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“Experimente 15 dias de clausura”: a interessante iniciativa de um convento carmelita

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Aleteia Vaticano - publicado em 18/05/14

Em 10 anos, as religiosas passaram de 9 para 26 vocações

O primeiro som que se ouve quando se entra no convento espanhol das carmelitas de Valladolid-Campo Grande são as vozes animadas das irmãs.

Vozes desinibidas, que rasgam o silêncio dos muros com uma alegria que parece dar a razão à frase de Santa Teresa a um visitante: “Esta casa é um céu, se é que pode haver céu na terra”.

Não é o que se esperaria encontrar num convento de clausura. E a surpresa está só começando. Em tempos de indiferença religiosa, descristianização e falta de vocações, este convento conseguiu triplicar a quantidade de religiosas em dez anos, passando de 9 para 26.

Trata-se de um processo em aumento, porque só nos últimos quatro anos a comunidade religiosa duplicou, graças à incorporação de mulheres jovens, com estudos e formação, que acreditam ter encontrado nesta casa o sentido da sua vida.

Esta jovialidade e energia não eram infrequentes nos tempos gloriosos, quando não faltavam pessoas dispostas a entregar a vida a Deus, mas são mais difíceis de encontrar nas ordens religiosas do presente, que sofrem os estragos do envelhecimento e da falta de renovação. Um problema, porém, que não acontece nesta casa espanhola: 80% das residentes (vinte e uma, do total de vinte e seis) têm menos de 45 anos de idade, com um grupo significativo na faixa dos vinte anos. Três outras mulheres que solicitaram entrar na ordem devem se juntar a elas em breve.

É uma comunidade, além disso, bastante variada e singular: entre as religiosas, há uma mulher que cantava num grupo de heavy metal, uma engenheira da Renault, uma boxeadora e até uma religiosa das Irmãs dos Idosos Desamparados, que, depois de 23 anos de atividade social naquela ordem, decidiu, há três, uma mudança radical de vida que a levou a optar pela clausura.

As religiosas de Valladolid chegaram à cidade em 2005, vindas do convento de São José de Medina de Rioseco. Eram, na época, uma comunidade minguante, como a maioria na Espanha, mas, em menos de dez anos, viraram o jogo. Agora, neste IV Centenário da Beatificação de Santa Teresa de Ávila e nas preparações para o quinto centenário do seu nascimento, estas religiosas teresianas mostram um vigor invejável.

Decididamente, algo diferente está acontecendo nesse convento, com religiosas que usam a internet para romper os limites da clausura voluntária e compartilhar as suas orações e atividades.

“Não há nenhum segredo. Simplesmente vivemos a nossa vocação com a maior autenticidade possível”, explica a priora, Olga Maria del Redentor, a responsável, em grande medida, pela mudança que a congregação está vivendo. Uma mulher que fala com palavras simples e coloquiais e que, mesmo respeitando as normas, não se esquece de que “o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”.

A mudança envolve uma notável flexibilização de algumas regras da clausura, mas, acima disso, uma nova atitude. As carmelitas do convento do Campo Grande convidam as pessoas a rezar com elas e veem a si mesmas como testemunhas e embaixadoras da fé num mundo que diz não crer.

“A principal mazela de hoje não são as pobrezas materiais, que, de um modo ou de outro, estão sendo atendidas, mas a perda de consciência do homem quanto à sua vida interior. Em nossa sociedade tudo está esquematizado para não despertar o homem interior, para anestesiá-lo, porque assim é mais fácil manipulá-lo. Tentam de tudo para que o homem não seja consciente da sua dimensão transcendente. E isso gera um vazio e uma crise de valores”, opina a priora. “Mas não dá para apagar a sede do homem. E o homem procura saciá-la, mesmo que, às vezes, do jeito equivocado”.









Rezar para que a fé ganhe espaço na sociedade sempre foi um dos objetivos da clausura.

Mas as carmelitas do Campo Grande dão um passo além. Elas decidiram não só orar, mas dar testemunho, acolher os que procuram e ajudá-los a encontrar esse sentido. É um ato de ir ao encontro do mundo, mas sem renunciar ao isolamento do mundo, que faz parte da sua opção.

Para isso, toda quinta-feira à noite, às 21h30, elas abrem as portas para quem quiser acompanhá-las na adoração. É uma boa ocasião, aliás, para ouvi-las cantar, porque essas freiras já gravaram dois discos e têm mais dois em preparação, um deles de temática teresiana.

Essa fórmula nova, esse carisma novo, contou primeiro com o respaldo do arcebispado de Valladolid, que, depois, recebeu a confirmação de Roma. Em breve, a experiência poderá levar à constituição de uma nova fundação religiosa.

A data crucial nessa história foi o dia 3 de julho de 2012. Foi quando a Santa Sé concedeu a permissão especial que ampara a mais radical das inovações do convento: abrir as portas para moças com interesse vocacional, mas que ainda estão em dúvida sobre dedicar-se ou não à vida religiosa.

Durante quinze dias, no máximo, elas poderão conviver com as religiosas para conhecer em primeira mão o seu tipo de vida e a sua espiritualidade. Nenhuma outra ordem de clausura tem permissão para nada semelhante a isso. Mas os resultados falam por si.

“Nós sentimos que é isto o que Deus nos pede e que isto é bom para o povo de Deus”, reforça Olga Maria del Redentor. “Dizem que há descristianização, mas o que é que nós estamos fazendo para compensar? Por que não podemos oferecer a nossa parte de um jeito compreensível, convictas, como estamos, de que isto é o melhor?”.

A experiência delas permite constatar que as pessoas chegam ao convento com uma pobreza espiritual “impressionante”. “Muitas estão perdidas e não sabem como rezar. Você tem que guiá-las pela mão”, explica a priora.

E ela não estranha. “O homem de hoje está cada vez mais desumanizado e mais frio. As relações entre as pessoas tendem a ser mais superficiais e temos menos vínculos afetivos. Se isso acontece nas relações com os outros homens, imagine com Deus! Nós mostramos isso, as pessoas descobrem, gostam e se envolvem. E não conseguem mais prescindir d’Ele”.

E por que manter a clausura? Não seria mais fácil ir ao encontro do mundo estando no mundo? “Não podemos dar o que não temos. Precisamos salvar este espaço de clausura, porque, se não estivermos repletas [de Deus], não podemos dar nada a ninguém”, responde a superiora, completando: “O menos importante são as limitações materiais e formais. O que a clausura faz é criar um espaço de liberdade para vivermos serenamente, sem interferências de tudo o que contamina lá fora”.

Lutar contra as convenções do mundo não é um caminho fácil. Pode ser que alguma mudança esteja sendo gestada dentro desses muros, mas, fora deles, todo continua igual.

A opção pela clausura é vista com incompreensão, quando não com espanto ou com rejeição. É considerada por alguns, até, como uma forma de submissão da mulher. A consequência disso é que a notícia das novas vocações não costuma despertar alvoroço nas famílias, nem nos amigos, nem nos entornos mais próximos. Bem pelo contrário…

"A minha família, teoricamente, acredita, mas…".

É o caso da madrilena Esther da Eucaristia, de 31 anos, que há dez meses é postulante.

“A minha família, teoricamente, acredita em Deus, mas não entendeu nada. Eles tinham quase assimilado a ideia de que eu podia ser freira, mas a clausura eles acharam uma loucura. Me disseram que eu ia perder a liberdade, que era como entrar num presídio. Está sendo muito difícil. Eles estão bravos comigo, como se eu tivesse traído todos eles. Eles se sentem como se tivessem me perdido e me tratam como se eu tivesse morrido”.









O convento não é o castelo do Conde Drácula

As ordens de clausura estão acostumadas com essa rejeição. “É compreensível. A família tem a ideia de que um convento de clausura é um lugar escuro e terrível”, explica a priora Olga Maria del Redentor.

“Se você acha que a sua filha vai morar no castelo do Conde Drácula, com a bruxa, é lógico que você não goste da ideia. Por isso nós tentamos fazer com que eles nos conheçam, para verem que não é assim. Por outro lado, nós temos a vocação e a graça, mas eles só veem os sacrifícios. Nós sabemos que estamos nos desprendendo de algumas coisas, mas também sabemos que encontramos outras”.

Uma vice-campeã de boxe no convento

Uma sensação parecida de rejeição foi experimentada por Sara do Coração de Jesus, de 24 anos, postulante há 9 meses.

Suas amigas, católicas como ela, chegaram a lhe dizer que o “problema” dela podia ser resolvido com algumas visitas a um psicólogo. Mas elas estavam enganadas.

A guinada de Sara foi radical. Ela tinha vocação militar, o que a levou a um ginásio de boxe para se preparar para as provas físicas de admissão no exército. Seu treinador, no entanto, descobriu que ela era boa com as luvas e a encorajou a competir. E Sara não se dava nada mal na luta. Chegou a ser vice-campeã de Madri. Mas a vocação religiosa mudou tudo.

“Você não queria ir para a guerra?”, perguntaram seus pais, surpresos, quando ela lhes comunicou a decisão. “E aqui estou eu! Nosso Senhor me deixou meio boba e agora eu costuro toalhas e fronhas e choro mais. Antes eu só chorava de dor, agora choro de alegria”, brinca ela.

Certa noite, em altas horas, a priora a encontrou dando socos contra o ar no pátio do convento. “Madre, é que o potro precisa galopar”, foi a sua resposta e a sua desculpa. “Antes, eu resolvia tudo com brusquidão, aos empurrões. Aqui você aprende outro caminho. Aprende a obedecer por amor, a sorrir por amor, a lavar a louça por amor. Eu sou muito feliz e não me arrependo”.

“Eu queria ser uma supermissionária”

A obscuridade que se associa às ordens de clausura preocupava, no início, a irmã Maria de Jesus, 24, hoje com quatro anos de experiência no convento. “Eu estava num momento ruim. Não tinha intenção de ser freira de clausura, mas tinha, talvez, de ser missionária. Eu queria salvar o mundo, eu sozinha. Ser uma supermissionária!”, recorda.

“Mas vim para o convento e entendi que precisava ser uma peça do grande quebra-cabeça de Deus. No primeiro dia aqui, eu já me sentia em casa. Vi que a superiora era suficientemente normal para eu me sentir à vontade. Eram só 13 irmãs naquele tempo e eu já tinha a sensação de família e de unidade. Eu experimentava uma forma de ser simples e espontânea”.

Engenheira, mas escrava

Feminista e mulher de caráter firme: Carmen do Coração de Maria, de 34 anos, entrou na ordem em 2010 depois de vários anos de exercício profissional como engenheira na Renault.

Ela tinha um bom trabalho, dinheiro e reconhecimento profissional. Mas descobriu que isso não era suficiente.

“Naquele tempo, esta vida [de clausura] me repelia”, lembra ela. “Mas eu descobri que estava errada. Aqui existem normas bem precisas e obrigatórias, mas que são muito libertadoras. E lá fora, na verdade, eu tinha muitos cabrestos, só que não tinha uma comunidade e um ambiente de carinho como este”, explica. “No fim, cheguei à conclusão de que 15 dias de férias maravilhosas por ano não me compensavam onze meses como escrava de um meio de vida”.

O horário no convento

Reproduzimos a seguir o horário de uma religiosa de clausura:

6h30 – Começa o dia
7h00 – Oração das laudes, uma hora de oração mental e oração da terceira hora
8h30 – Missa e ação de graças
9h15 – Café-da-manhã
9h40 – Trabalho. As carmelitas do convento do Campo Grande fazem hóstias para a missa, bordam toalhas, roupa de cama e capas para livros. Outras atividades incluem a pintura de livros e a confeitaria. Elas também gravam discos.
12h30 – Oração do ângelus, sexta hora e terço
13h00 – Almoço
14h00 – Recreio
15h00 – Descanso e recolhimento em silêncio
16h00 – Oração da nona hora
16h20 – Leitura espiritual
17h00 – Trabalho. Em alguns dias, essas duas horas são dedicadas à formação
19h00 – Vésperas, ofício de leituras e outra hora de oração mental
20h30 – Jantar
21h30 – Recreio. Às quintas-feiras, suprime-se esta hora de recreio, que é substituída por um exercício público de adoração.
22h30 – Oração das completas e descanso.

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