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Milhões de católicos fogem da fome em um dos países mais miseráveis do mundo: a Irlanda

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Hoje parece mentira, mas esta já foi a brutal realidade da próspera ilha que ajudou a impulsionar a fé católica nos Estados Unidos

No início dos anos 1800, a Irlanda era um país em estado de sítio. A pobreza e os conflitos destruíam a vida de inúmeros católicos irlandeses. Para eles, a vida toda era um choque entre "os que têm" e "os que não têm", entre os protestantes e os católicos, entre os ingleses e os nativos irlandeses.
 
Foi naquela Irlanda devastada que nasceu Patrick Hoy.
 
E quem era Patrick Hoy?
 
Ele veio ao mundo em 1803. Ele era um dos "que não tinham". A obscuridade da sua história é quase total. Literalmente nada se sabe sobre os pais dele, nem sobre o local em que ele nasceu. Apesar de tudo isso, podemos reconstituir a trajetória de Patrick Hoy a partir dos fatos que conhecemos hoje sobre os imigrantes irlandeses que partiram para a América do Norte nas décadas de 1830 e 1840, bem como com base em episódios da história da família registrados nos arquivos do navio que os levou para os Estados Unidos e em dados do censo norte-americano de 1860.
 
A Irlanda de Patrick Hoy
 
A Irlanda era um país agrícola de oito milhões de habitantes, que figuravam entre os mais pobres de todos os países pobres. A expectativa de vida era cerca de metade do que é hoje: 40 anos, tanto para homens quanto para mulheres. Muitas mães morriam no parto. A taxa de mortalidade infantil era assustadora. Ser irlandês era sinônimo de sofrer e ser oprimido.
 
Uma revolta nacionalista irlandesa foi brutalmente esmagada pelos ingleses em 1798. Os enforcamentos eram comuns. Em 1800, a Irlanda foi formalmente anexada à Inglaterra. Os católicos se viram excluídos do Parlamento. Os protestantes eram donos de 95% das terras da Irlanda.
 
À medida que o século avançava, só aconteciam algumas melhoras marginais. A emancipação católica veio em 1829, graças aos esforços heroicos do advogado Daniel O’Connell. Ainda assim, uma pesquisa britânica feita de 1835 mostra que 75% dos trabalhadores irlandeses estavam sem emprego e muitos se viam obrigados a viver como mendigos.
 
O horror da fome
 
Fugindo da miséria do seu país ocupado, um milhão de irlandeses partiu da ilha entre 1815 e 1845, incluindo a minha família, os Hoys. O que mais nos espanta hoje, porém, é o horror que ainda viria depois: a epidemia de fome.
 
Em apenas seis anos, um em cada oito irlandeses morreu. De fome.
 
Entre 1845 e 1851, outro milhão de irlandeses partiu ou foi expulso da sua ilha natal. As estatísticas são estarrecedoras. Em 1880, a população da Irlanda tinha diminuído 30%, uma queda inigualável em toda a história da Europa moderna.
 
Patrick Hoy consegue escapar
 
Como a maioria dos seus compatriotas, Patrick Hoy era um trabalhador da terra e um batalhador que “sobrevivia de bicos”. Trabalhava para os outros e, não tendo nada, ainda pagava aluguel com seu salário de miséria. Patrick se casou com Catharine e o casal teve um filho, a quem também batizou como Patrick, em 1833. É muito provável que a família morasse em um rancho de quarto único, sem janelas, feito de pedras e barro.
 
De alguma forma, aos 33 anos, Patrick tinha conseguido poupar o suficiente para fugir da miséria com a jovem família e ir embora para o Novo Mundo. Em 1836, quando a grande fome ainda nem era imaginada na Irlanda, eles provavelmente partiram de Dublin para Liverpool, na Inglaterra, um dos principais portos de onde zarpavam os navios rumo à esperança na América do Norte.
 
A jornada
 
A passagem de Hoy deve ter custado entre 3 e 5 libras: simplesmente o salário de um ano inteiro. O valor era apenas para chegar de Liverpool até os EUA. Não incluía o custo da viagem prévia entre Dublin e a Inglaterra.
 
Em Liverpool, a família deve ter passado por um exame médico, para atestar que não tinham nenhuma doença contagiosa. Um ou dois dias depois, eles teriam embarcado no Dalmatia.
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