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É possível que os parentes de Jesus tenham emigrado para o antigo Iraque?

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Safariari CC

Philip Jenkins - publicado em 17/09/14

Um intrigante testemunho de arcaicas fontes cristãs

Em meio à catástrofe que está devastando o cristianismo no Iraque, a nossa primeira preocupação deve ser, obviamente, com o bem-estar das vítimas. Mas não devemos nunca nos esquecer de quem são essas pessoas e das raízes profundas das tradições que elas representam. Alguns dos relatos associados com essas tradições remetem de modo surpreendente às origens do cristianismo.

No início da era cristã, a Mesopotâmia (atual Iraque) era um próspero centro do judaísmo rabínico e, durante todo o primeiro milênio, foi a capital intelectual daquela fé. Considerando-se esta origem judaica, é natural encontrarmos assentamentos cristãos muito antigos no Iraque. Dentro do império persa, o maior centro de poder da Igreja estava na capital, Selêucia-Ctesifonte. O bispo local, que mais tarde viria a ser chamado de patriarca, presidiu de lá o seu rebanho até que aconteceu a mudança do patriarcado para Bagdá, já no começo dos tempos islâmicos.

A tradição da Igreja oriental chegou a afirmar que, entre os cristãos que migraram para o Iraque, havia parentes do próprio Jesus.

Eu não pretendo atribuir precisão histórica a todo o material tardio sobre detalhes do primeiro e do segundo séculos da nossa era, mas o quadro geral é surpreendentemente plausível. É bem diferente do caso das lendas medievais que sugerem que Maria Madalena tenha morrido na França ou que José de Arimateia tenha ido morar na Inglaterra.

No meu livro "A História Perdida do Cristianismo", eu informo que, por volta de 1500, a Igreja do Oriente (os "nestorianos") descreveu a sucessão apostólica dos seus patriarcas (ou “katholikoi”). A linha começa com Addai e Mârî, da geração apostólica:

– Addai foi enterrado em Edessa.

– Mârî foi enterrado no convento de Kônî.

As igrejas sírias consideram esses homens como seus especiais patronos. A anáfora siríaca dos apóstolos Addai e Mârî é a mais antiga liturgia cristã ainda em uso.

Em seguida, temos o terceiro nome, "Abrîs, da imposição de mãos de Antioquia". E os registros prosseguem:

– Abraão era da imposição de mãos de Antioquia; ele era descendente de família de Jacó, filho de José; seu túmulo está em Ctesifonte.

– Tiago, da imposição de mãos de Antioquia, também era da família de José, o esposo de Maria; seu túmulo está em Ctesifonte.

– Ahâ-d’abûhî era da imposição de mãos de Antioquia; seu túmulo está em Ctesifonte.

Outros nomes posteriores eram "da imposição de mãos de Ctesifonte". Os “katholikoi” ficaram sediados naquela cidade até se mudarem formalmente para Bagdá, por volta do ano 780.

Será que esses relatos podem mesmo estar enraizados em fatos históricos?

De modo resumido, eles afirmam que o cristianismo chegou a Edessa muito cedo, logo após a morte de Jesus, e que os primeiros missionários eram de Antioquia. Dada a relação das cidades e das rotas de comércio, o padrão geral é perfeitamente possível. Ele também sugere uma presença cristã baseada em Ctesifonte desde o início do segundo século, possibilidade que se articula muito bem com a história judaica que nós conhecemos.

Segundo essa tradição oriental, o terceiro e o quarto líderes daquela igreja eram da família de José, o esposo de Maria. Antigos historiadores, como Eusébio, confirmam que o parentesco com Jesus dava especiais garantias à autoridade na Igreja primitiva. Perto do fim do primeiro século, o imperador romano Domiciano mandou procurar os "parentes do Senhor", os “desposynoi”, de quem ele tinha suspeitas de sedição. No entanto, os parentes sobreviventes eram pequenos agricultores que trabalhavam muito duro e a quem o imperador julgou indignos da sua atenção, deixando-os, por isso, viver em paz. Aparentemente, eles moravam na Palestina ou na Síria.

Essa inquisição promovida pelo imperador poderia muito bem ter persuadido os membros remanescentes da família a migrar para além dos limites do poder romano: para a cidade de Ctesifonte, por exemplo, que é exatamente o que os registros nestorianos sugerem. A história também se encaixa bem no que sabemos hoje sobre os judeus que se mudaram para a Babilônia naqueles mesmos anos. Mesmo que não se aplique à família de Jesus, essa mudança poderia se aplicar a outros membros do movimento cristão daquela mesma época.

A propósito, em I Pedro 5, o autor termina com saudações "da Babilônia", o que se tornou um ponto controverso na polêmica denominacional. Alguns escritores protestantes sugerem que Pedro viveu e morreu na Babilônia, e não em Roma, tornando sem sentido as alegações de que os papas herdariam a autoridade petrina. Outras tradições primitivas de muito mais relevância, porém, confirmam as ligações de Pedro com Roma e o fato de que “Babilônia” era um familiar código verbal que se referia, na verdade, à própria Roma.

Pedro jamais colocou os pés na Babilônia. Mas alguns dos parentes de Jesus podem muito bem ter colocado os deles.

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