as práticas devocionais e de sacrifícios) é a relação por excelência que nos assemelha a Deus.

A expressão latina “miserere” pode ser traduzida como “misericórdia” ou “compaixão”, e diz respeito à maneira como Deus se revela: compassivo e clemente, lento para a ira e rico em misericórdia e verdade (cf. Ex 34, 6-8). É um Deus que “não pede sacrifícios” (Salmo 50).

Às vezes, levamos uma vida sobrecarregada de insatisfação, amargura, inveja e avareza; não percebemos que caminhamos cansados e desumanizando todos os que encontramos ao nosso redor. A proposta de Jesus é muito clara: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas” (Mt 11, 28-29).

Jesus se aproximava diariamente dos que eram qualificados como pecadores e os abraçava, olhava, tocava, reconciliava-os consigo mesmos e com os outros, mostrando-lhes que era possível viver de outro jeito, pois Deus estava com eles sem pedir-lhes nada em troca, que Deus acolhia tanto o pecador como o justo, para reconciliá-los (Salmo 145. 146).

Mas advertia que os que se consideravam justos e oravam com a soberba de achar que conheciam Deus e de que eram mestres dos outros, sentindo-se já salvos e donos de Deus (Mt 3, 9), seriam precisamente os mais rejeitados pelo Senhor (Mc 12, 38-40).

Jesus nunca obrigou os outros a cumprirem os ritos e as práticas religiosas estabelecidas. O que atraía nele era precisamente sua maneira de entender o amor: carregar o outro, mas sem descarregar-se nele, sem desumanizá-lo. Jesus concebia o outro como um filho de Deus e como um irmão seu, a quem precisava devolver a alegria de viver.

Temos diante de nós o desafio de reconhecer que amar a Deus “de todo o coração, de todo o pensamento, de toda a alma e de todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, excede a todos os holocaustos e sacrifícios” (Mc 12, 32-34), porque quem vive da compaixão não está longe do Reino de Deus – ainda que possa estar longe da Igreja.

Somos capazes de viver a compaixão como o mais humano que pode brotar de nós mesmos, vivê-la com a mansidão e benignidade de Cristo (2 Cor 10, 1), entendendo que ter “os mesmos sentimentos de Cristo” (Flp 2, 5) já é dar os frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si (Gál 5, 22, 23)?

Se ainda não demos esses frutos, talvez seja porque estamos procurando o verdadeiro caminho de salvação que é a compaixão.

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