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Atualidade

Construindo a civilização do amor

Emilio Dellepiane

Mark Gordon - Aleteia Vaticano - publicado em 15/03/14

O experimento liberal já pode ser declarado morto?

Uma das ironias de ser católico nos Estados Unidos é que, quando o Estado liberal está começando a demonstrar o insustentável relativismo filosófico e moral que está incrustado em sua própria essência, os católicos fiéis que desejam denunciar este fato são criticados, às vezes com termos ácidos, pelos católicos liberais que preferem fingir que as coisas estão correndo muito bem na República norte-americana.

Pior ainda: quando os católicos críticos do Estado liberal apresentam os ensinamentos e a experiência da Igreja como perspectiva de análise e possível fonte de visões alternativas sobre a pólis, a própria Igreja é atacada por esses mesmos liberais, como na fórmula recentemente cunhada que diz que "catolicismo menos Iluminismo é igual à Inquisição".

Este fenômeno prova a verdade da observação de Alasdair MacIntyre: "Os debates contemporâneos dentro dos sistemas políticos modernos são quase exclusivamente entre liberais conservadores, liberais liberais e liberais radicais. Há pouco espaço, em tais sistemas, para a crítica do sistema em si, ou seja, para questionar o próprio liberalismo". De fato, quando se critica o Estado liberal, levanta-se todo tipo de réplica, incluindo hinos à virtude dos Fundadores da Pátria [no caso dos EUA]. Raramente os defensores do castelo liberal permitirão que a batalha seja travada do seu lado do fosso, mesmo quando os seus soldados já barraram o portão e estão ocupados alçando a ponte levadiça.

Um amigo meu observou, certa vez, que os ateus brasileiros têm mais sensibilidade católica do que a maioria dos fiéis católicos norte-americanos. Eu acho que isso é verdade e se deve aos dois séculos em que a Igreja nos EUA tem sido mergulhada no ácido do relativismo, do materialismo e do secularismo. O Estado liberal tem optado por jogar uma partida longa, permitindo a liberdade religiosa, o que é uma coisa boa, mas, ao mesmo tempo, estruturando os termos dessa liberdade religiosa de tal maneira que, na passagem das gerações, a fé se torne tão debilitada que passe a não ter mais importância. É o que estamos vivendo hoje. E é por isso que a defesa de mais liberalismo, ou seja, de uma aplicação mais abrangente dos princípios liberais, como forma de frear as agressões do Estado liberal é mais ou menos como receitar uma dose extra de sobremesa como tratamento para a obesidade.

Em seu livro “Subversive Ortodoxy” [Ortodoxia subversiva], o professor Robert Inchausti, do CalTech, relata um discurso do economista E. F. Schumacher, autor do já clássico “Small is Beautiful: Economics As If People Mattered” [A beleza das pequenas coisas: economia como se as pessoas importassem]:

"Em um pronunciamento de 1957, intitulado ‘A insuficiência do liberalismo’, Schumacher argumentou que havia três estágios no desenvolvimento humano: o primeiro foi a religiosidade primitiva; o segundo foi o realismo científico. O terceiro, em que estamos entrando, é a percepção de que existe algo além do factual e do científico. O problema, explicou ele, é que o primeiro e o terceiro estágio parecem a mesma coisa para quem está no segundo estágio. Consequentemente, quem está no terceiro estágio é visto como alguém que recaiu no pensamento mágico, quando, em realidade, está enxergando as limitações do racionalismo. ‘Só quem já passou pelo estágio dois’, argumenta ele, ‘pode entender a diferença entre os estágios um e três’”.

Pois bem, este é o contexto do debate: será que quem está no segundo estágio pode se libertar das lealdades partidárias, ideológicas e nacionalistas que o prendem e enfrentar honestamente as contradições inerentes ao Estado

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