Aleteia logoAleteia logo
Aleteia
Segunda-feira 01 Março |
São Félix III (II)
home iconReligião
line break icon

Oração de muçulmano no Vaticano: traição ou mal-entendido?

Tony Assaf - Aleteia Vaticano - publicado em 23/06/14

Durante o encontro promovido pelo papa Francisco no último dia 8 de junho, o representante muçulmano acrescentou uma frase pedindo a "vitória sobre os infiéis", que foi interpretada como provocação

Algumas vozes se levantaram depois do encontro de oração organizado pelo papa Francisco no domingo de Pentecostes, 8 de junho, do qual participaram os presidentes palestino, Mahmoud Abbas, e israelense, Simon Peres.

Essas vozes não se levantaram para criticar o grande acontecimento, considerado por muitos, e com toda a razão, como um “pequeno milagre”. Elas se levantaram para criticar as palavras pronunciadas pelo xeque no final do encontro, quando ele recitou as invocações dadas pela comunidade muçulmana nos jardins do Vaticano.

As invocações, naturalmente, foram pronunciadas em árabe. O texto não estava traduzido nem constava no folheto distribuído ao público. Mas o problema de fundo é outro.

Isto é o que foi dito pelo xeque:

“O Mensageiro acreditou no que lhe foi revelado por seu Senhor, e também os crentes: todos acreditaram em Alá, em seus anjos, em seus livros e em seus mensageiros (dizendo): ‘Nós não fazemos nenhuma distinção entre os seus mensageiros’. E eles disseram: ‘Nós escutamos e obedecemos. Senhor, imploramos o teu perdão. A Ti será o retorno’ (versículo 285). Alá não impõe a nenhuma alma uma carga superior à sua capacidade. Esta será recompensada pelo bem que tiver feito e castigada pelo mal que tiver feito. Senhor, não nos castigues se chegamos a esquecer ou a cometer um erro. Senhor! Não carregues sobre nós um fardo pesado como o que carregaste sobre aqueles que viveram antes de nós. Senhor! Não nos imponhas o que não podemos suportar, apaga as nossas faltas, perdoa-nos e tem misericórdia de nós. Tu és nosso Mestre; concede-nos, pois, a vitória sobre os povos infiéis”.

O problema está nos últimos versículos da segunda sura do alcorão (Al Baqarah), especialmente a última frase: “Tu és nosso Mestre; concede-nos, pois, a vitória sobre os povos infiéis”.

Quem são esses “infiéis”? E por que o xeque escolheu recitar esses versículos durante um encontro de oração que congregava cristãos, muçulmanos e judeus?

Não tardaram a surgir algumas reações fortes, em particular na França, onde a direita viu neste versículo uma traição por parte do xeque e se apressou a relacionar o versículo com outros que o precedem, como o 191: “E matá-los onde os encontrardes”, que instaria a matar os cristãos.

A acusação foi formulada assim: “A oração pela paz foi encerrada por um chamamento à guerra contra os cristãos e contra os judeus. E isto sob o olhar do papa e dentro da sua casa”.

O pretexto do acusador: “Se não fosse assim, por que o texto não aparecia no folheto? O xeque tentava escapar à censura?”

E se a verdade fosse outra…

A verdade dos fatos e a opinião do especialista

Acusações desse tipo são propícias para enfraquecer a plataforma de entendimento comum e para dar um golpe duro contra as relações que a Santa Sé vem se esforçando para estabelecer com os muçulmanos.

Por isso, e como temos que apoiar a Santa Sé em geral e o Santo Padre em particular neste percurso rumo à paz, precisamos esclarecer o que aconteceu e impedir toda tentativa de falsificação dos fatos e de ocultação do principal objetivo deste encontro desejado pelo papa.

Aleteia conversou com o Dr. Adnan Al Mokrani, professor muçulmano da Universidade Pontifícia Gregoriana e do Instituto Pontifício de Estudos Árabes e de Islamologia.

Al Mokrani explicou que, assim como muitos muçulmanos, ele próprio recita esses versículos nas suas orações diárias e que a palavra “infiéis” não designa, em nenhum caso, no Alcorão, os judeus e os cristãos, embora alguns muçulmanos a tenham usado ao longo da história para designar os não muçulmanos em geral.

Al Mokrani afirma que, em árabe, o significado etimológico da palavra é “a cobertura”. Um dos versículos do Alcorão qualifica aos agricultores de infiéis, “Kouffar”, para dizer que eles cobrem a terra de sementes ao cultivá-la.

  • 1
  • 2
Tags:
DiálogoMuçulmanosOração
Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • Aleteia é publicada diariamente em sete idiomas: inglês, francês,  italiano, espanhol, português, polonês e esloveno
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

Oração do dia
Festividade do dia





Top 10
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia