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Quanta porcaria moral estamos dispostos a ingerir?

© Plan B Entertainment

Alvaro Abellán - publicado em 06/06/14

Na narrativa contemporânea, o que predomina é a recreação e a banalização do mal

Ontem, minha esposa e eu finalmente achamos um tempinho para curtir a última triunfadora do Oscar: “12 anos de escravidão”. Com quase duas horas de filme, e enquanto uma jovem escrava, mão-de-obra barata, prostituta e objeto de tortura sádica, era chicoteada por outro escravo amigo (que, por sua vez, encontrava-se sob a ameaça de ser assassinado pelo amo de ambos), minha mulher se levantou rapidamente e foi até o outro quarto.

Com indignação, ela murmurou algo sobre quão doentio é considerar como violenta “A Paixão”, de Mel Gibson, enquanto consumimos filmes e séries de televisão tão ou mais desagradáveis, sem uma contrapartida espiritual que dê sentido ao gole amargo do sofrimento.

Acho que ela tem razão, e me admira sua sensibilidade moral, sua capacidade de identificar uma linha para o intolerável, para o nível de porcaria moral que está disposta a ingerir de forma gratuita.

Assistimos juntos a muitos outros filmes sobre a escravidão. Alguns são recentes e outros, mais antigos. Lembro-me agora de “Amacing Grace” (2006), cuja qualidade cinematográfica é sensivelmente menor e, no entanto, a narração não precisa se recriar na miséria para colocar-nos diante da maldade dos homens.

Além disso, “Amacing Grace” nos coloca diante de nós mesmos, frente à maioria silenciosa que desfruta dos benefícios sociais de uma escravidão que permanece oculta e afastada de nós. Por isso, este filme exerce sobre nós uma catarse: permite-nos reconhecer na nossa aquela sociedade opulenta que olha para o outro lado.

Este valor curativo do segundo filme não pode ser obtido no primeiro, pois neste a maldade e o sadismo dos escravistas nos seduzem com a falsa impressão de que o mal está lá fora e não tem nada a ver conosco.

Há algumas semanas, eu me matriculei em um MOOC (Massive Online Open Course) chamado “A terceira idade de outro das séries de televisão”. Toda semana, assisto a três vídeos nos quais diversos especialistas analisam as chaves das séries americanas dos últimos 20 anos.

Os professores, sem entrar nas questões de fundo (nem técnicas, nem antropológicas), investem muito tempo em descobrir o devir dos personagens, a produção, os cenários, os questionamentos morais e a crítica social presente nos seriados. Isso me parece bom.

Esses mesmos professores falam dos ecos clássicos que aparecem nas séries contemporâneas (a culpa de Édipo, a descida ao inferno de Dante etc.), mas me custa aceitar esta vinculação, porque assim todas as histórias acabam relacionadas entre si, já que os grandes temas são sempre os mesmos.

As diferenças entre umas histórias e outras são de olhar ou enfoque, de valores, das pretensões do narrador. E se o mal é tratado pelos clássicos com temor e pretensão catártica, na narrativa contemporânea predomina uma recreação e banalização do mal, com pretensão espetacular, inclusive narcisista, como já explicaram tão bem meus colegas Juan Orellana e Juan Pablo Serra.

Eu poderia me dedicar a elencar as virtudes técnicas de filmes como “12 anos de escravidão”, mas, vendo outros analistas falar, sem despentear-se, do seu carinho por um assassino em série (Dexter), eu me pergunto se nós, acadêmicos, não deveríamos refletir em um nível um pouco mais relevante para a nossa vida pessoal e social.

Fala-se muito da crítica social presente nestas produções audiovisuais, mas eu me questiono: seriados como “Game os Thrones”, “House of Cards” ou “The Wire”, e filmes como “12 anos de escravidão” não aumentam nossa tolerância frente à superficialidade, a banalidade e o mal?

Será que nossa exposição constante a esta miséria moral, vertida sobre nós, tem a ver com nossa laxidão com relação a nós mesmos e aos supostos líderes morais e espirituais da nossa época?

Será que estas histórias nos preparam para ser capazes de ingerir muita porcaria sem despentear-nos, sem levantar o traseiro do nosso sofá e sem engasgar com a pipoca?

(Artigo escrito por Álvaro Abellán em seu blog DialogicalCreativity e em LaSemana.es)

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