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A queda do Iraque

© AHMAD AL-RUBAYE / AFP

Robert Spencer - publicado em 13/06/14

A jihad entre sunitas e xiitas é mais intensa hoje do que nos últimos séculos

O grupo Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS, na sigla em inglês) acaba de tomar as cidades iraquianas de Mossul e Tikrit e está prestes a controlar a maior refinaria de petróleo do país, o que indica que a jihad entre muçulmanos sunitas e xiitas está mais furiosa hoje do que nos últimos séculos e não se aplacará tão cedo.

O ISIS, que é sunita, agora "governa efetivamente um território cujo tamanho é comparável ao dos países vizinhos e que se estende da borda oriental da cidade síria de Aleppo até Faluja, no oeste do Iraque, passando a incluir também, depois deste ataque, a cidade iraquiana de Mossul", informa o Washington Post.

Além do mais, seus recursos são maiores que os dos inimigos para bancar um longo conflito. A ABC News relata que os jihadistas "saquearam 429 milhões de dólares de bancos de Mossul, o que os torna mais ricos do que alguns pequenos países".

O primeiro-ministro xiita do Iraque, Nouri al-Maliki, prometeu, porém, retomar a cidade, atribuindo a sua queda a uma "conspiração". E acrescentou: "O importante agora é que estamos trabalhando para resolver a situação. Estamos fazendo os preparativos e reagrupando as forças armadas encarregadas de limpar Nínive daqueles terroristas".

Maliki até poderia conseguir limpar a região dos jihadistas sunitas, já que tem o respaldo da República Islâmica do Irã, apoiadora do regime do alauíta Bashar Assad na Síria. Mas é improvável que eles consigam a vitória total, porque jihadistas sunitas de todo o mundo se reuniram na Síria para combater Assad. Além disso, Maliki acusou a Arábia Saudita e o Qatar de apoiarem os jihadistas sunitas no Iraque.

Analistas americanos esperaram ingenuamente que sunitas e xiitas “superassem tudo isso”. A então secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, queixou-se em janeiro de 2007: "Ainda existe uma tendência a enxergar esta situação de pontos de vista sunitas e xiitas. Mas o Oriente Médio vai ter que superar isso".

Sete anos depois, eles não “superaram”. Na verdade, essa divisão entre sunitas e xiitas tem 1.400 anos de idade e remonta às origens obscuras do islã: a ideia de “superá-la” sem maiores dificuldades manifesta esplendidamente a superficialidade da análise de Washington sobre o Oriente Médio, tanto no governo de Bush quanto no de Obama.

Alheia aos analistas e formuladores de políticas que influenciaram Washington durante décadas, a divisão entre sunitas e xiitas não pode ser superada por meio de negociações, subornos ("ajuda") ou qualquer outra coisa, mas apenas pela rendição completa de um grupo ao outro, o que não vai acontecer. A divisão deriva, em ambos os lados, de diferentes interpretações “linha dura” do islã, que rotulam o lado oposto de “infiel”: portanto, de pessoas que legitimamente podem ser mortas.

A tradição islâmica afirma que, após a morte de Maomé (632 d.C.), a comunidade muçulmana escolheu seu companheiro Abu Bakr para sucedê-lo como califa, liderando-os militar, política e espiritualmente. Mas um grupo achava que a liderança pertencia por direito a Ali ibn Abi Talib, enteado de Maomé e um dos seus primeiros seguidores, e, depois dele, a um membro da família do profeta.

Ali acabou se tornando califa depois de Abu Bakr ter sido sucedido por outros dois companheiros de Maomé, Umar e Uthman, mas foi assassinado apenas alguns anos depois. No ano 680, seu filho Hussein foi morto em batalha com o califa Yazid I em Karbala, no Iraque. Com isto, formalizou-se de modo amargo e eterno a divisão entre aqueles que acreditavam que o califa deveria ser o melhor homem da comunidade (sunitas) e os que acreditavam que os muçulmanos deveriam ser liderados por um parente de Maomé (xiitas).

Não há muita diferença doutrinal entre os dois campos, mas cada um acredita que o outro se afastou da verdade do islã. Cada lado, principalmente os xiitas, guarda rancores seculares de injustiças antigas. A divisão, portanto, não está nada perto de “ser superada”. Saddam Hussein a mantinha sob certo controle no Iraque por meio da força bruta, mas agora, com um governo xiita no comando do país, os sunitas estão determinados a retomar o poder e os xiitas a mantê-lo, ajudados por seus patronos iranianos.

É a receita para uma guerra quase sem fim. Enquanto isso, a força do ISIS, a determinação xiita de reconquistar o território perdido e a possibilidade muito real de que uma guerra entre sunitas e xiitas se abata sobre todo o Oriente Médio são monumentos sombrios à análise equivocada de Washington.

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