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O pacifismo radical também mata

Quando la pace diventa pacifismo – pt

@DR

Jason Jones e John Zmirak - publicado em 01/06/14

E uma guerra justa é um ato de amor

Fazemos hoje uma pausa na semana de trabalho por uma razão solene e terrível: para honrar o sacrifício dos homens e mulheres que morreram nas guerras do nosso país e rezar pelas suas almas, que são eternas.

Morrer em batalha, seja no caos e terror de uma trincheira da Primeira Guerra Mundial, seja à beira de uma estrada erma e desolada do Afeganistão, não é a escolha que faríamos para deixar este mundo. Cada um de nós espera partir em paz, num leito sereno, cercado pelos entes queridos, logo depois de confessar os seus pecados a um sacerdote de confiança. Mas centenas de milhares dos nossos concidadãos não tiveram esse privilégio e, desde 1776 até os nossos dias, derramam o seu sangue morrendo sozinhos em solo estrangeiro –por nós. Para podermos hoje comer churrasco em nossos quintais pacíficos e livres. Concedei-lhes, Senhor, o eterno descanso, e a luz perpétua brilhe sobre eles.

Já escrevemos sobre os erros do militarismo, a insensível, mas profundamente tentadora resposta à vida em um mundo perigoso. Poucas guerras que os cristãos lutaram nos últimos dois mil anos podem realmente ser qualificadas como "justas" ou foram travadas por reta preocupação com a vida dos civis. É importante lembrar, na próxima vez em que formos instados a enviar nossos soldados para "promover a democracia" ou derrubar um tirano em terra estrangeira, que a maioria das guerras injustas lutadas ao longo da história cristã foram travadas por pessoas com outras convicções: elas tinham ouvido os seus líderes e comprado a propaganda deles. Os dois lados na Primeira Guerra Mundial marcharam sob as bênçãos dos seus bispos. Milhões de soldados alemães marcharam para a guerra genocida de Hitler em 1939 acreditando sinceramente no slogan do seu exército: "Gott mit uns", "Deus está conosco".

A reação óbvia a fatos terríveis como este é abraçar o pacifismo radical. Tem a mesma lógica simplória do militarismo e oferece uma abertura mais sutil para a afirmação da vontade de poder. Se você não é o tipo de pessoa que dá tapinhas nas próprias costas enquanto afirma "Matem todos eles e que Deus separe quem prestava", o pacifismo lhe oferece um prazer mais exótico: o privilégio de olhar com o cenho franzido para os atos de cada homem e mulher na história humana e para os instintos de cada ser humano que já viveu sobre a terra. Porque não há nenhum impulso mais arraigadamente humano que o de preservar a si mesmo e aos entes queridos; um instinto, porém, que o pacifismo condena, aberta ou secretamente. Qualquer postura que espere que você assista passivamente ao seu cônjuge ou filhos serem estuprados, escravizados ou assassinados é intrinsecamente anti-humano. E os pacifistas incoerentes, que protegeriam a si mesmos e as suas famílias, mas não os seus vizinhos e concidadãos, são simples e radicalmente egoístas. O pacifismo também é sub-humanista quando desvaloriza a vida e a liberdade de cada ser humano, dizendo que simplesmente não vale a pena lutar por elas. O impulso salutar da autopreservação, por sua vez, também pode ser pervertido quando não temperado pelo altruísmo e limitado pelo senso do intrínseco valor moral do outro; nesse caso, ele se transforma num tumor, como o narcisismo coletivo das ideias de superioridade nacional ou racial.

Mas qualquer um que condena a autoproteção em si mesma está dizendo que a natureza humana é intrinsecamente perversa, fundamentalmente má, produto de um deus incompetente ou depravado, como os antigos gnósticos ensinavam, ou o resultado feio de uma evolução infeliz: “herdamos genes demais daqueles chimpanzés assassinos”. Quem condena a




autoproteção humana também alimenta, saiba disso ou não, os nossos piores e mais belicosos impulsos.

Como assim? A parte óbvia da resposta é que quando as classes líderes em países livres como a Inglaterra declaram, como a União de Oxford declarou em 1933, que "não vão lutar pelo rei nem pelo país", eles estão enviando uma mensagem clara aos líderes de outros países, como a Alemanha que tinha acabado de dar as boas-vindas a Hitler como chanceler. A mensagem inglesa de cinismo, autocongratulação e cansaço de guerras não passou em branco para os milhões de alemães que, além de indignados com a injustiça do Tratado de Versalhes, não tinham saído da Primeira Guerra Mundial com o pensamento de "nunca mais", e sim com a ideia de que "na próxima vez não vamos ser covardes sentimentais".

A parte menos óbvia e mais importante da resposta pode ser encontrada em Elizabeth Anscombe. Em seu ensaio clássico "War and Murder" [Guerra e Assassinato], Anscombe demoliu a base bíblica e filosófica do pacifismo. E mais importante: ela mostra como o pacifismo permite e promove a causa da guerra total:

O pacifismo ensina as pessoas a não distinguir entre o derramamento de sangue inocente e o derramamento de qualquer sangue humano. Assim, o pacifismo corrompeu um número enorme de pessoas que não agem de acordo com os seus princípios. Elas se convenceram de que uma série de coisas são más, quando não são; e, ao não verem maneira alguma de evitar a maldade, elas não impõem limite nenhum ao mal. Os pacifistas reafirmam infinitamente que toda guerra é extrema e que nenhuma acaba enquanto houver tecnologia que permita continuar destruindo o inimigo. Como se as guerras napoleônicas tivessem sido forçosamente mais repletas de massacres do que a guerra de Henrique V da Inglaterra. O que ocorreu foi o contrário. O avanço tecnológico não é particularmente relevante, considerando-se os enormes massacres cometidos “à mão” no passado.

O pacifismo e o respeito pelo pacifismo não são a única coisa que provocou o esquecimento universal das leis contrárias ao assassinato de inocentes, mas são uma boa parcela desse fenômeno.

O pacifismo apresenta às pessoas uma escolha do tipo 8 ou 80, entre a crueldade absoluta e a rendição passiva. Sem uma terceira (ou quarta, ou décima) alternativa, as pessoas normais ​​que não são gnósticas nem agem com afetação moral vão escolher sempre a “crueldade”. Mas esta escolha extrema é totalmente falsa. Ela surge porque a nossa moral foi reduzida e entorpecida pela nossa metafísica medíocre, que é outro mau legado, aliás, do sub-humanismo.

Em “To End All Wars”, o talentoso escritor e moralista Adam Hochschild apresenta um retrato vívido e profundamente humano de um pequeno grupo de pessoas de princípios, que se manifestaram na Inglaterra contra a Primeira Guerra Mundial. É impossível não admirar aqueles homens e mulheres que enfrentaram o desprezo e o ostracismo, a penúria e a prisão, para se opor a uma chacina inútil e fútil. Elevação moral à parte, porém, outra coisa que se deve tirar do livro é a sensação de que os esforços deles também foram fúteis. E você é levado a se perguntar por quê. Com os comentários de Anscombe em mente, a resposta aparece: em vez de argumentar embasadamente que aquela guerra era desnecessária e apresentar razões para o consenso entre liberais e cristãos, aqueles ativistas instavam contra a guerra em razão de absoluto pacifismo. Em alguns casos, eles invocavam também o socialismo, dizendo que a classe trabalhadora de todas as nações deveria se unir contra os seus governantes em vez de lutar contra si mesma. Com suas ações alicerçadas em duas premissas falsas (e não convincentes, além de tudo), não é nenhuma surpresa que os seus “slogans” tenham sido facilmente abafados pelo patriotismo, que logo se transformou em ufanismo e em sede de sangue.






Mais eficaz poderia ter sido o esforço concertado entre cristãos e conservadores de ambos os lados do conflito para argumentar que aquela guerra não era nem justa nem necessária. Poucas vozes se alçaram para dizer isso; poucas demais para fazer diferença. O papa Bento XV foi uma dessas vozes. Foi ignorado. As tropas das duas partes, que fizeram uma espontânea "trégua de Natal" em 1914, agiam com o mesmo espírito. Seus líderes militares, que ainda imaginavam uma vitória rápida, as ameaçaram de punição por "motim". O recém-coroado governante austro-húngaro Carlos I tentou, em 1917, intermediar uma paz sem anexação, mesmo quando seus aliados alemães planejavam infectar a Rússia com o bacilo pestífero do bolchevismo. Mas, àquela altura, as nações combatentes já tinham ido muito longe: tinham jogado fora riqueza demais e vidas humanas demais para se contentarem com menos que o triunfo.

O perfeito tipo de homens que deveriam ter lutado pela paz negociada acabou enrolado no frenesi: G. K. Chesterton e Hilaire Belloc, de um lado, e Thomas Mann, do outro, cada um proclamando que aquela guerra era uma “cruzada pela civilização”. O poeta Charles Péguy se juntou ao exército e morreu numa das primeiras batalhas. Os bispos católicos americanos, ansiosos para provar o seu patriotismo, se fizeram de mortos para o apelo do Vaticano em prol da paz e preferiram exortar os fiéis a se alistarem. E assim por diante. A cumplicidade dos cristãos em promover aquela guerra de destruição e de futilidade sem precedentes fez muito mais para desacreditar as igrejas no longo prazo do que qualquer tratado ateísta já publicado.

Hochschild relatou:

A ferocidade em torno da guerra podia ser ouvida em toda parte. "Matem os alemães! Matem!", bradou um clérigo num sermão de 1915. "Não por matar, mas para salvar o mundo! Matem o bom junto com o mau… Matem os jovens junto com os velhos… Matem os que se mostraram bondosos para com nossos feridos e também aqueles demônios que crucificaram o sargento canadense [uma história que circulava na época]… Eu vejo esta guerra como uma guerra pela pureza! Eu vejo cada um que morre nela como um mártir!".
O orador que proferiu o discurso foi Arthur Winnington-Ingram, bispo anglicano de Londres.

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