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“Pessoas que abortaram há 35 anos nos ligam e choram muito”

© Todo-Juanjo

Aleteia Vaticano - publicado em 22/07/14

As feridas do aborto são profundas. Se a pessoa não vive um processo de cura, não melhora nem mesmo com a confissão

Por Samuel Gutiérrez

“Um aborto destrói muitas vidas. Queremos ajudar a recuperar uma: a sua”. É assim que Gerard Manresa e Teresa Lamarca, os coordenadores, apresentam o Projeto Rachele, em Barcelona (Espanha). O projeto é uma iniciativa de caráter diocesano que quer oferecer orientação e ajuda às pessoas que sofrem por consequência do aborto.

No que consiste o Projeto Rachele?
Em primeiro lugar quer ser uma resposta ao drama do aborto. É uma proposta da Igreja de caráter diocesano formada por uma rede de pessoas entre psicólogos, psiquiatras e sacerdotes formados, de modo particular, para assistir e acompanhar as pessoas que vivem as consequências do aborto. É oferecido um caminho de esperança, de reconciliação e de cura, onde no centro existe sempre o perdão.

Por que teve início na Espanha?
Percebemos que havia uma lacuna. Trata-se de uma sociedade onde o aborto é um direito e libertação, não se prevê a possibilidade que exista contra-indicações e produza consequências negativas para a pessoa. Não se estuda nem mesmo a síndrome pós-aborto, que é muito forte, e quando a pessoa sofre muito, não é compreendida. O aborto provoca uma ferida que atinge todas as dimensões da pessoa. Encontramo-nos diante de pessoas que abortaram há 35 anos e que nos telefonam e começam a chorar. As feridas do aborto são profundas. Se a pessoa não vive um processo de cura, não melhora nem mesmo com a confissão. As pessoas se sentem culpadas, sobretudo as mulheres, que não se perdoam. Têm necessidade de saber que são perdoadas por Deus e por seus filhos, e ao mesmo tempo que se perdoam.

Toda mulher e todo homem que decide abortar sofre da síndrome pós-aborto?
Ao início existe sempre um período de negação, que pode ser mais ou menos longo, podendo durar até anos. Chega um momento na vida, motivado por um fator provocante, onde estas dores despertam. Mais cedo ou mais tarde, termina por eclodir e pode chegar a ser fonte de grande angústia. É um peso que provoca amargura e tristeza, mas também ansiedade, baixa autoestima, sentimentos de culpa e de falência, rancor, isolamento, impotência. Muitas vezes as pessoas sonham com o filho. Estão convencidas que esteja vivo. Também dizem que se trata somente de qualquer célula, mas sabem que tem algo a mais.

O que propõe para curar estas feridas?
A chave é a misericórdia de Deus, mas é preciso antes preparar o terreno. O nosso projeto propõe um itinerário que inicia com o conhecimento e a compreensão daquilo que aconteceu. É preciso abrir as feridas, mesmo se for doloroso, para depois poder curá-las. A ferida do aborto é sobretudo uma ferida interior, espiritual, que se manifesta psicologicamente e também fisicamente. É importante que as pessoas exprimam e reconheçam a própria história. É preciso superar os mecanismos de defesa e abrir-se à verdade. A partir dali os consultores, com o apoio de especialistas, guiam em direção à reconciliação. Uma vez recebido o perdão de Deus, resta um outro passo importante: é preciso passar para o luto e reconciliar-se com o bebê. Ajuda muito saber que o filho vive e perdoa os pais. A experiência nos diz que nas pessoas que completaram o percurso existe um “antes”, e um “depois”.

Tags:
AbortoDeusFilhosIgrejaVida
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