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Papa Francisco na periferia que buscou cancelar Deus

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Maria Loura Conte - publicado em 19/09/14

O diretor da Cáritas albanesa descreve a espera pela visita do Papa

“Se o pecado é o distanciamento de Deus, a Albânia seria o país onde o pecado foi escrito na Constituição. A vida dos crentes tornou-se impossível aqui, nesta periferia do mundo. Uma periferia que hoje se sente olhada e preferida por Francisco”. Assim Albert Nikolla, 45 anos, casado e pai de dois filhos, diretor da Cáritas da Albânia, e coordenador da visita do Papa no próximo dia 21 de setembro, apresentou o seu país. Após estudar teologia e fazer um doutorado em antropologia na Itália, há alguns anos possui um cargo na Cáritas. Desta forma pôde passar – como ele mesmo contou – da ética dos livros (foi professor na Universidade Católica de Tirana), à ética concreta. Hoje ele dirige uma estrutura que conta com 200 colaboradores, 1.000 voluntários e sustenta todo ano, de várias maneiras, cerca de 80.000 pessoas. 

A Albânia é um país de maioria muçulmana, cerca de 60%. Quem e como está esperando o Papa Francisco?

A Albânia toda espera Francisco. Não apenas a comunidade católica, mas o país no seu todo o está esperando, porque quando o Papa Bergoglio anunciou que viria aqui, apresentou duas motivações. A primeira, para reforçar e confirmar a Igreja na fé, a segunda para encorajar e testemunhar toda a sua proximidade a este povo que sofreu muito. Todo o povo albanês sentiu-se abraçado pelo Papa, percebido como um amigo que desperta simpatia imediata, um pastor que se mistura com as ovelhas e caminha próximo delas. Quando em uma entrevista importante para a Civiltà Cattolica o Papa se apresentou como “um pecador”, nós que somos um povo de pecadores nos sentimos imediatamente acolhidos por ele. 

Após 25 anos de comunismo a Albânia acertou as contas com seu passado?

Não, 25 anos não foram o bastante para sanar as feridas abertas no país. Em particular a Albânia sofre pela injustiça social propagada: a corrupção, o mercado desenfreado da droga, a miséria. Eu disse que somos “pecadores”. Mas como diz São Paulo: “onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Se o mesmo Papa Bergoglio se define pecador ao qual o Senhor lança Seu olhar, também a Albânia pode se definir, por analogia, um país do qual o Senhor agora, por meio do Papa Francisco, está nos olhando. Este olhar pode levar um bem a todos.

Como diretor da Cáritas, de quais problemas o senhor se sente mais solicitado?

Diariamente sou provocado pela falta de justiça social. O país tem problemas muito fortes em algumas áreas em comparação a outras, mas em geral sofre pela maciça migração interna. Sempre mais pessoas se transferem dos vilarejos mais pobres para a cidade, onde esperam encontrar uma vida melhor, muitas vezes sem conseguir. O governo pós-comunista se encontra desorientado diante do êxodo bíblico. Faltam estruturas para ajudar as famílias que migram. Muitas crianças permanecem sem acesso a escola, muitos deficientes não encontram ajuda e são forçados a permanecer fechados em casa. Existe também uma grande necessidade de cuidar dos doentes em fase terminal. A Cáritas é hoje a única entidade em todo o país que se ocupa, graças a alguns hospitais, de administrar os cuidados paliativos de doentes que estão em fase terminal. 

Diante de feridas tão profundas, o que pode significar uma visita de um dia?

Minha mulher diz que esta visita será um choque espiritual para o país, um grande catalisador. Uma ocasião para rever aquilo que o país realmente precisa, depois do comunismo e depois da onda de um capitalismo que apresenta contas muito salgadas. Toda a sociedade albanesa não poderá permanecer indiferente a um Papa que tem a experiência direta do que quer dizer ser e viver na periferia. Ele tocou com suas mãos a pobreza. Também a Albânia é periferia, mas como diz o Evangelho, foi “escolhida”. 

A Albânia deu passos: os barcos carregados de albaneses em fuga nos anos 90 são quase uma recordação do passado. Existem sinais positivos do crescimento?

Hoje existe um grande desejo de abertura para a Europa, em direção à prosperidade econômica e cultural. Demos passos notáveis: o país saiu da desgraça do comunismo e do período caótico que seguiu o fim do regime. A economia mostra sinais de esperança. Junto com a economia, são recuperados os homens e as mulheres. Aqui o comunismo exerceu uma violência radial quando sancionou o ateísmo de Estado, fechou os lugares de culto de todas as religiões e enfraqueceu as instituições religiosas, foi quando entrou na parte mais íntima das pessoas, como a esfera da consciência. Mas o comunismo cometeu um grave erro de avaliação quando insisitiu em que se podia erradicar Deus do coração do homem. Este é um erro antropológico, pois Deus habita o coração do homem e ali permaneceu durante os anos do ateísmo do Estado. Não apenas existiu a possibilidade, mas essa inspiração religiosa floresceu novamente. A vida religiosa renasceu. A política do medo e da violência não matou a vida religiosa dos cristãos, muçulmanos e bektashi. Por isso o Papa acentua a importância do diálogo interreligioso como uma condição intrínseca à própria fé. 

Desta tentativa de erradicação da fé do coração dos homens, o senhor possui uma lembrança em particular?

Muitas, mas cito uma em particular. Os meus pais e avós eram pessoas de fé, mas não podiam se encontrar para celebrar a missa, era proibido. Podiam se encontrar no máximo para rezar o Terço. Mas esta religiosidade era simples e resistente. Em 1989, eu era estudante na universidade de Tirana. Voltei para casa num fim de semana com um trabalho: escrever um breve texto marxista sobre a falsidade da fé cristã. Quando eu disse à minha mãe, ela fez o sinal da cruz e me respondeu com um tom que lembro ainda hoje: “Deus te perdoe”. A fé da minha mãe era assim, uma fé pequena, sólida e tenaz. 

Uma hereditariedade imponente, também para os filhos da época comunista.

Esta fé dos meus pais é uma grande riqueza, que não pode morrer com eles. As gerações nascidas nos anos 80 não têm a mínima ideia do que pode querer dizer viver uma experiência religiosa, pertencer a uma comunidade religiosa, não tiveram nenhuma educação dos fundamentos da fé. Enquanto, ao contrário, desde o inicio foram investidos da intrusa proposta do comunismo, de impacto extraordinário. Hoje a Igreja católica precisa iniciar do zero com os jovens. E, de certa forma, isso está andando com a comunidade islâmica. Sobre este reflorescer da fé encontramos cristãos e muçulmanos, os nossos relacionamentos são muito bons. Talvez, também por este motivo a comunidade muçulmana aguarda com alegria a chegada do Papa Francisco.

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CristãosPapa FranciscoViagem
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