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Sub-humanismo: a nova filosofia do Ocidente

Harald Groven

Jason Jones e John Zmirak - publicado em 12/04/14

Como chegamos ao atual estado lastimável do mundo laico?

Aqui vai uma verdade que dói: a maioria dos homens e mulheres ocidentais, incluindo muitos que se consideram religiosos, trata os seres humanos como sub-humanos.

Eles aceitam, sem reflexão, teorias sobre a vida humana que nos reduzem a animais pouco inteligentes ou que nos deixam brincar de ser deuses. Essas teorias tiram todo o sentido do sofrimento e nos treinam para viver como covardes. Essas teorias nos ensinam a desprezar os fracos, ao mesmo tempo em que nos treinam nos hábitos da preguiça e do menor esforço. Essas teorias falam a língua do progresso, mas incentivam os instintos humanos mais rasteiros. Essas teorias proclamam ter superado a ética judaico-cristã, mas desmoronaram para baixo do padrão da maioria das culturas pagãs ou animistas. Este complexo de visões truncadas, grosseiras e desesperadas da dignidade humana merece um nome: já que a imagem do homem apresentada por essas ideologias modernas é claramente anti-heroica e conscientemente despojada de qualquer pretensão de importância, o único termo adequado para ela é “sub-humanismo”.

O sub-humanismo é uma cópia degradada e pálida do homem valente afirmado no Renascimento. A sua imagem do homem não tem a racionalidade confiante que inspirou o Iluminismo. A sua imagem do homem renuncia aos sonhos de transcendência pessoal e de comunhão com a natureza que inebriou os românticos. Quando falamos em humanidade, hoje, pensamos em estrago ecológico, em excesso de população e em ódios intratáveis. Os ecologistas nos ensinaram a ver a nós mesmos como uma praga que infestou o planeta. E, ainda assim, de alguma forma e de algum lugar, ouvimos dizer que temos um conjunto de coisas chamadas “direitos humanos”, que seriam elásticos o suficiente para incluir o direito dos transexuais à cirurgia de mudança de sexo patrocinada pelos nossos bolsos, mas não necessariamente o direito dos pacientes terminais à comida e à água.

Como foi que chegamos a este ponto?

Simplificando cruamente, chegamos a este ponto porque tentamos um projeto humanista de compreensão e edificação da vida humana e, nesse processo, identificamos Deus como um obstáculo e mesmo como um inimigo. Por isso, tentamos arrancá-lo de cena, para criar sistemas que preservassem todas as coisas boas que damos por óbvias na sociedade ocidental e, ao mesmo tempo, extirpassem toda referência ao transcendente. Tentamos construir um pináculo no templo da humanidade com o aço que roubamos das suas fundações. A torre toda desabou na lama e nos campos de extermínio do século XX. Ficou claro, para os pensadores honestos, que não podemos falar de dignidade humana durante um tempo indefinido sem fundamentá-la em algum ponto de referência transcendente (e é por isso que muitos laicistas tentam agora minimizar o próprio conceito de dignidade humana, para fugir das suas necessárias implicações).

Não poderemos ensinar as pessoas a verem o outro como um fim em vez de um meio se não estivermos profundamente convencidos de um objetivo mais urgente e mais importante do que a autoafirmação (e é por isso que as discussões sobre os valores humanos nas artes liberais degeneraram em rastreamentos de “discursos de poder”).

Nietzsche estava certo até certo ponto: se Deus está morto, morre com Ele todo motivo real para não saciarmos a nossa vontade de poder. E, quando buscamos poder, seja para transformar a sociedade humana, seja simplesmente para tornar as nossas vidas mais convenientes, haverá obstáculos. Estes obstáculos serão pessoas: turbulentas, obstinadas, teimosas, que não vão ou não podem servir à nossa agenda utópica (ou meramente egoísta). Essas pessoas-obstáculos devem ser eliminas: kulaks, judeus, crianças retardadas, deficientes físicos ou mentais, pobres terceiro-mundistas que insistem em se proliferar. Sem limites profundamente gravados na nossa consciência, vamos pisar uns nos outros até a morte.

Esta decadência, que derrubou o homem da sua glória quase divina do Renascimento até afundá-lo na banalidade do mal, era inexorável; mesmo assim, estava longe de ser simples. Há muitas reviravoltas intelectuais ao longo da estrada que nos trouxe da Florença de Michelangelo até o gulag de Stalin. Mas, olhando para trás, o caminho que trilhamos parece claro: ao tentarmos glorificar o homem e “libertá-lo”, nós extirpamos as razões para considerá-lo importante e as regras que nos impedem de maltratar pessoas que surgem na nossa frente. Aprendemos a desumanizar grupos inteiros de pessoas quando nos convém, mas, na verdade, fomos desumanizando gradualmente a nós próprios.

O teólogo Henri de Lubac escreveu um tratado incisivo, “O Drama do Humanismo Ateu”, que, com justiça cuidadosa, analisa os fundadores dos mais importantes movimentos antirreligiosos, como Feuerbach, Comte, Marx e Nietzsche, tentando entender quais bens humanos aqueles pensadores pensavam que a religião punha em perigo e o que eles pretendiam resgatar. Grosso modo, a geração de pensadores prometeicos, que Lubac chama de “humanistas heroicos”, afirmou que o homem ocidental esteve, durante muitos séculos, envolvido em um ou mais dos seguintes “erros”:

  • Tínhamos focado nas virtudes de Deus (como a sabedoria, o amor e a providência), que o homem deve cultivar.
  • Tínhamos cedido a Deus o controle do destino humano, abraçando a passividade em vez do ativismo enérgico.
  • Tínhamos usado a fantasia da justiça divina, a ser aplicada na próxima vida, para amenizar os efeitos da injustiça nesta vida, diminuindo assim o impulso de provocar as mudanças necessárias.
  • Tínhamos permitido que a vida humana se atrofiasse por culpa e por medo de uma figura paterna invisível, todo-poderosa e punitiva.
  • Tínhamos “alienado” o melhor do homem ao situar em Deus a fonte, o cume e o fim de todos os nossos esforços terrenos, que devem parecer fúteis em comparação com as suas perfeições sobrenaturais imaginadas.

Os humanistas “heroicos” tiveram apoio de homens que não propunham um projeto filosófico amplo, mas apenas o resultado das suas buscas empíricas e científicas, empregando um método que, durante séculos, foi gradualmente substituindo a religião e o pensamento especulativo como fonte de certeza intelectual para a maioria das pessoas (a própria palavra “ciência”, que já abrangeu todos os modos de conhecimento, incluindo a teologia, foi reduzida no final do século XIX, em seu uso comum, aos estudos estritamente empíricos). Quando a teoria de Darwin ofereceu uma explicação alternativa ao surgimento de vida, inclusive da vida humana, as suas afirmações viraram munição explosiva nas mãos dos que queriam livrar a humanidade da sombra de Deus. A explicação de Freud sobre o funcionamento da psique humana, altamente anedótica e baseada em uma amostra fantasticamente limitada de vienenses ricos, foi aceita como ciência, no mesmo modelo de Darwin. As ideias de Freud foram persuasivas e ofereceram uma nova e poderosa explicação para as perversidades e frustrações da vida humana, deslocando, para muitos, o que tinha sido a teoria dominante: um esquema de pecado, graça e arrependimento, que Santo Agostinho tinha desenvolvido a partir dos escritos de São Paulo.

Como essas ideias se tornaram dominantes no que já foi chamado de Ocidente cristão?

Na maioria dos casos, foram os próprios pecados dos cristãos e o abuso de verdades teológicas por parte de fanáticos ou de cínicos o que “escandalizou” os crentes e tornou atraentes os princípios do sub-humanismo. Se falarmos e agirmos com respeito consistente pela santidade e pela dignidade de cada pessoa em cada situação da vida, poderemos reconquistar a cultura atual para o humanismo verdadeiro, que leva as pessoas com suavidade e quase irresistivelmente até Cristo.

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FilosofiaIdeologiaVirtudes
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