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“O Filho de Deus”: será que os cristãos não conseguem fazer filmes melhores do que este?

Lighthouse Media

David Ives - publicado em 08/03/14

Produção derivada da série de TV “A Bíblia” não apresenta escorregões teológicos, mas fica artisticamente aquém de uma epifania

Não demorou muito, depois da invenção das câmeras de cinema na década de 1890, para começarem a surgir curtas-metragens baseados nas histórias da Bíblia. Em grande parte, eram encenações teatrais da Paixão de Cristo. Quando os filmes de longa-metragem chegaram aos cinemas, vieram logo atrás os grandes dramas bíblicos. “Sansão e Dalila”, de 1903, foi o primeiro de mais de 50 filmes mudos a levar as Escrituras para as telas. Em 1929, com “A Arca de Noé”, o gênero lançou o seu primeiro filme falado. E com ele, os filmes bíblicos chegaram para ficar: centenas de produções baseadas na Sagrada Escritura foram surgindo ao longo do século seguinte.

Afinal, por que não? Com mais de 2,2 bilhões de cristãos e 14 milhões de judeus no mundo, existe um belo potencial de compradores de ingressos para esse tipo de filme. Diante desses números, seria fácil reduzir a mais recente incursão no gênero, “Son of God” [“O Filho de Deus”], do diretor Christopher Spencer, a mais uma espécie de produção caça-dinheiro. O filme é uma ideia do casal Mark Burnett, produtor, e Roma Downey, atriz, e é composto basicamente por imagens da minissérie de televisão “The Bible” [“A Bíblia”], de 2013, um megassucesso internacional que também foi produzido pelo casal. Tudo o que eles fizeram foi pegar boa parte dos episódios da série que tratavam da vida de Jesus, reeditá-los, adicionar algumas cenas novas e lançar o produto final nas salas de cinema, justo a tempo da Quaresma.

O caso é que muitas pessoas, eu entre elas, não assistiram à minissérie na televisão. Aliás, eu sou um desses telespectadores, na moda hoje em dia, que assistem a produções completas só depois de meses, ou até anos, da transmissão original. Para mim, portanto, “O Filho de Deus” é um filme novo, o mais recente da longa lista de épicos bíblicos de Hollywood.
E como é que este filme se sai em comparação com seus nobres antecessores?

Bom… Ao contrário de filmes como “A Última Tentação de Cristo”, “O Filho de Deus” não acrescenta nada de novo nem elimina nada de doutrinalmente importante da história de Jesus. Você não vai ver nenhum Cristo não-divino perambulando em angústia existencial por este filme. A produção começa com uma espécie de prólogo, uma compilação de cenas do Antigo Testamento que envolvem heróis como Abraão, Noé e Davi. Ouvimos a voz do apóstolo João explicando que a segunda pessoa da Trindade esteve presente em todos aqueles eventos. É uma (muito) breve introdução à tipologia cristã, uma pista de que não haverá brincadeiras com a teologia geralmente aceita.

O desejo de evitar excessos que não aparecem nas Escrituras significa que não há lugar para adições dramáticas como o tórrido relacionamento entre Moisés e Nefertiti em “Os Dez Mandamentos”, ou as maquinações sinistras de Satanás em “A Paixão de Cristo”. Curiosamente, porém, parece que a minissérie televisiva continha cenas envolvendo o diabo, mas, depois de polêmicas secundárias sobre a suposta semelhança de Belzebu com o presidente Barack Obama, os cineastas decidiram cortar essa parte da versão para os cinemas.

Por outro lado, a falta de aspectos não bíblicos ajuda “O Filho de Deus” a evitar controvérsias com os cristãos, que poderão usar pedaços do filme com segurança em suas aulas de formação na fé.

Há, mesmo assim, certos floreios não bíblicos de menor importância, mas eles serão de particular interesse para os católicos (o que, comercialmente, não é uma decisão ruim por parte dos cineastas, já que pelo menos 50% de todos os cristãos do mundo pertencem à Igreja católica). Em uma das cenas, por exemplo, Maria corre até Jesus quando ele cai sob a cruz a caminho do Calvário. Trata-se da quarta estação da via-crúcis. Depois de ser tranquilizada pelo Filho, que diz que tudo o que está acontecendo é vontade de Deus e é necessário para o bem de todos, Maria inclina a cabeça em aceitação e ajuda a reerguer a cruz para que o Filho prossiga. Os fãs de Maria provavelmente vão gostar e pensar: "Ela deve mesmo ter feito isso". Mais surpreendente é uma cena que acontece depois que Maria Madalena leva Pedro até o sepulcro vazio. Sem conseguir convencer os companheiros apóstolos de que Jesus ressuscitou, Pedro pede pão e vinho e dá a eles a comunhão. Só depois de comungarem é que Jesus aparece no meio deles. É quase como se o filme dissesse: “A fim de ver Jesus? Então, ‘tomai e comei todos vós’”. É um momento católico na tela, o que se torna particularmente interessante quando se sabe que os produtores do filme são protestantes.

Infelizmente, porém, também existem coisas menos surpreendentes no filme. O nível de produção, no geral, é bom, mas é aquele “bom” próprio da televisão. E o que é aceitável na telinha já não parece tão bom assim no telão. A antiga Jerusalém, reconstruída digitalmente, lembra bem menos uma coisa de cinema do que uma coisa do History Channel, por exemplo. Filmes de orçamento semelhante, como “One Night With The King” [“Conquista de Reis”], de 2006, conseguem melhores resultados que “O Filho de Deus”, simplesmente por já terem sido feitos para o cinema. Não que isto seja um grande problema, mas acaba distraindo.

O filme também não tem, emocionalmente, o impacto desejável. Se você comparar a cena de Maria e Jesus, mencionada acima, com a cena similar em “A Paixão de Cristo”, vai entender na hora o que eu quero dizer. A abordagem do episódio em “O Filho de Deus” é boa, louvável até, mas passa longe do peso emocional devastador que a versão de Mel Gibson deu àquela cena. É quase impossível para qualquer pai ou mãe assistir àquele momento de “A Paixão de Cristo” sem ter de engolir um soluço. Não acontece o mesmo em “O Filho de Deus”. A culpa não é dos atores. Roma Downey é aceitável como Maria, embora ela não tenha muito a fazer no filme além de chorar, e o ator português Diogo Morgado é bom como Jesus, embora pareça estranhamente confuso algumas vezes. O problema é que Christopher Spencer e sua equipe, todos veteranos de documentários para a televisão, não se mostram capazes de dar vida ao material produzido. Fiel às suas raízes, o filme que veio da televisão parece mesmo mais confortável ao lado de outros produtos do History Channel, canal em que, aliás, foi exibido originalmente nos Estados Unidos.

“O Filho de Deus”, em suma, não é nenhum triunfo artístico, mas, ainda assim, é uma sólida releitura da vida de Cristo desde o seu nascimento até a sua ascensão. A trama é fiel às fontes bíblicas. Considerando-se que esta temporada nos oferece outras produções mais fantasiosas inspiradas na Bíblia (como “Noé”, de Darren Aronofsky, e “Êxodo”, de Ridley Scott), esta fidelidade já granjeia para “O Filho de Deus” alguma boa vontade. Pode ser que o filme nunca venha a fazer parte da lista de recomendações do Vaticano, mas ele merece menção pelo menos até que algo de melhor apareça. E, dada a longa trajetória de Hollywood em produzir filmes baseados na Bíblia, algo melhor certamente virá.

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ArteBíbliaCinema
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