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Cristo e a Psicologia do Bem

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Élison Santos - publicado em 09/09/14

Ser cristão parece ser algo muito difícil e desafiador, principalmente quando se vê o cristianismo como um conjunto de regras morais que devem ser seguidas cegamente

Em 2008, enquanto apresentava um trabalho no Congresso Internacional de Psicologia em Berlim, tive a oportunidade de ouvir uma das conferências mais cobiçadas do congresso, a chamada Psicologia do Mal, apresentada por Phillip Zimbardo, Nobel em Psicologia. Ele explicava que quando o ser humano perde sua identidade em meio a um grupo homogêneo, como o exército, por exemplo, ele é capaz de cometer atrocidades que individualmente não cometeria, entre elas a tortura.

Se há uma psicologia do mal, certamente deverá haver uma psicologia do bem, pensava naquela ocasião. Se, por um lado, o ser humano é capaz de cometer atrocidades quando perde sua identidade individual, seria ele capaz de realizar maravilhas quando tem sua própria identidade pessoal potencializada? Que reflexão podemos fazer a respeito de Cristo e do cristianismo?

Embora o cristianismo seja, a priori, um perfeito exemplo de Cristo, muitos homens e mulheres já cometeram atrocidades em nome d’Ele. A história nos oferece exemplos de abusos e violações da dignidade humana em nome de Deus e da Igreja. Por certo, a chamada Psicologia do Mal também se aplica aos que se dizem crentes, pois a grande armadilha de qualquer religião é a tentação de se abrir mão da própria responsabilidade. Uma vez parte de um grupo e temente a um deus, qualquer indivíduo pode atirar pedras em uma prostituta ao ponto de assassiná-la, crendo defender as leis divinas. Mas seria isto cristão?

O que há de cristão entre os cristãos? Quando se vai a uma missa aos domingos por que todos vão, ou quando se entra na fila da comunhão porque todos entram, isto seria cristão? Há muitas formas de se dizer seguidor da lei e muitas destas formas são regadas pela irresponsabilidade. Afinal, o que é ser responsável?

Seria responsável negligenciar a lei para curar um enfermo? Seria responsável abrir mão da tradição para salvar uma mulher da morte? Seria responsável dar a chance a um criminoso para trabalhar na sua empresa? Seria responsável que um adolescente abandonasse seus pais para buscar o crescimento espiritual em um templo? Seria responsável ensinar as pessoas a buscarem a verdade em um sistema social que prega a mentira? Seria responsável derrubar as mesas dos comerciantes dentro de um templo? Seria responsável oferecer sua própria vida para salvar a vida dos seus amigos?

Se sua resposta para estas perguntas é positiva, possivelmente você conhece Cristo, do contrário sua visão fundamenta a afirmação de Nietzsche que disse: “o último cristão morreu na cruz” e a alegação de Gandhi quando confessa: “amo o cristianismo, mas odeio os cristãos, pois não vivem segundo os ensinamentos de Cristo”. O exemplo de Cristo, embora pareça transcender o âmbito do possível, ressoa de forma extremamente positiva na capacidade que apenas o ser humano tem entre os seres vivos, o poder de amar! A lei que é inaugurada pelo Homem da cruz é a lei do amor e, como dizia Epicuro, 300 anos antes de Cristo, o amor é superior à lei, superior ao direito. Uma pessoa só é capaz de realizar grandes coisas quando assume sua identidade, única e irrepetível, quando não abre mão de seus princípios e valores, quando é capaz de nadar contra a correnteza e questionar as vozes tantas vezes incoerentes das multidões.

Ser cristão parece ser algo muito difícil e desafiador, principalmente quando se vê o cristianismo como um conjunto de regras morais que devem ser seguidas cegamente. Muito possivelmente, quando a maior de todas as leis é assimilada, todo o resto seja uma consequência natural, afinal de contas, o que o ser humano não é capaz de fazer por amor?

Tags:
CristianismoPsicologia
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