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Mortificação: uma prática da Idade Média hoje superada?

Fr Lawrence Lew OP
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Até um passado não muito distante, a mortificação era vista como prática necessária para dominar o corpo, considerado a fonte dos pecados. Mas será que a mortificação é algo superado e desnecessário ao desenvolvimento da vida cristã?

Para se realizar objetivos, independentemente da motivação originária, é indispensável o esforço pessoal, uma vida pautada pela disciplina. A mortificação, em sentido amplo, é isso: luta de morte a tudo aquilo que obstrui a obtenção de um ideal, que atrapalha a consecução de uma meta. Por essa razão a mortificação é parte integrante da educação humana.

A mortificação é uma dimensão da ascese. O termo ascese tem origem na cultura grega e significa exercício realizado com esforço e método. Para os gregos, ascese indicava qualquer exercício físico, intelectual, moral e religioso, realizado com método e disciplina, tendo como objetivo o progresso constante. Todavia, no âmbito cristão, a ascese, especialmente na Idade Média, ficou marcada por aspectos negativos.

Para os gregos, eram dimensões da ascese, por exemplo, o soldado que se exercitava no uso das armas, o filósofo na meditação, o sábio no exercício das virtudes, e o religioso na contemplação de Deus.

Ascese não era um termo com conotação negativa. Pelo contrário, ela era compreendida como algo necessário ao desenvolvimento humano, pois estimulava e consolidava a disciplina imprescindível à conquista de um objetivo.

Mas em sua assimilação pela cultura cristã, sofrendo influências de correntes de pensamento pessimistas e dualistas – dicotomia alma-corpo –, a ascese ficou marcada preferencialmente pela dimensão abnegativa.

Por várias gerações de cristãos, a mortificação foi interpretada como morte literal ao corpo, considerado a fonte dos pecados. O corpo era visto como a sede das paixões, a parte inferior do homem, em contínua oposição à parte superior, a alma.

A Idade Média foi o período das mais duras asceses corporais. Apesar da influência de Santo Agostinho (354-430) – sendo a ascese definida como esforço para crescer na capacidade de amar – e de São Bento (480-547) – ênfase na humildade –, a espiritualidade ocidental, nesse período, em grande parte acabou aderindo à prática de sacrifícios físicos.

Formas de penitência corporal como a “disciplina” (autoflagelação voluntária) foram aperfeiçoadas. Pelo fim da Idade Média, a “disciplina” cotidiana foi levada ao fanatismo pelos “flagelantes”, causando descrédito à ascese cristã.

Os “flagelantes” eram os membros de movimentos e confrarias medievais que praticavam a penitência com flagelações públicas. Esse movimento teve seu ponto alto na segunda metade do século XIII. Esses grupos de pessoas percorriam cidades e campos flagelando-se a si mesmos ou uns aos outros enquanto rezavam.

Hoje tais práticas são rejeitadas, pois são frutos de uma mentalidade religiosa que não é mais aceita, devido ao seu grande pessimismo antropológico. Mas isso não significa que a mortificação, em seu verdadeiro sentido, seja algo superado e desnecessário ao desenvolvimento da vida cristã.

O batismo, sacramento pelo qual os cristãos são regenerados como filhos de Deus, é a verdadeira fonte da mortificação cristã. Assim, mortificar não significa dar morte ao corpo, mas sim ao pecado. É ter uma vida disciplinada para não desperdiçar a graça de Deus.

O termo “mortificação” tem sua origem no texto bíblico da Carta aos Colossenses, capítulo 3, versículo 5. Logo no início desta passagem, o autor conjuga o verbo “mortificar”, que significa literalmente “mortificai-vos”, ou seja, “dai morte”, “fazei morrer”.

Este verbo está inserido no contexto integral da passagem bíblica, que retoma o tema da morte do “homem velho”, trabalhado por São Paulo no capítulo 6 (versículos 1 a 11), da Carta aos Romanos.

Deste modo, o verbo “mortificar” assume a significação de morte a uma existência pecaminosa. Portanto, o termo mortificação significa morte ao pecado, ao “homem velho”.

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