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Sartre estava errado: o inferno não são os outros

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O cristão tem um ensinamento muito importante a oferecer: a “descoberta” do próximo

Uma das grandes carências humanas de que podemos padecer é a incapacidade de discernir o significado e a transcendência da presença dos outros em nossas vidas e como podemos nos tornar “próximos” uns dos outros.
 
Este é um fenômeno global, permeado por uma profunda e crescente indolência frente aos dramas humanos que acontecem ao nosso redor. Em parte, é fruto de atitudes individualistas ou excludentes que não promovem nem ensinam a reconhecer que o outro é um “bem”, um tesouro precioso, que nos dá vida e humaniza.
 
Talvez seja difícil entender que disso depende nossa própria realização como sujeitos. No rosto do outro, especialmente do pobre e da vítima, é onde se mede o nível da nossa própria humanidade.
 
É possível que estejamos falhando no ensinamento e na transmissão da fé, ao não entender que, sem o amor ao próximo e a entrega fraterna a ele, nossa fé será vazia, pois careceremos da relação mais humana que pode haver: a fraternidade, o “tornar-nos próximos” dos outros para dar-lhes espaço em nosso coração, mente e história. Trata-se, então, de reconhecer que o cristianismo sempre se realiza em um lugar social, nunca individual.
 
Para muitos, os “outros” são aqueles que não pertencem ao círculo íntimo de amigos e familiares; imagens distantes, carentes de rosto e sempre alheias aos próprios interesses. Há quem os trate como seres descartáveis e os busque só por interesses políticos, econômicos ou religiosos.
 
São poucos os que se relacionam com os outros como sujeitos com rostos, cujas histórias de vida estão repletas de esperanças, dores, necessidade de carinho. E também de dramas que poucos de nós conhecem, ao manter um trato superficial ou somente interesseiro nas pessoas.
 
Por isso, vale a pena perguntar-nos: que palavras usamos quando falamos dos outros? Como os tratamos? Conhecemos suas histórias de vida? Como vemos os pobres, as vítimas e os doentes em nossas vidas? Damos-lhes espaço em nosso tempo e afeto?
 
A relação com eles nos humaniza ou é só instrumental? Nossas palavras e ações testemunham nossa humanidade, expressada nos valores que temos e na visão de família e de sociedade que estamos construindo.
 
Vale a pena recordar o teólogo von Balthasar: “O homem é sempre ele mesmo e seu próximo. Ele é responsável pela sua vida diante da eternidade, mas o fará segundo a maneira como viveu com seu próximo. (…) O próximo não é concebido aqui somente como aquele presente no ambiente que afeta privadamente o indivíduo, mas também como a totalidade dos que constituem a vida em sociedade”.
 
Por isso, descobrir que o outro tem um rosto e uma história é um bem precioso para cada um de nós. Isso confere a coragem de superar preconceitos e falsas barreiras que impedem de compartilhar, de maneira saudável, espaços de nossas vidas, e assim crescer em humanidade.
 
Perceber o outro como próximo nos dá uma perspectiva diferente: não é alguém a quem devemos oferecer esmolas ou presentes, pois o tornaríamos dependente, ao invés de livre; ele é aquele de quem devemos nos aproximar, “tornar-nos próximos”, dedicar nosso tempo para pensar em formas de compartilhar espaços e interesses, ainda nas diferenças.
 
O outro precisa ser tratado sempre como um bem precioso em nossas vidas, ainda quando não existir simpatia ou empatia alguma, porque sua dignidade humana jamais poderá passar despercebida.
 
Na parábola do bom samaritano, a questão não é dar algo ao próximo, mas “tornar-se próximo em sua dor”. Aproximar-se da vítima, daquele que caiu, e não passar ao seu lado com indiferença e indolência.
 
Só o samaritano, que era considerado indigno de Deus e mal exemplo moral, foi quem se aproximou e o tornou próximo, movido pela compaixão fraterna – antes mesmo que pela religião, pela economia ou pela política (cf. Lc 10, 29-37)
 
Para os cristãos, é um desafio transcendentes. Implica em querer ser tão bons e inclusivos como Deus, porque “em Deus não há distinção de pessoas” (Gál 2, 6). O próprio Jesus estava tão convencido disso, que, para Ele, não existia nenhuma relação religiosa, econômica ou política que pudesse substituir o que devemos fazer: ser irmãos.
 
O valor que damos ao outro é a medida da nossa humanidade. Como, então, concebemos o outro em nossas vidas?
 
(Para entrar em contato com o autor: rlteologiahoy@gmail.com, @rafluciani)
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