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A situação real dos cristãos perseguidos na Nigéria

UN/Alberto Farran

Aleteia Vaticano - publicado em 23/07/14

Em entrevista, o cardeal John Onaiyekan conta a sua versão da história

A Nigéria passa por uma situação dramática. O grupo extremista militante Boko Haram ainda não libertou as duzentas meninas raptadas há dois meses. Os militares esperam que a Assembleia Nacional do país aprove uma verba de 1 bilhão de dólares para combater o grupo.

A insurgência violenta do Boko Haram vem se tornando cada vez mais brutal desde 2009, quando o grupo foi formado com o objetivo de implantar um governo puramente islâmico. Várias igrejas cristãs foram atacadas e muitas pessoas foram sequestradas ou assassinadas. O presidente Goodluck Johnathan foi alvo de críticas por não lidar adequadamente com a facção terrorista.

Aleteia conversou com o cardeal John Olorunfemi Onaiyekan, de Abuja, capital da Nigéria, sobre a sua visão do real sofrimento dos cristãos da Nigéria.

Eminência, qual é a situação real do sofrimento dos cristãos na Nigéria?

Cardeal Onaiyekan: A informação divulgada pela mídia internacional é verdadeira, mas não conta a história completa. A BBC, a Al-Jazeera, a CNN, todas elas falam sempre das coisas ruins, das bombas, dos assassinatos, dos incêndios. Eles nunca têm tempo para falar dos esforços que os nigerianos estão fazendo para viver todos juntos, para isolar os desordeiros e para construir uma nação pacífica.

Pode haver alguns muçulmanos na Nigéria que querem distância dos cristãos, mas também há cristãos que querem distância dos muçulmanos. Mas essas pessoas são poucas. Existem extremistas nos dois lados. Na grande maioria, nós, nigerianos, estamos acostumados a viver todos juntos.

No âmbito social, você não nota as diferenças entre cristãos e muçulmanos: todos nós nos vestimos de modo semelhante, vamos aos mesmos mercados, aos mesmos escritórios, às casas do governo; todos nós temos as mesmas forças armadas e a mesma polícia. Então, quando as pessoas dizem que os muçulmanos estão matando os cristãos, nós, na Nigéria, respondemos: “Não, por favor, não fale assim”.

Nós queremos deixar claro que estamos muito envergonhados por causa das atividades desse pequeno grupo de fanáticos muito perigosos e perversos, que são um problema também para os muçulmanos.

Eu sempre digo ao meu povo na Nigéria: “Não pensem que o terrorismo é só contra os cristãos. O Taleban no Paquistão é contra os muçulmanos no Paquistão. As pessoas que a Al-Qaeda está matando no Iraque e no Afeganistão são muçulmanas também”.

Nós, na Nigéria, temos que entender isso e, sendo cristãos ou muçulmanos, temos que dar as mãos para lidar com esse grupo. As coisas que o Boko Haram tem feito são muito estranhas a nós. Nunca teríamos acreditado, há cinco anos, que iríamos ter um grupo desses na Nigéria.

Existe lugar para o cristianismo na sociedade e no governo nigeriano?

Nós, como cristãos na Nigéria, vivemos num ambiente em que não há segurança adequada, então não há maneira de evitarmos a matança de cristãos, porque eles estão matando todo mundo. Às vezes, eu sei que, como grupo islâmico, o Boko Haram mira os cristãos, mas não é que nós, cristãos na Nigéria, estejamos sentindo uma particular perseguição, pela simples razão de que nós não somos uma parte fraca; nós somos numerosos, temos poder econômico, temos influência política. Aqui, os cristãos e os muçulmanos vivem num equilíbrio muito maior do que em outros países.

O que acontece, infelizmente, é que os muçulmanos são mais propensos a defender o islã e rejeitar tudo o que é contra o islã. E os cristãos, infelizmente, muitas vezes não se levantam para defender o cristianismo e acabam permitindo muitas coisas que não são a favor do cristianismo. E dizem que devemos nos separar da política.

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Tags:
ÁfricaMundoPerseguição
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