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As incompreensões no livro da entrevista do Papa Francisco

@DR
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Nunca devemos esquecer que, além da clareza de quem expõe, existe também a capacidade de compreensão de quem escuta

Questão

Caro padre,
Em minha casa compramos o livro do diálogo entre o Papa Francisco e Scalfari, olhei um pouco, mas li duas afirmações que me deixaram perturbado: “Cada um de nós tem sua visão do Bem e do Mal. Precisamos estimulá-lo a prosseguir em direção daquilo que pensa ser o Bem” e “Aqui repito. Cada um tem sua ideia do Bem e do Mal e precisa escolher seguir o Bem e combater o Mal da maneira que o concebe. Bastaria isso para melhorar o mundo”.
Nesses dias termina a campanha em defesa do embrião humano e me ocorreu de falar várias vezes com algum amigo, ou parente em relação à dignidade do concebido. Ao que me parece das palavras do Papa, porém, eu não me esforçaria para fazer com que meu interlocutor compreendesse o valor de cada ser humano que ainda não nasceu, mas deveria “estimulá-lo a prosseguir em direção daquilo que pensa ser o Bem” (ou seja, a experimentação com embriões e “direitos” similares). E se me encontrasse diante de um nazista, terrorista, ou qualquer outro deveria “estimulá-lo” a continuar pela estrada "que pensa ser certa"? No mundo se encontra um certo relativismo ético pelo qual um acreditava ser bom e justo o sacrifício humano, outro o casamento com a própria irmã, outros ainda a prática do aborto e assim por diante. A tarefa do cristão é acomodar erros mais ou menos graves da consciência como estes ou exercitar uma decisiva “correção fraterna”?
O senhor pode me esclarecer as palavras do Papa?
Obrigado

Resposta do sacerdote

1. Agradeço pela paciência em esperar minha resposta. Durante a espera aconteceram muitas coisas: a revogação da entrevista por parte do L’Osservatore Romano e depois a declaração de Scalfari, que disse que não teria levado o gravador, ou seja, a entrevista continha mais ou menos as palavras do Papa. O conteúdo da entrevista assustou muitos pelo teor das afirmações erradas e inaceitáveis. Agora sabemos que aquelas não eram as palavras do Papa, mas do entrevistador Scalfari, que “traduziu” com suas palavras o que o Papa tinha dito. 

2. Voltemos à expressão que me colocou: “Cada um de nós tem sua visão do Bem e do Mal. Precisamos estimulá-lo a prosseguir em direção daquilo que pensa ser o Bem”. Esta afirmação faz pensar que não existam critérios comuns e objetivamente válidos por todos para determinar aquilo que é o bem e aquilo que é o mal. A lei moral é relativa. Mas essa é uma afirmação errada e negada pela Sagrada Escritura e várias intervenções do Magistério.

3. Segundo o ensinamento da Igreja existem normas objetivas e conhecidas por todos. Essas constituem o primeiro grupo dos princípios morais, ou de valores que se formam logo que a razão é aplicada para dirigir uma ação. São idênticas em todos os homens e não podem ser corrompidas. Praticamente se identificam com a chamada sindérese, e aos primeiros princípios morais da consciência. A essas normas se refere São Paulo quando diz que também os pagãos, que não têm a lei de Moisés, seguem todavia a consciência deles, a sua luz e pronunciam as avaliações deles: “Os pagãos, que não têm a lei, fazendo naturalmente as coisas que são da lei, embora não tenham a lei, a si mesmos servem de lei; eles mostram que o objeto da lei está gravado nos seus corações, dando-lhes testemunho a sua consciência, bem como os seus raciocínios, com os quais se acusam ou se escusam mutuamente” (Rm 2,14-15).

4. A esta lei se refere também o Concílio Vaticano II quando afirma: "No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado. A consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser (10). Graças à consciência, revela-se de modo admirável aquela lei que se realiza no amor de Deus e do próximo" (GS 16).

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