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O gesto da paz, um rito com raízes profundas

© Public Domain
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Recente documento de Congregação vaticana reacende debate sobre o gesto da paz, interpretado de muitas maneiras

O documento enviado há alguns meses pela Congregação para o Culto Divino aos episcopados do mundo pede que o “gesto da paz”, rito que pertence ao momento da Eucaristia na celebração da missa, seja realizado com sobriedade e moderação, e sobretudo que se reveja a prática de acompanhá-lo com cantos específicos. A Aleteia entrevistou um especialista em Liturgia e Teologia Sacramental, o professor Andrea Grillo, da Universidade Pontifícia S. Anselmo de Roma, e do Instituto de Liturgia Pastoral de Pádua, para conhecer melhor este gesto do rito litúrgico.

Qual é a história do gesto da paz?

É preciso esclarecer algo que mesmo nos documentos mais recentes não parece ser muito claro. O rito da paz é uma antiga tradição eclesial que se coloca mais ou menos no âmbito dos ritos de comunhão. É a expressão do sentido da comunhão cristã, é dom do Senhor e desta maneira não é colocado entre os ritos do ofertório. As reivindicações históricas do primeiro milênio são muito fortes e significativas, e se diz também de uma corporalidade do ato, do beijo de paz que atravessa a assembleia. Na Idade Média este rito tendeu sempre mais a se contrair, até que permaneceu presente apenas na Missa Solene e desapareceu completamente da missa comum. A reforma litúrgica de 1970 fez o grande gesto de colocar novamente, de maneira estrutural, o rito da paz com um sinal, em cada missa que é celebrada. Algumas pessoas ainda se assustam com o beijo da paz, por isso, de forma mais usual, saúdam-se com um aperto de mão. Este gesto é cheio de sentido eucarístico: de fazer comunhão e também deixar-se doar a paz através de Cristo, que se comunica aos próximos.

Qual é a preocupação da Igreja?

A preocupação por parte das autoridades da Igreja é dar certo um tipo de previsibilidade ao gesto, no sentido que não seja cada comunidade que decida, sendo às vezes quase imperceptível ou outras vezes que dure 15 minutos. Ou seja, a Igreja quer encontrar um meio termo, e esta é uma boa intenção. A intenção que é um pouco menos compartilhada é o medo do gesto. Parece que o último documento deixa transparecer certo temor de que o gesto seja feito de maneira muito visível. A coisa mais surpreendente é que no texto está indicado que onde existam problemas é melhor não fazê-lo. Isto é muito grave, porque é verdade que é possível cair em abusos, mas eu não definiria um abuso o fato de existirem cantos associados ao rito da paz, por exemplo. Mas quando um rito toma a sua evidência, e o rito tem evidência maciça nos últimos 50 anos, é normal que em uma Igreja, que pensa naquilo que faz, nasça a exigência de ressaltar aquele gesto também com o canto. Obviamente é um canto controlado, sincronizado também com os outros cantos. 

Algumas vezes acontece de encontrar sacerdotes que “pulam” o rito da paz?

Sim, porém esse não é um bom remédio. É claro que tem um sintoma de um desconforto eclesial se o rito da paz se torna um rito que ocupa mais tempo que o rito de comunhão. Desta maneira não pode ser. Mas também é um erro cancelar o rito, ou vivê-lo com dificuldade porque os cristãos, sendo todos filhos de um único Pai e todos os irmãos, comem o mesmo pão, bebem num único cálice e podem se abraçar, tocar a mão, se beijar, para dizer “a paz de Cristo”. Se não o fazem, perdem algo. O documento diz: tudo está já na Eucaristia. Sim, tudo já está na Eucaristia sacramental, mas a Eucaristia se torna um pão, um cálice, um certo modo de compartilhá-lo, e se torna também um certo modo de se ensinar com a paz. 

O senhor pensa que esta seja a posição do Papa Francisco?

Não, penso que esta seja na verdade um fruto da ideia de uma Congregação. O Papa assina uma série de documentos, mas este é o fruto de uma Congregação que tem feito, desde 2001, uma série de documentos que tendem a resistir às lógicas da reforma litúrgica. Este é um problema que certamente o Papa Francisco conhece. 

Não existe o risco que este documento seja visto como um exemplo de “medo do contato corporal” na Igreja?

Sem dúvida este é um dos motivos mais sérios. É verdade que a liturgia comporta algo corporal que tem significado: come-se, mas é como se não se comesse; bebe-se, mas é como se não se bebesse; dá-se o sinal da paz, mas sabe-se que a paz que tem mais valor não é aquela marcada só pelo gesto. E, todavia, a dimensão sacramental é corpórea, não se pode ter medo da expressão corpórea, enquanto a lógica do abuso, assim como é abordada no documento, é uma lógica que pede distância do gesto. Renunciar ao gesto significa renunciar a uma parte da comunhão eclesial e tornar a liturgia um lugar onde se aplicam normas, para além de um lugar onde se encontram as pessoas. 

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