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Economia católica: a história distorcida do capitalismo (parte 1)

Luiz Fernando Reis
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Desmascarando o mito conservador

Este é o primeiro de quatro artigos sobre a economia e a doutrina social da Igreja, que publicarei em Aleteia.

Will Durant escreveu a famosa série “Story of Civilization” [História da Civilização] em 11 volumes que somam fabulosas 9.766 páginas. No primeiro volume, com humor característico, ele admite que “a maior parte da história é adivinhação e o resto é preconceito”. Mark Twain concordou, dizendo que “a própria tinta com que toda a história é escrita é puro preconceito líquido”. E Voltaire dizia que os historiadores eram apenas “fofoqueiros que provocam os mortos”.

A história é escrita em grande parte com o objetivo de “arranjar sentido” para o que veio antes de nós. Segue-se disto, naturalmente, que ela vai conter os preconceitos da cultura que a escreveu. A história é escrita pelos “vencedores”, e, normalmente, acaba sendo lisonjeira para com seus “autores”.

É por isso que a história da Reforma, até recentemente, exagerava grosseiramente ao narrar a perseguição católica contra os reformadores, omitindo, ao mesmo tempo, grande parte da perseguição dos reformadores contra os católicos, para não mencionar as perseguições entre as facções opostas dos próprios protestantes. Calvino, por exemplo, não hesitou em queimar um colega reformador que não era “suficientemente calvinista”.

Para ficarmos mais perto de casa, imagine como seria a nossa narrativa da história americana a partir da perspectiva dos índios.

Mas a questão aqui não é se um grupo em particular é mais sinistro ou menos sinistro do que outro; também não estou dizendo que a injustiça é desculpável porque todo mundo a comete. A questão aqui não é moral, mas cultural: estamos falando de como nós nos explicamos para nós mesmos. No rescaldo de uma guerra, inevitavelmente ficamos com a narrativa que nos apresenta os vitoriosos como heróis e os derrotados como vilões.

Mel Gibson, no início do filme “Coração Valente”, diz que “a história é escrita por aqueles que enforcaram os heróis”. No caso da nossa noção contemporânea de história, ela foi escrita, pelo menos em parte, por aqueles que enforcaram padres, índios, etc. Estes exemplos vêm da nossa história religiosa e nacional, mas a nossa história econômica não é diferente: a verdade é que o relato convencional da história do capitalismo é absurdamente tendencioso, se não completamente mitológico.

Esse relato diz mais ou menos assim:

“O capitalismo é o herói salvador da civilização; nós temos a melhor teoria econômica já inventada, que nos resgatou da poeira da Idade Média para inaugurar a era da tecnologia e proporcionar ao homem um grau sem precedentes de bem-estar, liberdade e conforto, tornando a vida melhor, no geral, em todos os lugares. Depois, prossegue o relato, apareceu um propagandista radical chamado Karl Marx. Um idealista utópico, que surgiu na calada da noite para semear a discórdia no campo florescente da pureza capitalista e a quem não conseguimos mais erradicar completamente até hoje. Sua doutrina principal era a abolição da propriedade por meio do controle estatal dos meios de produção. Felizmente, Karl Marx foi derrotado pelo seu próprio sucesso: as nações que acolheram a sua ideologia se tornaram exemplos assustadores de fracasso para o resto do mundo, provando, de uma vez por todas, que o capitalismo é O Caminho”.

Sobre este relato confortável, deve recair imediatamente a suspeita de autopropaganda. Ideias como o socialismo, afinal de contas, não germinariam a menos que muita gente estivesse gravemente insatisfeita com as condições existentes. As massas só lutariam para abolir a propriedade privada se elas já não possuíssem propriedade alguma. E, se realmente examinarmos o desenvolvimento do capitalismo, veremos que foi exatamente isto o que ele causou, em geral, aos homens e às suas famílias: ele se tornou uma doença que condenou os homens, suas esposas e seus filhos ao papel de empregados em troca de tostões – e em troca da vida.

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