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A queda de Mossul, milenar cidade cristã do norte do Iraque

HAIDAR HAMDANI /AFP
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Para quem se importa com a história do cristianismo, essa tragédia é quase o fim do mundo

Em 10 de junho de 2014, a cidade de Mossul foi tomada pelas forças do grupo extremista ISIS, ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante, pela sigla em inglês. Da perspectiva política, esta é uma catástrofe para as esperanças americanas de preservar a estabilidade a duras penas imposta à região, além de um iminente desastre humanitário. Particularmente atingidos são os cristãos locais, que não têm nenhum desejo de viver sob o domínio jihadista. Uma história comovente publicada no jornal britânico The Telegraph anunciou há poucos dias que os "cristãos sitiados do Iraque fazem a derradeira tentativa de resistência na linha de frente de Mossul".
 
Muito tem sido divulgado a respeito, mas o que tem faltado na mídia é dizer o quanto Mossul é crucialmente importante para a bimilenar história cristã. Embora a destruição da Mossul cristã venha se perfilando há muitos anos, o seu fim já prestes a se tornar um fato ainda é chocante. A melhor maneira de descrever as implicações deste desastre é imaginar a aniquilação de algum grande centro europeu da fé, como Assis.
 
Mossul foi um antigo centro assírio que continuou a florescer durante a Idade Média. A cidade já registrava a presença cristã no século II d.C. e foi uma base vital para a Igreja do Oriente, a chamada Igreja nestoriana, que fez dela a sua sé metropolitana. Também estiveram presentes na região os chamados monofisitas. Essas igrejas usavam o siríaco, idioma próximo ao dos apóstolos. Aldeias de língua siríaca ainda sobrevivem na área de Mossul.
 
A cidade esteve no centro de uma rede de mosteiros, alguns dos quais entre os primeiros e mais influentes de todo o movimento monástico. A 50 quilômetros de Mossul, encontramos os mosteiros de Santo Elias e de São Mateus (Mar Mattai), do século IV; os de Rabban Hormizd e Beth Abhe, do VI ou VII, e muitos outros, como o Mar Bihnam, o Mar Gewargis (São Jorge), o Mar Mikhael (São Miguel). Como na Europa Ocidental, essas casas monásticas foram de fundamental importância para a grande tradição da fé e do aprendizado cristão, sem ficar devendo nada a lugares lendários como Monte Cassino. Em seu auge, Mar Mattai foi um dos maiores mosteiros de todo o mundo cristão, abrigando em seus muros milhares de monges.
 
Existe um registro precioso desse mundo perdido nos escritos de Tomás de Marga, cujo “Livro dos Governadores” compila as vidas de monges siríacos e de homens santos. Tomás menciona dezenas de nomes de pequenas casas religiosas na região de Mossul, a maioria das quais é quase impossível localizar hoje em dia. Os restos de muitas delas, provavelmente, sobrevivem sob mesquitas iraquianas em vilarejos da região. O norte do Iraque já foi tão densamente semeado de mosteiros e de ermidas quanto a Irlanda.
 
A Igreja do Oriente nunca teve a bênção mista de uma aliança estreita com um poder secular amigável. No século III, a região de Mossul foi governada pela Pérsia e, no VII, foi tomada por comandantes muçulmanos. Durante séculos, no entanto, aquelas igrejas e mosteiros continuaram seguindo o seu bem estabelecido caminho. Nas histórias do imponente polímata Gregório Bar Hebraeus, do século XIII, a região de Mossul ainda se apresentava como um dos centros do universo cristão (o próprio Gregório foi enterrado no Mar Mattai). Quando emissários cristãos da China mongol viajaram pelo Oriente Médio por volta de 1280, visitando os principais centros da fé, Mossul foi, naturalmente, um dos destaques do itinerário.
 
Após o século XIII, Mossul passou por tempos duríssimos e saiu devastada das guerras mongóis. Mesmo assim, a vida cristã persistiu nas casas religiosas circundantes. Podemos ter uma ideia desta situação com base em inestimáveis e antigos manuscritos cristãos siríacos, como a Caverna dos Tesouros, hoje no Museu Britânico. O manuscrito foi copiado em 1709 pelo erudito sacerdote Homô, filho do sacerdote Daniel, que viveu em Alqosh, perto de Mossul. Sem o trabalho dedicado de estudiosos como ele, o nosso conhecimento do cristianismo oriental antigo seria muito mais pobre.

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