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Que livro o papa está lendo?

Pope Francis kisses the book of the gospels – pt

AFP PHOTO / FILIPPO MONTEFORTE

CITE DU VATICAN, Vatican City : Pope Francis kisses the book of the gospels as he leads a mass at St Peter's Basilica on January 1st, 2014 at the Vatican. AFP PHOTO / FILIPPO MONTEFORTE

Roberta Sciamplicotti - Aleteia Vaticano - publicado em 07/03/14

"Pedro e Madalena", de Damiano Marzotto, sobre a complementaridade dos dois sexos no anúncio da mensagem cristã

"A parceria na obra do Evangelho sempre reuniu homens e mulheres, comprometidos num esforço conjunto, apaixonado e contínuo, dentro da fidelidade ao Senhor". É assim que começa o livro que, em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, o papa contou que está lendo: “Pietro e Maddalena – Il Vangelo corre a due voci”, escrito por Damiano Marzotto.

Fazendo uma pesquisa analítica do Novo Testamento, o autor verifica que a dinâmica da salvação se realiza "através de uma sinergia do masculino e do feminino".

Os elementos comuns que caracterizam esta colaboração são essencialmente três: "a capacidade de acolhimento por parte da mulher, combinada com um ativismo maior por parte do homem", permitindo "um amadurecimento e um cuidado duradouro da mensagem"; "uma capacidade de antecipação por parte da mulher, que precede e prefigura comportamentos masculinos: as mulheres têm, inclusive, uma ação de provocação para com Jesus e os apóstolos, incentivando-os à ação de salvação"; "um impulso ao universal", que caracteriza as intervenções "muitas vezes antecipatórias" da mulher em relação com o homem.

É de se notar que esta parceria na obra da salvação destaca a condição virginal da mulher. Talvez como "sinal de pobreza, fragilidade, disponibilidade", esta condição parece particularmente adequada para "acolher a ação do Espírito, a Palavra que fecunda e, no momento de paixão, o corpo do Salvador".

Em suma, se, por um lado, “a mulher provoca, precede, acolhe, interioriza, assimila e aprofunda, permitindo um desenvolvimento mais amplo, mais universal da salvação”, o homem, por outro lado, “concretiza o que foi começado com gestos pontuais, práticos, de reabilitação, de misericórdia, de anúncio”.

A atividade do homem, portanto, requer um "contraponto feminino de interiorização, de impulso inicial e antecipador, de abertura sempre maior; sem isso, a atividade se torna mero ativismo, o ímpeto do Evangelho diminui, se enfraquece".

Além disso, mesmo na geração de Jesus, o Salvador, já se notava uma parceria entre uma mulher e um homem: "Maria tinha concebido pelo poder do Espírito Santo e dado à luz um filho, mas José, o filho de Davi, tinha que acolher Maria como sua esposa e dar ao bebê o nome de Jesus". O dom do alto veio primeiramente para uma mulher, mas esta graça teve de ser acolhida com a participação original de um homem para ser eficaz na história da salvação.

Esta cooperação pode ser vista simbolicamente na cena do sepulcro. "Maria Madalena e a outra Maria contemplaram o mistério da morte de Jesus e, de alguma forma, acolheram o Espírito; por isso, elas estão agora sentadas em frente ao sepulcro que, durante breve tempo, guarda o corpo de Jesus. Mas é José, um homem rico de Arimateia, um discípulo de Jesus, que, depois de ter recebido o corpo, o coloca no sepulcro novo. As mulheres contemplaram o dom do corpo de Cristo na cruz, mas é José quem cumpre fisicamente o convite de Jesus: ‘Tomai: este é o meu corpo’".

Ao relermos a figura de Jesus nos Evangelhos, explica Marzotto, ele aparece como a realização mais perfeita da imagem de Deus, mas a sua fecundidade não se realiza sem uma estreita associação de algumas mulheres ao mistério da redenção, da regeneração da humanidade. "Elas o serviram desde a Galileia, subiram com ele até Jerusalém, participaram da sua morte e do seu sepultamento e se tornaram assim as primeiras testemunhas da sua ressurreição. Isto sem mencionar todas as outras mulheres que Jesus encontrou no seu ministério e que o ajudaram a manifestar aspectos particulares do seu mistério de salvação".

O caminho universal da salvação se apresenta, assim, numa constante sinergia de masculino e feminino. Mais precisamente, a presença das mulheres parece "favorecer a abertura universal, tanto nos momentos iniciais, originários, de tomadas de decisão, quando é preciso acolher toda a força propulsora do Espírito, quanto também nos momentos do lançamento concreto, em que devem ser superados os pesos de esquematismos consolidados e das hostilidades relacionadas". As mulheres também parecem "particularmente capazes de antecipar os desdobramentos da salvação e de se tornar suas anunciadoras privilegiadas", apresentando-se ainda "como referências de acolhimento, de hospitalidade, proporcionando ao caminho do êxodo uma morada, a prefiguração do reino, do lugar da liberdade e do universalismo".


Tudo isso ainda é verdade hoje, embora "haja a este respeito algumas interrogações, alguns problemas não completamente resolvidos".

Em primeiro lugar, aponta o autor, é de se lamentar "uma insuficiente visibilidade da presença da mulher na Igreja e na evangelização". Quando se tenta dar substância a uma presença mais qualificada das mulheres, “nem sempre se vê com clareza se é somente uma redistribuição de uma série de papéis tradicionalmente atribuídos aos homens ou se realmente se pode abrir espaço para uma originalidade feminina que enriqueça toda a Igreja e o mundo".

De parte dos homens, "nem sempre há uma clara consciência da vocação singular da mulher, em particular dentro da Igreja". Muitas vezes, a mulher é considerada apenas uma figura secundária, "mais facilmente disponível para funções humildes", e "não se reconhecem os singulares valores evangélicos e de enriquecimento para a Igreja e para a sociedade dos quais ela é portadora".

A mensagem é clara: para a evangelização e, em geral, para a vida da Igreja, uma colaboração maior entre homens e mulheres não é apenas desejável, mas necessária. O importante é saber como realizá-la.

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