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A morte das ciências humanas vai matar também as exatas

Cesar Ojeda

James Banks - Aleteia Vaticano - publicado em 18/03/14


Como Deresiewicz aponta, esta é a descrição perfeita da burocracia: ela está cheia de gente que mantém o status quo, mas não de gente que define qual é o status quo. Isso não quer dizer que as pessoas presentes na conferência fossem todas burocratas; algumas delas eram empreendedoras, realizadas; e tinham que ser, para terem chegado até a posição que ocupavam. Mas elas queriam, essencialmente, treinar a próxima geração para ocupar papéis precisos e para ter o preciso conhecimento que elas próprias tinham.

Não é assim que o mundo funciona. Os problemas de amanhã são sempre diferentes dos problemas de hoje. As soluções que funcionam hoje não vão responder a todas as questões que surgirão na próxima década. Adaptar-se ao amanhã só é possível a partir do próprio ato de se viver em sociedade. E isto é assim porque aquele adágio surrado que diz que "a necessidade é a mãe da invenção" é pura verdade: quanto mais as pessoas precisarem (ou pensarem que precisam), mais elas vão inventar.

Há uma abundância de sociedades que têm ou tiveram sistemas educacionais dedicados quase exclusivamente à formação de estudantes de ciências e de engenharia. A China faz isso hoje, assim como a União Soviética o fez em seu tempo. Mas, apesar de estar na moda declamar que a escassez de habilidades em matemática e ciências põe o nosso futuro em risco, este medo não se mostrou matematicamente verdadeiro no passado. O Japão é bem posicionado nos rankings de desempenho acadêmico, mas o seu desempenho econômico não tem refletido este sucesso.

Educadores e tecnocratas acreditam, erroneamente, que já sabemos ou já pensamos em tudo de que precisamos para o próximo boom econômico ou para a próxima revolução científica. Tudo seria apenas questão de dar à próxima geração as respostas que nós já temos. Acontece, porém, que é menos importante treinar as pessoas para chegarem à próxima fronteira do que educá-las para discernirem quais são as fronteiras que vale a pena cruzar. Teoricamente, é para isso que existe a educação nas artes liberais. Na prática, isso nem sempre é verdade: as faculdades de humanas tenderam de tal forma ao pensamento de grupo na geração passada que provavelmente não melhoraram as habilidades de pensamento crítico dos alunos nem a sua criatividade.

Mesmo que as artes liberais já não sirvam ao seu propósito tradicional, no entanto, isso não significa que esse objetivo não seja valioso. O valor principal de uma educação em artes liberais é que ela incentiva o debate e a discordância. Diferentemente da matemática, é raro que haja nas artes liberais uma resposta claramente correta. Algumas declarações sobre arte ou literatura são mais verdadeiras do que outras, mas nunca há uma perspectiva que possa servir indefinidamente. Isto ocorre porque o "melhor que já foi pensado e dito" foi mudando ao longo do tempo; mais ainda: o mundo foi mudando. O “Édipo Rei”, de Sófocles, ou o “Frankenstein”, de Mary Shelley, não podem nos dizer definitivamente o que devemos pensar sobre o cientificismo ou sobre o pós-humanismo, mas nos forçam a enfrentar os cantos mais escuros do iluminismo para os quais relutamos em voltar os olhos.

As ciências humanas, entretanto, podem fazer mais do que nos ajudar a entender o que não deveríamos estar fazendo: elas podem nos ajudar a contemplar o que deveríamos fazer. Podemos estar bem longe do mundo clássico que separava as artes liberais (artes liberales) das artes técnicas (artes serviles), mas as artes liberais ainda são indispensáveis porque fomentam a curiosidade intelectual e o desejo de aprender pelo prazer de aprender. As ciências também podem fazer isso: alguns cientistas atingem marcos importantes mesmo sem a capacidade de pensar criativamente. Mas os professores de ciências nem sempre entendem as implicações do campo em que querem educar: se eles acreditam que podem fornecer toda a educação de que as pessoas precisam para o futuro, eles já falharam. As ideias não são um instrumento para o futuro, mas são, em si mesmas, objetivos dignos de busca.

As iniciativas educacionais geralmente focam no currículo, mas promover a curiosidade intelectual não é algo facilmente descritível num currículo. Essa tarefa depende da cultura da escola e dos valores dos alunos e dos instrutores. De qualquer forma, nenhum educador deveria começar a elaborar uma política educacional sem reconhecer que a próxima revolução tecnológica não virá de pessoas que sempre têm a resposta certa, mas de pessoas cuja aprendizagem as dotou de curiosidade intelectual suficiente para se sentirem à vontade mesmo quando obtêm a resposta errada.

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Tags:
CiênciaEducaçãoFilosofiaVirtudes
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