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Como entender a violência que aparece na Bíblia?

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Mons. Jacques Perrier - publicado em 08/09/14

Como entender tantas passagens do Antigo Testamento que falam de guerras, violência e imoralidade?

A revelação do Deus-Amor é progressiva

A história de Israel é a história de uma educação. Por fases, Deus faz seu povo sair da violência em nome de Deus, até o dia em que Jesus diz: “Bem-aventurados os mansos”.

A redação da Bíblia se estende aos últimos séculos antes de Jesus Cristo. Mas a história da qual ela dá testemunho se estende a dois milênios. Quando se fala da Bíblia, é preciso conhecer em que momento da Revelação ela se situa. No começo da Bíblia, os primeiros capítulos do livro do Gênesis falam da criação e da origem da humanidade: a violência não tem sua origem em Deus.

É um fato: muitas páginas da Bíblia são extremamente violentas. Esta violência é um dos obstáculos para a leitura do Antigo Testamento. Também alimenta a rejeição às religiões, em particular às monoteístas: a Bíblia seria um manual de fanatismo que o cristianismo e o islamismo teriam herdado.

De onde vem a violência, segundo a Escritura? Ela não vem de Deus. A criação é um ato de poder, não de violência. O homem tem como missão, entre outras, estabelecer a ordem neste mundo inacabado, imperfeito. Seu domínio sobre o mundo criado tem por objetivo que a paz reine.

Mas a serpente, o Maligno sugere ao homem que, comendo do fruto proibido, será capaz de rivalizar com Deus. Marido e mulher não se ajudam na hora de resistir à tentação. Ao contrário, um arrasta o outro e se deixam enganar: é o pecado.

A primeira consequência do pecado é a violência. Em meio à rivalidade, Caim mata Abel. Deus quer acabar com o ciclo infernal da violência e protege Caim. Mas a violência continua.

E chega a tal ponto que, como diz a Escritura, Deus se arrepende de ter criado o homem. “A terra está repleta de violência por causa dos homens”, diz a Noé. Que a humanidade tenha um novo começo, a partir do único justo que Deus encontra: Noé e sua família! O dilúvio engole pecadores e pecados. Deus não se vinga, mas não pode deixar indefinidamente que se propaguem o mal, a injustiça, a violência, o pecado.

No final, como sinal de uma nova aliança com a humanidade, Deus faz surgir no céu um arco que reúne a humanidade de um extremo ao outro da Terra. O arco, arma de guerra, se torna um símbolo da paz; anuncia um investimento ainda mais radical: a morte de Jesus na cruz como fonte de salvação.

Certamente, esses primeiros capítulos da Bíblia utilizam uma linguagem de imagens. Mas só as mentes superficiais encararão isso com superficialidade. Os textos esclarecem a situação do homem, de todos os homens, antes de que se inicie, com Abraão, a história de Israel.

Para dar-se a conhecer aos homens, Deus escolheu um homem – Abraão – e sua descendência. Quando os israelitas se tornam numerosos no Egito, o faraó é violento com eles, especialmente mandando matar todos os recém-nascidos do sexo masculino. Deus sai em defesa do seu povo: isso é justiça.

Israel não nasceu na violência. Nasceu de um chamado: Deus chama Abraão e o convida a sair do seu país, transladando-se, como nômade, com sua família e seu gado. Ele mesmo é um homem de paz. Intercede diante de Deus a favor de Sodoma, cidade gravemente pecadora. Em caso de conflito pela utilização de um poço em Bersebá, chega a uma solução com o seu rival; faz inclusive uma aliança com ele. É saudado por Melquisedec, rei de Shalem (Jerusalém), palavra que significa “paz”.

Mas se Abraão é mais pacífico, o que dizer de Deus? Deus impediu que Abraão lhe oferecesse seu filho em sacrifício e esta proibição permanecerá.

Em Jerusalém, o vale de Geena está amaldiçoado porque reis ímpios acreditaram atrair os favores divinos sacrificando seus filhos e filhas. Deus condena isso, no profeta Jeremias: “Uma coisa dessas eu nunca mandei fazer!” (Jr 7, 31).

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BíbliaViolência
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