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O jihadismo está destruindo o nosso patrimônio

YOUSSEF KARWASHAN /AFP

Philip Jenkins - Aleteia Vaticano - publicado em 17/07/14

Talvez estamos entrando na era do terrorismo do patrimônio

Uma vez encontrei um autêntico herói, um homem que tinha feito coisas notáveis para preservar e defender a herança cultural humana. Era Donny George (Youkhanna), o cristão assírio que ocupava o cargo de Diretor Geral do Museu Nacional do Iraque, depois da invasão dos aliados em 2003. Com esforços sobre-humanos e uma grande coragem, ele recuperou milhares de artefatos antigos roubados ou perdidos no caos, salvando assim uma porção importante dos primeiros rastros da civilização.

Tragicamente, o mundo poderia ter necessidade de muito mais indivíduos deste tipo.

Em um belo artigo publicado recentemente, Christopher Dickey advertiu que “O EIIL vai destruir a história bíblica no Iraque”, mostrando provas do fato de que o Estado Islâmico do Iraque e do Levante já destruiu muitos tesouros em museus que estavam sob seu controle e que os jihadistas estão vendendo outros para financiar as próprias atividades. Dickey ressaltou um perigo crítico, mas é parte de uma ameaça muito mais ampla e hereditária mundial. Por quanto o EIIL possa ser insano, não iniciou esta tendência, que pode ser associada também a alguns dos mais estreitos aliados do Ocidente na região. Tudo é contra os locais cristãos, ou judaicos (ou pagãos).

Desde os primeiros séculos, o islamismo proclamou a supremacia da palavra escrita, sobretudo do Alcorão. Apesar deste princípio, os muçulmanos rapidamente atribuíram santidade aos lugares e indivíduos particulares, a membros da família do Profeta, ou a xeques e santos mais recentes, e aos lugares a eles associados. Os muçulmanos de todo o mundo desenvolveram uma viva cultura de peregrinação a estes lugares santos, em duas cidades santas: Mecca e Medina. Desde o século XVIII, movimentos de reforma radical como o wahhabismo começaram a pedir a eliminação desta expressão rival de fé. Para os muçulmanos wahhabitas ou salafistas, estas ideias materiais de santidade são não islâmicas. Hoje, um peregrino que faça o mínimo gesto de respeito a um santuário, ou a uma tumba será severamente repreendido: “Não irmão, isto não é Sunnah!”.

Nos anos vinte, o wahhabismo acumulou poder na terra que hoje chamamos Arábia Saudita, e as consequências da hereditariedade cultural são catastróficas. Os sauditas destruíram impiedosamente casas, mesquitas e santuários associados ao mesmo Maomé, à sua família e aos seus primeiros seguidores. Demoliram lugares de santidade antiga e de imenso interesse histórico. Os principais grupos muçulmanos protestaram repetidas vezes, mas em vão. 

As ações sauditas estabeleceram um obstáculo muito alto para os movimentos islâmicos e extremistas de todo o mundo ansiosos para experimentar as próprias credenciais puritanas e sua recusa absoluta da idolatria, ou do sincretismo. Pensemos na destruição das obras dos talibãs, as figuras de Buda e Bamiyan, no Afeganistão em 2001, ou a carnificina nos templos e sobre as tumbas islâmicas em Mali em 2012, sobretudo em volta da grande cidade de Timbuktu. No Mali, os destruidores pertenciam ao grupo ligado à al-Qaeda Ansar Dine, Defensores da Fé. 

Uma vez que um movimento inicia aquela estrada, tem várias opções sobre como se livrar dos objetivos e lugares “ofensivos”. A simples destruição atinge o propósito e serve também como instrutiva demonstração para quem os assiste. O fato que um lugar supostamente sacro possa ser destruído sem consequências para os ativistas – nenhuma intervenção angélica, nada de chuva de sangue – envia uma poderosa mensagem de que Deus não se importa e não o protegerá.

São possíveis outras estratégias. Como ressalta Dickey, grupos como o EIIL podem desprezar e detestar as antiguidades que chegam a suas mãos, mas não há nenhuma razão pela qual eles não devam lucrar. Usando uma analogia, em 1933, o novo governo soviético vendeu o famoso livro do Evangelho, o Codex Sinaiticus, para a Grã-Bretanha. Se os crentes queriam pagar por isto, por que os comunistas não deveriam aproveitar os desejos supersticiosos deles e usar o dinheiro para promover a causa da revolução mundial?

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Tags:
MuçulmanosMundoTerrorismo
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