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A morte das ciências humanas vai matar também as exatas

Cesar Ojeda

James Banks - Aleteia Vaticano - publicado em 18/03/14

É crucial reconhecer que as descobertas nascem da curiosidade

A ciência está matando as humanidades: eu não sou o primeiro a afirmar isto, nem serei o último. Os líderes norte-americanos estão apressando essa morte, seja por causa das suas prioridades, seja por causa das suas opções políticas. Enquanto muitos estudiosos provavelmente vão lamentar o fim das humanidades, outros já começaram a aceitar estoicamente a ideia de que não vale a pena tentar salvar as ciências humanas.

John Ellis escreve sobre este declínio:

"Os cursos que oferecem uma visão geral das realizações da cultura ocidental foram abolidos em quase todos os lugares; os cursos obrigatórios sobre a história e sobre as instituições desta nação também foram deixados de lado e até as faculdades de literatura deixaram de exigir Shakespeare como parte essencial da literatura inglesa. Mesmo quando cursos anteriormente obrigatórios ainda são oferecidos como opcionais, costuma-se apresentá-los a partir de uma perspectiva preconceituosa do nosso passado cultural, o que tende a desencorajar estudos mais aprofundados".

Ellis identifica uma tendência real, embora não muito inteligível: ler Shakespeare pode até deixar de ser exigido, mas quem se formar em literatura inglesa sem ter lido Shakespeare deverá ter realizado uma tarefa hercúlea para se desviar de Hamlet, Otelo ou Macbeth.

No entanto, mesmo que as faculdades de ciências humanas, em seu estado atual, não desapareçam, Ellis não responde se as ciências humanas, tais como devem ser ensinadas, ainda valem a pena. Ele pode não ter uma resposta, mas eu gostaria de declarar um sonoro "sim". Hoje nós podemos assistir às ciências matando as humanidades, mas amanhã vamos perceber que a morte das humanidades vai matar também as ciências.

Alguns anos atrás, em uma conferência sobre a chamada “educação STEM” (ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês), especialistas dentre os mais importante dos EUA se reuniram para lamentar que estávamos todos “condenados”, porque "não havia alunos suficientes interessados em ciências". Alguns dos palestrantes tinham credenciais impressionantes: um dos oradores era Dean Kamen, o inventor do Segway; outro era Bill Nye, o “Science Guy”.

Eu participei de grupos de discussões específicas naquele evento e tive a sensação de que os professores de ciências nos EUA estavam estranhamente desconectados da maneira como as pessoas vivem e pensam. A maioria das recomendações que eles traziam soava banal: "Precisamos mudar a imagem cultural que as pessoas têm do cientista nerd", repetiam.

Mas, de forma mais ampla, o problema com esses eventos é o seu objetivo, que, basicamente, é o de ajudar a encontrar substitutos para os atuais trabalhadores dos ramos de exatas. Enquanto eles se lamentavam porque "os jovens norte-americanos não estão interessados nos trabalhos científicos que nós temos para eles", eu não podia deixar de me lembrar de uma passagem do livro “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, para a qual William Deresiewicz tinha chamado a minha atenção em certa ocasião:

"Ele estava empregado nisso desde a mocidade. Era obedecido, mas não inspirava nem amor, nem medo; nem mesmo respeito. Ele inspirava mal-estar. Isso, apenas mal-estar. Não era uma desconfiança definida; apenas mal-estar, nada mais. Você não tem ideia do quanto pode ser eficaz uma… uma… capacidade desse tipo. Ele não tinha nenhum grande talento para organizar, nem para tomar a iniciativa, nem sequer para comandar… Ele não tinha nenhum conhecimento, nem inteligência. Seu cargo tinha chegado até ele. Por quê? Ele não originava nada, ele apenas mantinha a rotina; só isso. Mas ele impressionava. Ele impressionava graças a essa pequena coisa, essa impossibilidade dizer o que controlava um homem daqueles. Ele nunca revelou esse segredo".

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Tags:
CiênciaEducaçãoFilosofiaVirtudes
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