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O verdadeiro drama da série de TV “True Detective”

The True Drama of True Detective HBO – pt

HBO

Matthew Becklo - Aleteia Vaticano - publicado em 19/03/14

A escuridão existe em todos nós, mesmo que não gostemos de admitir

Na série policial filosófica da HBO, "True Detective", Rust Cohle (Matthew McConaughey) passa boa parte do tempo contemplando um mundo em que só existe o material, mas acaba se entretendo, frequentemente, com questões mais “místicas”, como a ideia do “eterno retorno”, de Nietzsche ("Me disseram que o tempo é um círculo plano", murmura ele. "Tudo o que já fizemos ou faremos nós vamos fazer de novo, e de novo, e de novo…").

E entra em jogo também o cristianismo. Cohle se vê sempre às voltas com o materialismo, mas está disposto e é capaz de esmiuçar "a ilusão de Deus" que ele observa no Estado da Louisiana. Políticos obscuros, pregadores excêntricos e fiéis neuróticos parecem confirmar a intuição de Cohle: a religião só torna um lugar ruim pior ainda.

"A falácia ontológica de esperar uma luz no fim do túnel", começa ele, acompanhado de uma cerveja Lone Star e da fumaça do cigarro. "É isso que o pregador vende. A mesma coisa que o psiquiatra. O pregador incentiva a capacidade de ilusão da pessoa e depois diz que é uma virtude. Sempre tem um dinheirinho nisso. E uma impressão tão desesperada de que se tem direito… ‘Tudo isso é para mim’".

Então ele levanta os olhos para o céu, zombando daquilo que chama de egocentrismo do pensamento religioso: "Eu… eu… me… me… Eu sou tão importante!".

Matthew McConaughey, o ator que deu vida a esse personagem, fez um discurso no Oscar, no início deste mês, que soou diferente:

"Primeiro, eu quero agradecer a Deus, porque é para Ele que eu olho em primeiro lugar. Ele embelezou a minha vida com oportunidades que eu sei que não surgiram de mim nem de mão humana nenhuma. Ele me mostrou, como um fato científico, que a gratidão é retribuidora. Nas palavras do falecido Charlie Lawton: ‘Se você tem Deus, você tem um amigo’".

Como o personagem Cohle reagiria se estivesse nos bastidores esperando pelo seu intérprete McConaughey?

Nem precisamos imaginar. Num artigo intitulado "Para que colocar Deus no meio disso, Matthew McConaughey?", o jornalista Sam de Brito, no diário australiano Sydney Morning Herald, canaliza perfeitamente a atitude que seria de se esperar de Cohle:

"Foi como se eu descobrisse que um grande amigo vê fantasmas… Isso cai bem no contexto cristão, que fala de um Deus onisciente, todo poderoso e todo amoroso, que escuta o minúsculo canal das orações individuais (…)  [Mas não esperamos] ouvir tal absurdo proferido por uma estrela de cinema".

O verdadeiro drama de "True Detective", de certa forma, é justamente a jornada de Cohle rumo à luz da fé, a partir da escuridão do cinismo.

No terceiro episódio, começamos a ver o quanto este materialista professo critica a fé. Ele zomba de um pregador itinerante que dá um longo e apaixonado sermão, murmurando baixinho sobre o QI da multidão e o mercantilismo grosseiro daquele tipo de serviço. Mas, num clipe estendido postado na web, podemos ouvir o sermão na íntegra:

O espírito de Flannery O’Connor está em toda parte em "True Detective", particularmente nesta cena. A novelista católica sempre insistiu no papel da graça em suas histórias sobre fundamentalistas bíblicos e pregadores de rua niilistas. "A natureza humana resiste vigorosamente à graça", disse ela em certa ocasião, "porque a graça nos muda e a mudança é dolorosa".

Cohle, assombrado pelo seu passado fragmentado e pelo caso perturbador que tem nas mãos, está muito longe do conteúdo do sermão. Será por causa do dualismo febril do pregador? Dos olhares crédulos da multidão? Da desconfiança de que existem potenciais suspeitos ao seu redor? Ou, no fundo, será por causa do seu próprio coração ferido?


Raios da graça se escondem naquelas palavras, que ameaçam arrebatá-lo das suas trevas:

"Você é um estranho para si mesmo, e, mesmo assim, ele conhece você… Como é que eu posso conhecer a tristeza? O desespero? Será que a chuva conhece a dor? A grama e as montanhas, as montanhas tão bonitas, será que elas conhecem o desespero? Esse não é o território dele, e por isso nem é o nosso propósito. Esteja nele, seja dele e, então, conheça a paz. Esse é o presente dele para nós. O nosso direito de primogenitura. No fim, nós vamos nos encontrar no início… E finalmente vamos conhecer a nós mesmos, e os nossos verdadeiros rostos vão chorar diante da luz dele. E essas lágrimas vão ser como uma garoa reconfortante. Amém".

Mas Cohle resiste, convencido de que ele e o pregador não são ninguém, que a charada da vida humana não significa nada. "Toda a sua vida, todo o seu amor, todo o seu ódio, toda a sua memória, toda a sua dor. Era tudo a mesma coisa. Era tudo o mesmo sonho. Um sonho que você teve dentro de uma sala trancada. O sonho de ser uma pessoa".

Ironicamente, porém, quanto mais Cohle confronta os fragmentos fugazes da vida humana em suas investigações de assassinatos, mais ele se encontra vadeando as mesmas águas que os fiéis. Visto da eternidade, "tudo é vaidade"; e quanto mais Cohle sabe disso, mais o anseio de plenitude sobrenatural o pressiona, até que, em uma cena muito intensa, uma idosa senhora que sofre de demência canta sobre a morte e sobre a vida eterna durante uma das suas entrevistas. Cohle se incomoda. "É claro que eu espero que aquela velha esteja errada", confessa ele depois, "quanto à ideia de que a morte não é o fim de tudo".

Vamos vendo os muros da dúvida de Cohle desmoronando. Mas só no episódio final, quando ele confronta o coração das trevas, a encarnação do pecado e o vazio da morte, é que a graça abre o seu coração de par em par.

"Teve um momento, quando eu estava no escuro, que alguma coisa… Eu tinha sido reduzido, nem sequer a uma consciência, só a uma vaga percepção na escuridão. Eu sentia as minhas clarezas sumindo. E por baixo daquela escuridão tinha outro tipo… Era mais profundo; quente, como uma substância. Eu me sentia humano. Eu sabia, eu sabia que a minha filha esperava por mim, lá. Era muito claro. Eu podia senti-la. Eu sentia a paz da minha Pop, também. Era como se eu fizesse parte de tudo o que eu já amava, e estávamos todos lá, nós três, apenas desaparecendo. E tudo que eu tinha a fazer era deixar tudo acontecer. E eu deixei. Eu disse ‘escuridão, mesmo’, e desapareci. Mas eu ainda sentia o amor dela. Mais ainda do que antes. Nada, nada mais do que amor. E aí eu acordei".

Após isto, eu digo amém.

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