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«A Liturgia é a grande escola da Fé»

Família Cristã

D. José Cordeiro

Família Cristã - publicado em 07/06/14

Entrevista com D. José Cordeiro, bispo de Bragança-Miranda, presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade da Conferência Episcopal Portuguesa

D. José Cordeiro, bispo de Bragança-Miranda, foi nomeado presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade na última Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa. Especialista em liturgia, o prelado admite que os ministérios instituídos de leitores e acólitos poderão eventualmente ser abertos às mulheres e defende que a liturgia é muito mais que o rubricismo, uma corrente que tem vindo a ser ligada à liturgia ao longo da história, e que visa dar uma importância muito grande às rubricas do missal romano, em detrimento de um entendimento mais profundo das razões da liturgia, criticando quem se deixa levar por essa corrente.

A liturgia tem sido muito associada ao rubricismo ao longo dos séculos. É uma imagem errada do que é a liturgia?

Infelizmente é essa a imagem que passa quando falamos de liturgia. Mas é uma falsa ideia. A liturgia não é isso, e a própria etimologia da palavra o refere. É um serviço para o povo, com o povo. A liturgia é decisiva na vida da Igreja, mas ela não é rubricismo. As rubricas são importantes para o ordenamento feliz e articulado das celebrações, mas atrevo-me a dizer que são o menos da liturgia. O importante é o espírito da liturgia: o que é que se celebra, porque é que se celebra. Mais do que o como, é responder o porquê. A liturgia é sempre o mesmo, que é celebrar o Mistério de Cristo.

Então como formar o povo de Deus para que compreendam os mistérios que celebram, compreendam que são sujeitos da celebração?

A educação litúrgica é o grande desafio que já foi apontado pelo CV II e pela Sacrosanctum Concilium. Mas já antes disto a Igreja optou pela formação ao povo de Deus. Havia um grande desiderato no CV II que era levar o povo de Deus à liturgia, e levar a liturgia ao povo de Deus, e isso é fruto da formação. Em Portugal temos bons exemplos, e um caminho já percorrido, mas muito há a fazer, com certeza.

Como é que a participação ativa e consciente do cristão na eucaristia deve acontecer? Data-shows, livros de cânticos, muita parafernália litúrgica… como se encontra o meio-termo?

A participação ativa, consciente e frutuosa não é uma questão de fazer coisas, é a compreensão da plenitude do mistério que se celebra, e cada um, conforme a regra de ouro do Missal Romano, deve «fazer tudo e somente aquilo que lhe compete». A participação passa por gestos e palavras, mas sobretudo pelo silêncio. Já dizia Romano Guardini que quem não entende o silêncio ainda não conseguiu perceber o que é a liturgia. O silêncio não é a ausência de palavras, é deixar Deus entrar na minha vida, na vida da comunidade, e ter consciência da presença de Deus que é o que a liturgia celebra, que é um sacrifício de louvor. A liturgia é a palavra de Deus rezada, é a teologia celebrada. A participação é muito mais que fazer coisas, pois elas têm de ser feitas com sentido.

Como podemos fazer com que o povo de Deus deixe de dizer "vou à missa", "vou ouvir a missa", e passe a dizer "vou celebrar a missa"?

Antes de mais, com uma liturgia bem celebrada. Simples, bela, séria, não no sentido carrancudo, ma que siga a norma da Igreja, não posso eu inventar a liturgia, pois ela é o depósito da Fé da Igreja. Depois será por contágio. O cristão tem de ser iniciado no próprio mistério, para depois celebrar o mistério, naquilo que chamamos a mistagogia. É uma iniciação progressiva, não é de um momento para o outro, pode levar a vida toda. O importante é que a celebração da liturgia seja expressão do acreditar da Igreja que depois conduz à vida. É este dinamismo que constrói a Igreja. A liturgia é decisiva, não exclusiva. Levar à participação na eucaristia é celebrá-la bem. Aquele que preside tem de estar bem consciente disso, e se o fizer bem feito, é meio caminho andado para uma participação plena da assembleia como sujeito da celebração.

A formação que existe nos seminários em Portugal em termos de liturgia é mais rubricista que teológica?

Do que eu conheço em Portugal, a formação litúrgica é muito cuidada. Há muitos professores, muitos formadores nos seminários e nas nossas comunidades que fizeram cursos de teologia e estão bem formados na ciência e na pastoral litúrgica. Portugal tem os Encontros Nacionais da Pastoral Litúrgica que são um espaço de encontro e formação dos pastores e dos fiéis leigos na celebração litúrgica. Do que conheço em Portugal, não é rubricista. Se houve tempo em que isso aconteceu, hoje não, é muito mais abrangente e o ideal é que fosse interdisciplinar, que não fosse entendida como uma disciplina à parte, mas integrada no todo de modo a fazer resplandecer os mistérios de Cristo e da Igreja, que é esse o objetivo. A liturgia em si é a grande escola da fé.

O facto de estarmos a presenciar algum tradicionalismo no clero mais novo pode estar relacionado com este rubricismo, com o estarem apegados às rubricas?

Tenho pena quando isso acontece, porque é o não entender o espírito da liturgia, é ficar refém do rubricismo, da parte estética da liturgia, que é importante, mas não é o mais importante. O mais importante é a escuta da Palavra, a vivência do mistério e a visão da glória, como Jesus diz "Quem me vê, vê o Pai". Celebrando os mistérios, deveríamos ter esta capacidade. Quando vemos uma coisa, temos de compreender outra, e não nos podemos refugiar nas estruturas e nas normas, mas ir além delas, e fazer com que seja a vida acreditada que é vivida também fora da eucaristia.

Esse apego ao rubricismo é um defeito de formação, ou tem a ver com as escolhas individuais dos sacerdotes?

Eu gostaria de distinguir Tradição e tradições. Se é tradicionalista ancorado na Tradição, então bendito seja (risos), porque é a transmissão do essencial da Fé. Agora as tradições que foram variando ao longo das épocas culturais e estão em constante mutação, não se devem tornar cativas na Igreja nem nos devem tornar reféns. Conheci um professor que dizia que quem casa com as modas fica viúvo em pouco tempo, e no fundo traduz isso. Há coisas que são passageiras, que mudam conforme as culturas e as sensibilidades, mas o importante é o mistério que se celebra.

O que mudar na formação, até para integrar melhor a liturgia com outras disciplinas, como pedia na conferência que deu em Roma?

Temos de fazer com que a teologia não seja uma ciência meramente conceptual, meramente no campo da investigação científica, mas que seja também experimentada na própria celebração. O que estudámos na teologia deve ser experimentado na liturgia, e só nessa feliz conjugação, na integração do estudo, da celebração e da vida, é que temos a compreensão total do mistério de Cristo e do mistério da Igreja.

Disse numa conferência que nós "esbanjamos a eucaristia". Estamos a precisar de uma troika e de medidas de austeridade litúrgicas?

(risos) Não será preciso. Precisamos é de celebrá-la com sentido. Esbanjamos porque é aquilo que mais vezes fazemos na vida concreta da nossa comunidade e da nossa Igreja, e é aquilo que torna mais visível a presença de Deus nas comunidades e na Igreja. O esbanjar é porque cuidamos pouco, preparamos pouco, e o que não é bem preparado não é bem celebrado. O segredo de uma boa celebração está na sua preparação, para que depois se possa traduzir em fruito na vida. A participação ativa, consciente e frutuosa exige um antes e um depois, não é só durante a celebração.

Elogio ao cântico litúrgico e um aviso à proliferação de instrumentos que «distraem»

20140523_d_jose_cordeiro_0004Somos um país pobre em termos de criação de canto litúrgico?

Pelo contrário, considero um país muito rico e a produção de música litúrgica muito conseguida no comum das nossas comunidades. Quem tem algum conhecimento da realidade eclesial da Europa e do mundo, sabe dizer, em nome da verdade, que a música litúrgica tem sido muito bem desenvolvida na nossa pastoral. Há ainda muito a fazer, porque essa é uma parte manca da reforma litúrgica, mas Portugal está a um nível superior em relação à música e à pastoral litúrgica.

Do ponto de vista litúrgico, faz sentido limitar o número e a diversidade de instrumentos que possam ser usados na eucaristia, limitando-nos aos mais tradicionais?

Na nossa cultura, faz sentido essa restrição, porque a música está ao serviço da Palavra. Não é cantar ou tocar na missa, é cantar a missa, a liturgia, a partir da Palavra de Deus. A liturgia não é senão Palavra de Deus e dos Padres da Igreja. A música litúrgica ou nos ajuda a rezar e a entrar dentro do mistério, ou nos distrai e pode ser simplesmente uma decoração à própria celebração. Aí caímos no rubricismo, porque o rubricismo não é apenas seguir o que vem a vermelho no missal, mas é supervalorizar o que é secundário em detrimento do que é essencial.

Apesar de não haver fiscalização do canto litúrgico, que regras podem/devem ser seguidas por quem deseje criar novos cânticos para a Eucaristia?

Bom, há regras definidas pela Comissão Nacional da música sacra e litúrgica, há uma comissão episcopal para a liturgia, e depois há a supervisão para a Congregação do Culto Divino e dos Sacramentos, e é dentro desses padrões que se orienta o cântico litúrgico. Por vezes há alguma confusão entre os cânticos de convívio e de oração pessoal e comunitária, e os cânticos da oração litúrgica. O grande referencial é o cântico gregoriano, mas há muitas outras formas de o fazer, com vários instrumentos, sendo que o órgão é o mais nobre na própria celebração litúrgica.

Orgão, viola, flauta… nada mais?

Todos os que se liguem com o espírito da própria liturgia, que não sejam ruído ou distração, mas que concentrem e ao longo da tradição da Igreja foram consensualmente aceites, para não estar a impor nem gostos nem sensibilidades à comunidade, mas receber o que é património comum dessa mesma tradição e essência da fé.

Abertura dos ministérios instituídos às mulheres

Damos a devida importância aos ministérios laicais? Porque é que não se faz instituição de leitores e acólitos sem ser de pessoas que estejam no caminho sacerdotal?

Há que cuidar muito mais e que a Igreja apareça como Igreja ministerial. Não só no sentido dos ministérios ordenados, os instituídos e os designados, mas toda a Igreja ao serviço. O ministério ao serviço do mistério. É importante realçar alguns serviços na comunidade, para que sejam mais valorizadas essas dimensões e esses elementos constitutivos da liturgia e da vida da comunidade. Concretamente, os leitores e os acólitos que não deveriam só ser em função do diaconado permanente ou do sacerdócio, mas como exercício normal na vida da comunidade. Aqui a questão que se coloca é que neste momento estão só abertos aos homens e isso poderia criar alguma injustiça no seio da comunidade, e então há os ministérios designados que estão a ser usados para os leitores, acólitos e outras formas de serviço.

A Igreja pode vir a contemplar mulheres a serem instituídas leitoras e acólitas?

É um caminho que a Igreja fará, e algumas conferências episcopais veem isso como um caminho a seguir e têm-no apresentado. Não excluo que isso possa acontecer.

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